Primeiro EP de ÀIYÉ

Primeiro EP de ÀIYÉ traz tambores, ancestralidade e experimentação eletrônica

Projeto da multi instrumentista Larissa Conforto é lançado pela Balaclava Records 

Ao resgatar toques de tambor ancestrais, mergulhar na experimentação eletrônica e apostar em um formato one woman band, a carioca Larissa Conforto deu asas ao projeto ÀIYÉ, que lança hoje, 20 de março, Gratitrevas (Balaclava Records), seu primeiro EP. 

Gravado entre Brasil e Portugal, o EP é uma espécie de renascimento da artista após o fim da banda Ventre, da qual fez parte durante seis anos. O disco reúne espiritualidade, rituais, ritmos de resistência, saudades da avó, David Lynch e confissões em um universo solitário, porém presente e pulsante. Vivo. Ouça aqui.

Gratitrevas é sobre reconhecer as trevas (de si própria e do mundo) e, mesmo assim, agradecer. Um registro íntimo e político que ecoa, a partir de colagens de tambores, texturas e vivências, gritos e revoltas contemporâneas e universais. É sobre encarar o presente, por mais hostil que pareça, e despertar para novas possibilidades de futuro, ancoradas em saberes ancestrais. 

“Foi um processo muito intenso entre Rio, São Paulo, Lisboa e Paris. Compus, gravei e produzi as músicas enquanto acompanhava a cantora francesa Laure Briard em turnê pelo Brasil ao mesmo tempo que vendia todos os meus pertences para alçar vôo para Lisboa. Lidei com minhas próprias sombras pra encontrar minha voz, enquanto enfrentava os desafios de viver [de música] em outro país, além do fuso-horário e dificuldades de comunicação com Diego Poloni, que co-produziu e mixou parte do EP, no Brasil”, conta. 

Enquanto produzia Gratitrevas, ÀIYÉ experimentou suas composições ao vivo em performances intensas que passaram por Lisboa, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte entre outras cidades. Com o lançamento do EP, a artista segue desbravando o mundo e de Março a Maio passará uma temporada no Japão, acompanhando a artista Numa Gama e realizando shows da tour de Gratitrevas, Em breve, serão anunciadas as datas das apresentações.

SOBRE LARISSA CONFORTO

Larissa Conforto é artista sônica, ritmista, compositora e produtora carioca de raízes amazônicas, radicada na Europa. Interessada em inovação, magia e em mudar o mundo, investiga universo audiovisual e performático como instrumento de cura e transformação em seu projeto ÀIYÉ. Premiada na categoria “Melhor Instrumentista” do prêmio RIFF (2016), passou seis anos à frente da bateria na Ventre e faz parte das bandas de Paulinho Moska, Numa Gama e Ricardo Richaid e do Bloco de Carnaval Calor da Rua. É voluntária no projeto Girls Rock Camp, integrante da coletiva artvista MOTIM (RJ), da articuladora cultural SÊLA (SP) e dos grupos internacionais de ativismo climático XR (Extintion Rebellion) e Rhythms of Resistance. Formada em produção fonográfica com especialização em Music Business, atuou como produtora artística em álbuns de Gilberto Gil, Chico Buarque, Alceu Valença e Karol Conká. Participou do programa ASA (Arte Sônica Amplificada) do British Council com mentoria da artista britânica Hannah Catherine Jones (NTS, BBC), que a apresentou à metodologia de descolonização aplicada nas colagens e sons disruptivos de ÀIYÉ.

