Raça revisita Saboroso em despedida dos palcos no 5 Bandas: “A gente volta a ser meio moleque”
Em entrevista ao Minuto Indie, Popoto fala sobre memória, amizade, o peso afetivo de Saboroso e o fim do Raça antes do show especial no 5 Bandas feat. Bananada, que acontece neste domingo, 26 de abril, na Casa Rockambole, em São Paulo.
Allguns discos simplesmente entram para a história e se tornam uma dessas cápsulas de tempo que a cena alternativa brasileira vai reverenciar ppara sempre. Saboroso, do Raça, é um desses. Lançado em meio àquela ressaca sentimental do indie paulistano da década passada, o álbum sobreviveu ao hype, ao algoritmo e se firmou como uma obra importantíssima para uma geração inteira. Agora, ele volta aos palcos para uma celebração no 5 Bandas feat. Bananada, edição especial do festival que ocupa a Casa Rockambole no domingo, 26 de abril, em São Paulo.
Em conversa com o Alê Giglio ao Minuto Indie, Popoto falou sobre revisitar o disco, reaprender as músicas, o quanto a banda foi moldada por imagem, amizade e recusa ao óbvio e por que encerrar esse ciclo talvez seja, agora, a forma mais honesta de preservar tudo o que o Raça construiu.
MI: Encontrei o Sante esses dias e ele comentou que vocês estavam ensaiando, reaprendendo as faixas. Como está sendo revisitar Saboroso dez anos depois?
Popoto: É muito louco, porque é um álbum que eu não escuto. Tem música que a gente não toca faz anos, e eu também não fico ouvindo esses discos antigos em casa. Então tive que reescutar. E percebi umas coisas curiosas: tem faixa que, no disco, é muito mais lenta do que o jeito que a gente acostumou a tocar ao vivo. Ao longo dos anos, a gente foi pegando manias, e isso foi mudando um pouco as músicas. Então esse show vira uma chance de tentar tocar de forma mais fiel ao álbum. Vamos tentar, né? Porque são dez anos tocando tudo do nosso jeitinho.
MI: E como você enxerga hoje esse disco?
Popoto: Vejo com muito carinho. Tenho certo orgulho, porque a gente era muito moleque quando fez. E acho que é um disco decente, bem-feito, bem pensado. Tem um conceitinho ali.
MI: Uma coisa que sempre me chamou atenção no Raça era o cuidado com a estética. Os clipes, a capa, o cabelo pintado, essa coisa do design… Parecia tudo muito à frente do tempo.
Popoto: Total. Eu sempre brincava com os meninos que o Raça tinha que ser meio 50% som, 50% imagem. Isso vinha muito da nossa formação, das coisas que a gente gostava de consumir. A gente sempre curtiu música junto com um universo visual. E a faculdade influenciou muito também. A banda era quase um projeto mesmo, algo que a gente queria construir com muito cuidado. E a galera que colaborava com foto, clipe, arte, também estava nesse corre, construindo portfólio, experimentando linguagem.
MI: Você tem noção da cena que vocês ajudaram a construir? Eu acho Saboroso um disco muito marcante e, sinceramente, subestimado.
Popoto: É um carinho muito ímpar. A gente tem uma relação quase de amizade com quem escuta a banda. E acho que o Raça sempre foi uma banda das bandas. Quem curte o rolê conhece a gente. A gente nunca foi grande de rede social, de ouvinte mensal, nada disso. Mas sempre teve esse respeito. E eu acho que sim, a gente influenciou uma galera… talvez a galera que influenciou outra galera depois.
MI: Saboroso é o disco mais importante da banda?
Popoto: Acho que ele foi muito importante, principalmente nesse lugar de profissionalizar a parada, de perceber que tinha gente escutando. Mas, como divisor de águas, eu diria que foi mais o Saúde. O Saboroso ainda vinha numa continuidade do Deu Branco.
MI: Como têm sido os ensaios, agora, com esse peso de revisitar uma fase antiga e ao mesmo tempo encarar o fim da banda?
Popoto: Está sendo bem fluido. Parece que a gente tem uma memória muscular. E a verdade é que a gente fica dando muita risada. Volta a ser meio moleque. Tem sido engraçado, nostálgico, mas bom. Menos pressão do que eu imaginava.

MI: Quando a gente anunciou esse show, muita gente entendeu também como um marco de fechamento. O quão sério é esse fim?
Popoto: É sério. Acho que é meio um divórcio, mas não tão dolorido. Cada um já está muito em outras há um tempo. E a banda suga uma energia que a gente não tem mais. Às vezes a gente faz show achando que vai ser super legal, e no fim isso desgasta a amizade. E a gente é uma banda de amigos. Então eu prefiro preservar isso. A música continua sendo minha paixão, minha vida. Então quero que ela fique num lugar de carinho.
MI: E essa decisão já vinha sendo conversada?
Popoto: Já faz mais de um ano. Inclusive, é até curioso a gente ainda estar fazendo show agora. Mas a gente se curte muito. Se pega a gente num momento bom, a gente vai falar sim para um show. Só que, no fundo, a gente sabe que esse ciclo está chegando ao fim.
MI: O que dá para adiantar do show no 5 Bandas?
Popoto: Acho que vai ser um show relativamente enérgico da nossa parte. A gente quer que seja bonito, nostálgico, que converse com quem acompanhava a banda naquela época, mas também com gente nova. Ainda não fechamos completamente o setlist, mas a vontade é que tenha esse peso de revisitação mesmo.
Revisitar Saboroso no palco, em 2026, é mais do que acionar a nostalgia de um recorte específico da cena br: é reconhecer que certos discos seguem vivos porque continuam fazendo sentido. E talvez seja justamente isso que torne essa apresentação no 5 Bandas feat. Bananada tão especial: ela não celebra apenas um álbum, mas uma rede inteira de afetos que ele ajudou a costurar.
Além do Raça, o line up do festival também conta com Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Raça, Taxidermia, Black Drawing Chalks e Vera Fischer Era Clubber, além de DJ sets da Cavaca Records e Cadelacéu. Restam poucos ingressos, hein? Não perca tempo e garanta o seu aqui.
