★ Opinião

QUASE RESENHA – SPLAT! – Um Deep Purple faminto por atenção

Sei que Deep Purple não é uma banda indie, mas me causa até um espanto, muitos portais dando pouquíssima atenção e esse, que pode ser, o último trabalho deles.

SPLAT! é o vigésimo quarto disco de estúdio deles. Ian Gillan tem 80 anos. Roger Glover, 80. Ian Paice, 77. Don Airey, 78. Simon McBride é o mais jovem da turma e tem mais de cinquenta. Em qualquer outro contexto isso seria história pra contar no velório. Aqui é só a ficha técnica. Existe uma pergunta que paira sobre qualquer disco de banda veterana: isso aqui é música ou é manutenção de legado? A diferença entre as duas coisas é enorme, e a maioria das bandas na casa dos sessenta anos de carreira já cruzou essa linha sem perceber — geralmente num disco ao vivo com orquestra ou numa colaboração desnecessária com artistas jovens que não sabem bem o que fazer com eles. O Deep Purple resistiu a tudo isso com uma teimosia admirável. Não porque sejam mais sábios que os outros, mas porque parecem genuinamente incapazes de fazer música de forma passiva. SPLAT! é mais uma vez por Bob Ezrin, e chega carregando uma promessa que bandas nessa fase raramente cumprem: o mais pesado em muitos anos. O que surpreende é que não é mentira.

Créditos: Acervo/Rolling Stone

O disco foi descrito pela própria banda como o mais pesado em muitos anos, e não é exagero de marketing. A guitarra de McBride — que assumiu o posto de Steve Morse em 2024 — chega com uma agressividade que claramente energizou o resto do grupo. “Arrogant Boy” abre o disco com um riff direto e sem firulas que te lembra que essa banda inventou boa parte da linguagem que o rock pesado ainda usa hoje. É desconcertante como soa atual sem tentar soar atual. O álbum tem 13 faixas e não oferece nenhuma passa de cinco minutos — uma disciplina que beneficia o conjunto mas que às vezes aperta demais algumas músicas que pediam mais espaço pra respirar. “Sacred Land” e “Scriblin’ Gib’rish” chegam com ideias interessantes e somem antes de desenvolvê-las completamente, mas “Diablo”, é uma faixa que tem groove. Mas isso é reclamação pequena diante do que SPLAT! entrega: uma banda que perto dos sessenta anos de existência ainda tem fome, ainda tem velocidade, ainda tem algo a dizer. Não é nostalgia. É o presente deles — e o presente deles é mais pesado que o futuro de muita gente.

Créditos: Acervo/Instagram

No fim, o que SPLAT! faz é simples e quase impossível: soa como uma banda, que usa de recursos setentistas, ainda com fome. Não a fome desesperada de quem precisa provar algo, mas a de quem ainda tem prazer genuíno em entrar num estúdio e ver o que acontece quando quatro velhos e um guitarrista irlandês de cinquenta e poucos anos decidem fazer barulho juntos. Ian Gillan perdeu boa parte da visão, perdeu algumas notas no agudo, ganhou oitenta anos nas costas — e ainda assim entrega letras com mais ironia e veneno do que a maioria dos vocalistas com metade da idade. Isso não é resiliência. É vocação. E SPLAT!, com todos os seus 50 minutos certeiros, é a prova de que algumas bandas não envelhecem — elas apenas ficam mais pesadas.

Autor