FAIXA A FAIXA – Primeiro EP de ÀIYÉ

O disco abre com Semente, primeira música que Larissa fez na vida e a última do álbum a ficar pronta. “Era um coco pra minha avó Isis, querida, que nasceu no meio do Rio Amazonas e partiu de nave espacial no dia do meu aniversário. Ela me ensinou que sementes são como o espírito: elas guardam na casquinha todo o potencial da vida e são eternas, imortais, e únicas”, lembra. A princípio seria uma intro de tambor e voz, mas depois de um encontro com as instrumentistas do Quarteto Cais no estúdio Carolina, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, vieram as primeiras notas. Aline Gonçalves, sob supervisão da engenheira de som Daniela Pastore, ex-professora de Larissa na faculdade de Produção Fonográfica, gravou o Rhodes analógico que sofre alterações de pitch enquanto Larissa entoa: “Eu sou semente forte, pode mandar me asfaltar”. “O que era um côco se misturou com tambores de candombe uruguayo e claves de Ilú, pra chamar a tempestade, com um pézinho num trap disforme do meu jeitinho bem torto. Ou seja: invoquei todas as forças da natureza pra fazer essas sementes brotarem do asfalto. SEREMOS AS FLORES QUE NASCERÃO DO CONCRETO. Podem mandar asfaltar!”

Pulmão foi o primeiro single do álbum e teve origem no poema que Larissa fez na intro do EP de despedida da Ventre, “Saudade”, e que recita no fim da faixa. “Fala sobre a era da internet em que recebemos um fluxo altíssimo de informações e estímulos todo dia, e da necessidade de se esvaziar, pra conseguir enxergar novas coisas. O beat é um misto de maculelê com funk carioca, com timbre de aro e couro de alfaia, e uma certa melancolia que bate no peito em dias chuva. Não está fácil, não, e a gente precisa mesmo esvaziar, respirar fundo, se encontrar em outras instâncias do ser para além da fala, da raiva e do medo”. 

Na sequência vem Silêncio, uma intro da faixa seguinte. Trata-se de experimentos com ambiências e compassos alternados, “inspirada pela minha cena favorita de Mulholland Drive, do David Lynch”, revela.

Originalmente, Terreiro nasceu em espanhol, “embora o conceito e a palavra sejam a mais forte expressão da cultura brasileira – que é a umbanda. Minha religião, minha pesquisa, meu grande encontro nessa vida”, pondera. A faixa mescla claves de Son De Los Diablos, um ritmo afro peruano de resistência, com um beat em compasso composto com a intenção de incorporar a energia desse rito sagrado. “Terreiro é a casa que recebe a luz, é o chão sagrado onde dançam nossos ancestrais, lugar de cura, de memória, resistência e celebração. Eu quis trazer essa atmosfera guiada pelo toque do tambor pra uma perspectiva futurista, e foi com elementos de música eletrônica mesclados com samples de atabaques e claves latino americanas, pra lembrar que a nossa cultura é uma só, e é a da mistura, da diversidade, do sincretismo e do respeito”, completa Larissa. 

O spoken word Mito e a Caverna é um feat entre Larissa e Vitor Brauer e surgiu depois dos dois terem feito uma turnê juntos em  2018, na qual passaram dois meses em um Corsa 96, de norte a sul do Brasil, vestidos de vermelho e pedindo atenção às eleições. A faixa também contar guitarras de Gabriel Ventura (Ventre). “Recebemos a notícia do incêndio no Museu Nacional durante o percurso, e conversamos muito sobre o significado do fogo em todo esse contexto de ausência do poder público. Alguns dias depois, encontramos um canavial gigantesco em chamas e tiramos fotos. A gente não fazia idéia do tamanho do incêndio que esse mesmo fogo provocaria quando nos revisitasse, como foi a Amazônia”.

Isadora é uma samba que Larissa fez para sua irmã mais nova. É sobre lidar com a morte e as perdas da vida, ter resiliência e, acima de tudo, sobre não estar só. “Eu gravei ela toda no iphone, na Tijuca, no quarto do meu pai, pouco antes de me mudar para Portugal. Como boa carioca que sou, misturei samba com o nosso amado funk 150 bpm, só que mais rápido e com timbres que roubei de pacotes de sons de foley. Me emocionei mesmo…”, entrega a artista.  

