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Troá se firma como retrato de seu tempo em residência de shows no Rio 

Créditos: Samuel Barbosa
Créditos: Samuel Barbosa

Duo carioca fez residência de 4 shows entre abril e maio na Audio Rebel e provocou fortes emoções


Nos últimos dias não tem saído da minha cabeça a frase do primeiro episódio da série Girls da HBO, em que a protagonista escrita pela Lena Dunham fala: “I think I may be the voice of my generation”. Tenho pensado muito nisso, primeiro porque uma voz no fundo da minha cabeça acredita que eu possa ser essa pessoa, mas principalmente porque acompanhei a residência da Troá na Audio Rebel e tenho uma forte inclinação para acreditar que Carolina Mathias e Manuella Terra são, de fato, as vozes da nossa geração. 

A Troá, apesar do nome enganar, é um duo, com a Manuella na bateria e a Carolina no baixo, no teclado e na voz. Recebi delas um convite para acompanhar a residência completa, que contou com 4 shows nas segundas-feiras de abril e maio, cada um deles totalmente diferente do outro. Na conversa inicial com a Carol, ela me contou da possibilidade das participações especiais como se fosse uma chance remota e distante, só para alguns dias depois aparecer divulgando uma escalação impecável com os mais diversos artistas da cena carioca: Kalebe, Mariana Volker, Vovô Bebê, Ilessi, Dedé Teicher, Gabriel Ventura, Tori, Carol Maia e Sutil Modelo Novo. Muita gente, e gente que toca de tudo. A Troá literalmente sendo nosso Norvana. 

O clima de novidade e olhar atento na minha cabeça já começava no segundo que eu colocava o pé na Audio Rebel e ia direto acompanhar as passagens de som, às vezes com uma vibe de desespero por nada poder dar errado, mas em outros momentos simplesmente parecendo um show VIP. Estive com elas também no “camarim” (banheiro unissex da Audio Rebel) e em cada noite presenciei a preocupação com as minúcias do som, dos detalhes das músicas dos convidados, e o frio na barriga de quem sabe que, independente da quantodade de ensaios, no fim do dia o palco é espaço de rompimento com o premeditado e entrega ao imprevisível. 

Conversando um pouco com as pessoas a cada dia de residência, percebi que todos estávamos mais curiosos e fascinados pelo mesmo elemento: a versatilidade musical delas ao conseguir unir artistas tão diferentes. Foi uma oportunidade excelente de aplicar seus revestimentos camaleônicos, até porque, importante ressaltar, nenhum convidado tocou sozinho, elas ensaiaram e tocaram o repertório de cada um deles também, com releituras sempre originais. 

Elas uniram o R&B do Kalebe com a frente emo carioca liderada pela Sutil Modelo Novo, passando pelo violão acústico da Tori e pelo impacto da voz da Ilessi, e até ignoraram os princípios anti guitarra para abrir espaço para os pedais de Vovô Bebê, Gabriel Ventura e Carol Maia. Isso fica ainda mais chocante se a gente pensar que elas funcionam em duo há quase uma década, são marcadas por uma sintonia absurda, e tiveram que deixar a porta aberta para novos sons e modos de funcionar. De verdade, depois de ver dois shows com duas baterias, percebi que a Troá é realmente o lugar onde tudo pode acontecer. 

A residência serviu de laboratório para a reta final de produção do disco, com um aspecto bastante libertador de poder experimentar e errar já que ninguém vai saber. Do futuro disco, autointitulado “Troá”, o público pode conhecer “Ele Ri”, composição genial que retrata os dilemas e as escolhas erradas de estar na casa dos 20 anos; “Fingir Bem”, balada romântica com um piano intenso e exploração do melhor da extensão vocal da Carol; e “Barriga”, que arrancou lágrimas de todos que no fundo gostariam de voltar a ter 16 anos. 

Os encontros às segundas-feiras também foram, de certa forma, uma convenção de gente maneira da cena que tá fazendo acontecer, cada um fazendo sua parte nessa engrenagem bonita que movimenta o Rio. Mais ou menos nas palavras da própria Carol, essa ideia de fato partiu de sacudir essa cidade que, musicalmente, às vezes parece magrinha, mas precisa ser relembrada que existe e tá aqui pulsando. Não tá todo mundo em São Paulo (ufa). 

Acompanhar a cena independente significa, muitas vezes, se inconformar com as condições cruéis de existência desses artistas no meio musical e, em meio a uma casa de show com capacidade de 90 pessoas, ter aqueles pensamentos de “como não é todo mundo que tá vendo isso aqui?”. Não é o tipo de descoberta que deveria se manter sendo um segredo. Enquanto isso, nos resta divulgar os projetos em que a gente realmente acredita, e torcer para a conquista de palcos e plateias cada vez maiores.

No fim, por mais que a banda tenha nascido de um sonho a duas, é um projeto que cresce como coletivo para todo mundo sentir que tem um lugar, seja fisicamente no Rio de Janeiro ou emocionalmente com um abraço por suas composições. A Troá faz o que faz porque, com essas veias pulsando criatividade, simplesmente não tem como não fazer. E que bom que fazem. 

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