
A maratona de 5 dias de Novas Frequências no Rio de Janeiro, que foi do metal ao ambient e do teatro à floresta, foi coroada com um encerramento no Circo Voador no último domingo. Com curadoria atenta de Chico Dub e a missão firme de ocupar diferentes espaços pela cidade, o Novas Frequências vem há 15 anos se firmando como espaço sólido de experimentação e provocação musical ao vivo para artistas do Brasil e do mundo.
Na abertura das atividades do último dia, subiu ao palco a Papangu, em quarteto, para dar uma aula de improviso. E como prometido em entrevista ao MI, além de faixas de Holoceno (2021) e Lampião Rei (2024), o público recebeu um gostinho do que vem aí no terceiro disco, com lançamento previsto para o ano que vem. O show passeia pelas várias facetas musicais da banda, o que inclui tanto melodias doces quanto guturais afiados, com transições repentinas e bem executadas de um para o outro. Junto aos tradicionais guitarra, baixo, bateria e teclado, se juntam triângulo, flauta, apito, demonstrando uma postura pouco purista diante do rock. E o apelido estético de “hermetocore” não vem à toa, já que até bichinho de estimação inflável vira instrumento.
Com a Papangu, não tem setlist, é tudo decidido ali no ao vivo, o que só prova como cada show é realmente único, e no domingo ainda tivemos a surpresa da participação especial de Chico Brown na guitarra. Na entrevista alguns dias antes do festival, Rodolfo (voz e teclados) e Hector (voz e guitarra) comentaram como estavam felizes pela oportunidade de tocar no Circo, e a alegria de fato exalava no palco e no som. A expectativa ideal para um show da Papangu é ir sem expectativas, porque eles sempre vão surpreender, mantendo uma única constante: mostrar ser uma banda que pertence aos palcos.

Em seguida, o festival abriu o espaço para a entrada das bandas Test e Deafkids, representantes da música extrema, desde o início com uma marca percussiva indomável que reflete no restante de toda a apresentação. Sem boa noite ou outros cumprimentos, os artistas chegam ao palco para cumprir sua única missão: a música. Em meio a uma iluminação infernal e o som do fim do mundo, essa união de bandas provoca um incêndio no palco.
As duas bandas são parceiras nos palcos faz tempo, com algumas turnês internacionais no histórico. A parceria ganhou enfim um registro em estúdio com o álbum Sem Esperanças (2025), que compôs o repertório principal da noite. João Kombi, Barata (Test), Marian Sarine e Douglas Leal (Deafkids) são músicos totalmente impressionantes e tem uma habilidade incomparável para executar a fusão do punk, noise e música industrial e transformá-la no som do fim do mundo.

No fechamento da noite, foi a vez do Metá Metá, banda da qual é difícil falar sem recorrer ao divino e transcendental. O trio mais prestigioso do Brasil, composto por Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal, se apresentou em configuração minimalista e mostrou que não precisa de nada além do violão, do sax e da voz. A mistura dos traços musicais brasileiros e africanos é feita de forma extremamente singular, e por isso eles não cabem em nenhuma caixinha que busque definir propriamente a música brasileira.
Mesmo sem lançamentos como grupo há quase uma década, as atividades não param, e a magia também não. O grupo atravessa um bom momento, tendo recentemente se apresentado no Tiny Desk Brasil, e mostrando cada vez mais a atemporalidade de seu som que reflete na atmosfera única das apresentações ao vivo. As parcerias também são fundamentais nessa trajetória: os amigos Negro Leo e Douglas Germano foram citados, e o mestre Jards Macalé, após sua recente partida, foi homenageado nas faixas “Boneca Semiótica” e “Let’s Play That”.
Todos os membros têm uma presença totalmente hipnotizante no palco, é um privilégio observar tão de perto e com detalhes o fazer musical de cada um — tão perto que Thiago França desceu para a plateia para um solo de sax. Embora o show do Metá Metá possa se inclinar diante do viés introspectivo espiritual, dessa vez o caminho foi outro: o do bom humor. Sorrisos, cantos altos e uma roda muito divertida na plateia ao final ao som de “Oba Iná”. Foi épico, e como sempre, deixando um gostinho de querer mais.