Sombra (US) tem participações sutis Hugo Noguchi e foi escrita depois de Larissa voltar de uma turnê da Ventre: Eu estava sofrendo de depressão na época, enfrentando muitos monstros.”, conta. A princípio, a ideia não era incluí-la no álbum: “eu musiquei a letra em cima de um sample da minha música favorita da Fiona Apple, “Fast As You Can”, em velocidade muuuito lenta, mas ela não saia do lugar. Acabei mandando pro Hugo, meu parceiro de melancolia, que anda produzindo umas coisas muito fodas. Os noises e delays dele me inspiraram a fazer outro arranjo, e ela então começou a ter carinha de Gratitrevas. GRATI-HUGO”.

A última faixa, Astrosoma, também não estava prevista para entrar no álbum, “era só um interlúdio que eu fazia em show, em inglês e espanhol, pra provocar as pessoas que não estavam entendendo as músicas em português. No fundo, essa quase não-música tem um significado muito forte pra mim, e (acredite se quiser), tem a ver com experiências ufológicas. Fica a bomba, risos”, revela. 

E ficam as perguntas:

O que vamos fazer pra acordar? 

Como é que vamos mudar as coisas? 

Quando começaremos a transformar esse sistema, esse patriarcado, essa estrutura de poder que se alimenta dos nossos desejos e sonhos? 

Até quando vamos negar as forças ocultas, o mistério, a magia, o desconhecido, o extra-físico, o espiritual, o paranormal, o que se sente e se é, o que é impossível de explicar com palavras?

Saiba mais sobre o primeiro EP de ÀIYÉ:

FICHA TÉCNICA GRATITREVAS, Primeiro EP de ÀIYÉ

01 – SEMENTE

Letra, música, vozes e beats: Larissa Conforto,
Voz gravada no estúdio Carolina (Rio de Janeiro) 

Engenheira de som: Rafaela Prestes
Rhodes gravado por Aline Gonçalves (Quarteto cAIs) no estúdio Carolina (Rio de Janeiro) 

Engenheira de som: Daniela Pastore
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mixagem: Diego Poloni
Master: Bruno Schulz


02 – PULMÃO
Letra, música, vozes e beat: Larissa Conforto
Guitarra, synth: Diego Poloni
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mix e master: Diego Poloni

 

03 – SILÊNCIO
Letra, música, vozes e beat: Larissa Conforto
Guitarra, synth: Diego Poloni
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mix e master: Diego Poloni

 

04 – TERREIRO
Letra, música, vozes e beat: Larissa Conforto
Bateria: Larissa Conforto no estúdio Estrela (Lisboa)

Engenharia de som: Bruno Schulz
Guitarra, synth: Diego Poloni
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mix e master: Diego Poloni


05 – O MITO E A CAVERNA
Letra: Larissa Conforto e Vitor Brauer
Música e beats: Larissa Conforto
Guitarra: Gabriel Ventura
Bateria: Larissa Conforto no estúdio Estrela (Lisboa)

Engenharia de som: Bruno Schulz
Voz Larissa gravada no Estúdio MADÁ (Rio de Janeiro)
Engenharia de som: Bruno Schulz
Voz Vitor gravada por ele mesmo no seu quarto
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mix e master: Diego Poloni
Edições adicionais e supervisão: Bruno Schulz

06 – ISADORA
Letra, música, vozes, violões, percussão, beats: Larissa Conforto
Vozes e violões gravadas no Iphone, no quartinho da Tijuca, Rio de Janeiro
Percussões gravadas no estúdio 304 (Rio de Janeiro)

Engenheiro de Som: Bruno Schulz
Produção musical por Larissa Conforto
Mix e Master: Diego Poloni
Overdubs, finalização, edições adicionais: Bruno Schulz

Gravada entre março de 2019 e fevereiro de 2020 no Rio de Janeiro

07 – SOMBRA (US)
Letra, música e vozes: Larissa Conforto
Efeitos e sujeiras: Hugo Noguchi
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mix e Master: Diego Poloni

08 – ASTROSOMA (Despertar)
Letra, música e vozes: Larissa Conforto
Produção musical: Larissa Conforto e Diego Poloni
Mix e Master: Diego Poloni

Vacilação geral e desaparecimentos: Diego Poloni
Salvamento da nação: Bruno Schulz

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