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+umTour e a difícil tarefa de fazer a música independente circular

Encerramento da +umTour em Campinas expôs os desafios de circulação da cena independente, entre shows intimistas, público reduzido e a urgência de formar novas escutas

A segunda edição da +umTour chegou ao fim no último domingo, em Campinas. A noite de encerramento contou com Dinho (Boogarins), que alternou músicas de sua banda com faixas do novo EP solo, Dias Fora Almeida. O trabalho nasceu do projeto Águas Turvas, resultado de quatro noites de colaborações especiais realizadas no Teatro Centro da Terra, em São Paulo, em 2023. Na sequência, o Ottopapi subiu ao palco para apresentar Bala de Banana, seu álbum de estreia. O público já havia conhecido parte desse repertório na quinta edição do Circuito Nova Música, Novos Caminhos, projeto cultural que também leva a assinatura de Lúcio Ribeiro na curadoria.

Mais do que o encerramento de uma turnê, a noite acabou evidenciando uma questão que atravessa boa parte da música independente hoje: como fazer novos artistas circularem, encontrarem público e permanecerem relevantes em um cenário em que a descoberta musical acontece de formas cada vez mais fragmentadas?

O show começou às oito da noite para um público reduzido. Enquanto Dinho se preparava para subir ao palco, tivemos tempo para conversar sobre assuntos que foram muito além da nota de release. Uma pergunta sobre o lançamento de seu novo disco acabou puxando uma reflexão sobre o papel do jornalismo cultural e sobre a forma como a nova geração consome — ou deixa de consumir — esse tipo de conteúdo. Falamos sobre a perda do hábito da leitura, a dificuldade de manter a atenção em textos mais longos e como isso afeta toda a engrenagem da música independente, desde a descoberta de novas bandas até a formação de público. Talvez tenha sido exatamente esse o alerta presente na carta de despedida publicada pelo Monkeybuzz ao encerrar suas atividades.

Mesmo com a voz visivelmente rouca, Dinho entregou uma ótima apresentação para cerca de 30 pessoas (número que já incluía equipe e funcionários da casa). O repertório passeou por músicas do Boogarins, como “Corpo Asa”, e por faixas de Dias Fora, como “Dias Difíceis”, apresentada com direito a um monólogo ácido sobre amizades falsas. O formato intimista favoreceu a troca com quem estava ali. Comunicativo do início ao fim, abriu espaço para que o público escolhesse algumas canções e, pedindo desculpas pela voz cansada depois de passar por sete cidades, aproveitou a ocasião para revisitar e experimentar músicas que não tocava há um tempo. Ficou a impressão de que, com mais tempo e cordas vocais descansadas, o show teria ido ainda mais longe.

Na sequência, o Ottopapi encerrou a noite deixando um misto de sensações. Era difícil saber se a postura mais contida vinha do desgaste da estrada ou da resposta tímida do público. Seja qual fosse a razão, a apresentação ficou abaixo da energia que a banda costuma entregar ao vivo. Ainda assim, o grupo apresentou um setlist completo, passou pelas faixas mais divertidas de Bala de Banana, conversou com a plateia e agradeceu diversas vezes a presença de quem compareceu. O show funcionou, mas ficou distante da personalidade expansiva que costuma marcar as apresentações do Ottopapi. E eu não os culpo.

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo poucas horas antes do início do evento certamente não ajudou na presença de público em Campinas. Ainda assim, o esvaziamento não parece ter sido um episódio isolado. Situação semelhante já havia acontecido em outras cidades da turnê e também na edição anterior do projeto, indicando um problema mais estrutural do que circunstancial.

A noite foi divertida dentro do possível, mas o potencial desperdiçado ficou evidente. A divulgação certamente contribuiu para esse cenário. Apesar do forte apoio da imprensa, que foi de jornais locais até menções na agenda de eventos da Globo, a comunicação oficial nas redes sociais ficou muito aquém do esperado. Limitar-se a um post por cidade, publicado apenas na véspera do show e informando somente o nome da casa, sem horário, endereço completo ou nome da plataforma de ingressos, é muito pouco para um projeto desse porte. Soma-se a isso a divulgação praticamente inexistente dos artistas de abertura em cidades como Sorocaba, Belo Horizonte, Brasília e Uberlândia.

A curadoria de Lúcio Ribeiro também merece reflexão. Desde 2025, o Ottopapi participou de quatro edições do Circuito Nova Música, Novos Caminhos e de uma edição da +umTour, totalizando cinco aparições em projetos ligados à mesma curadoria em pouco mais de um ano. Mais do que repetir artistas, talvez seja o momento de pensar em formas de ampliar a diversidade da programação e fortalecer a identidade do próprio projeto.

No fim das contas, a +umTour acabou escancarando uma questão que vai muito além de uma casa parcialmente vazia. A conversa com Dinho sobre o enfraquecimento do jornalismo musical, a mudança na forma como a nova geração consome informação, a dificuldade de mobilizar público, a divulgação insuficiente, a repetição de artistas e os desafios para fazer a música independente circular parecem fazer parte do mesmo problema.

Continuo acreditando no potencial da +umTour. Gostaria de ver um projeto como esse alcançando outros estados, indo além do eixo Rio–São Paulo e chegando também ao interior dessas regiões. Mas, para que isso aconteça, talvez seu maior desafio hoje não seja apenas levar artistas para diferentes cidades, e sim construir uma identidade capaz de aproximar público, imprensa e cena local. Porque fazer a música independente circular nunca dependeu apenas dos artistas; depende também das pontes que se constroem entre eles e quem está disposto a descobri-los.

Novo EP do Dinho,”Dias Fora Almeida”, já disponível no Bandcamp:

DIAS FORA ALMEIDA de Dinho Almeida

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