Letícia Persiles exalta a força das mulheres no cangaço em seu novo disco, ‘O Baile das Andorinhas’

Conheça a história de Maria Bonita e outras mulheres cangaceiras através do disco de Leticia Persiles

É comum que vidas de mulheres históricas sejam sempre marcadas por luta, revolução e muito sofrimento. Maria Gomes de Oliveira foi uma mulher baiana, que viveu pouco, mas viveu tempo suficiente para quebrar paradigmas e servir de exemplo de empoderamento à nordestinas como ela. No sertão, ela era Maria de Déa. Depois que foi morta, degolada, a imprensa da época se interessou em saber sobre sua trajetória, mas colocou nela um outro nome: Maria Bonita. A Rainha do Cangaço. A primeira mulher a integrar um grupo de cangaceiros. Assim, Maria, ainda hoje, inspira arte de todas as formas. ‘O Baile das Andorinhas‘, novo disco de Letícia Persiles, entrou para a lista de obras contemporâneas que prestam homenagem, em forma de música e poesia, à força das mulheres cangaceiras.

É claro que a geração dos anos 20/30 se dividia entre opressores e oprimidos — como ainda funciona nos dias de hoje —, e as mulheres nordestinas não tinham como maior problema a falta de liberdade de se envolverem com bandos. Não era aceitável desagradar as vontades do marido, nem muito menos se apresentar à sociedade como uma mulher separada. Mulher falando alto e dando risada? Não mesmo. O detalhe é que Maria Bonita era exatamente assim e, provavelmente, um pouco mais do que isso.

Aos olhos do patriarcado, ser uma mulher como Maria Bonita era ser transgressora, ser rebelde — personalidade naturalizada só quando o sujeito era um homem. Sua sede de independência própria transformou a maneira como os grupos do cangaço funcionavam, dando espaço à outras mulheres que, por mais que continuassem a sofrer, teriam contato com um universo censurado a elas até então.

Para a cantora, compositora e atriz Letícia Persiles, as cangaceiras foram como andorinhas que vivem e voam juntas a procura da real liberdade. “E o que se viu depois foi aquele céu de estrelas de couro com as suas presenças e vozes femininas como uma revoada de andorinhas, expressa a artista. O trajeto dessas aves é sempre liderado pela mais experiente. No caso do movimento do cangaço, era Maria de Déa quem estava lá para dar início a uma revolução, cheia de dor e coragem.

“Gosto de compará-la e algumas de suas companheiras a pássaros migratórios, seres que só conseguem viver em liberdade e que estão em constante movimento, sem ter um endereço certo. Já tive a oportunidade de olhar no fundo dos olhos de uma andorinha e imagino que todo o horizonte sem fim que eu enxerguei ali, também poderia ser contemplado no fundo dos olhos de Maria” – Letícia Persiles

O Baile das Andorinhas‘ é o segundo disco de Letícia Persiles, precedido por ‘Cartas de Amor e Saudade‘ (2013). Os últimos anos dela foram dedicados à produção dessa coletânea cheia de sensibilidade, composta por nove faixas inspiradas na passagem de Maria Bonita pela vida e pelo sertão nordestino. Cinco dessas nove foram escritas por ela, e uma delas é a ‘Lídia‘, em homenagem à cangaceira morta a pauladas pelo companheiro. Para essa canção, Letícia desfrutou de palavras do pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo, em um trecho de seu livro ‘Maria Bonita‘, e convidou a artista Edzita Sigo Viva para a interpretação.

O mais novo trabalho de Letícia se entrega de uma maneira tão admirável ao mundo, graças, não apenas ao espírito artístico da cantora e compositora, mas também ao talento de artistas parceiros dessa jornada em memória às mulheres do cangaço. Lucas Vasconcellos é um deles, compositor de duas canções presentes no disco, além de ter produzido, arranjado e gravado a maioria dos instrumentos. Além das músicas de autoria deles, uma das faixas do álbum é uma regravação do grande Geraldo Azevedo, ‘Caravana‘.

Obras como ‘O Baile das Andorinhas‘ precisam ser lembradas por nós, guardadas em nossos corações e em nossa história. É um disco com cara, corpo e alma. Letícia, com sua naturalidade de cantar e interpretar sentimentos tão intensos, encarna a mulher cangaceira, forte e corajosa. A mulher que foi marcada a ferro quente, a mulher que foi violada, a mulher que encarou tudo para aprender a voar com suas próprias asas. 

Quero fazer o meu caminho. Eu sei de mim, sou passarinho. – Trecho de ‘Trem Fantasma’, primeira faixa de ‘O Baile das Andorinhas’

Escute ‘O Baile das Andorinhas’, de Letícia Persiles

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