Nini Inch Nails volta a ativa com EP pesado e distópico (como nossos tempos)

Se tem uma palavra que pode definir a banda liderada por Trent Reznor, essa palavra é vanguarda. Muito antes de Bauman e seu amor líquido, muito antes de Black Mirror, muito antes de a gente começar a se tocar que o futuro ciberpunk já estava logo ali, no nosso nariz, Reznor já sabia. Principal produtor, instrumentista, cantor e letrista da banda fundada em 1988, Reznor é o único membro fixo e constante do NIN e quem responde pelas direções tomadas pelo grupo. O músico sempre escolheu, desde o primeiro trabalho da banda, Pretty Hate Machine, temáticas que são altamente exploradas pelos artistas e intelectuais do momento: inadequação e solidão em um mundo cada vez mais conectado, hiper violência, cenários apocalípticos, repressão sexual, perda de identidade, entre outros. Não é de se surpreender que o novo EP da banda, Not The Actual Events, primeiro registro lançado desde Hesitation Marks (2013), seja ao mesmo tempo mais um trabalho coerente na carreira do NIN e soe absolutamente perfeito para os tempos atuais. Parece que o tempo, a história, os acontecimentos e tudo mais finalmente alcançaram Reznor, que, tenho certeza, continuará correndo para despista-los.

O EP foi lançado no dia 23 de dezembro, um verdadeiro presente para os fãs da banda e de música em geral, e veio dar fim a uma expectativa gerada um ano atrás, quando Trent anunciou no Twitter que em 2016 o NIN lançaria material novo. Not The Actual Events é um EP completamente encaixado na contemporaneidade, o que torna seu nome altamente irônico, e tanto suas letras como sua musicalidade criam a trilha sonora perfeita para essa hiper-realidade distópica em que nosso mundo se transformou aparentemente de uma hora pra outra. Guitarras sujas, sintetizadores robóticos, efeitos nos instrumentos e na voz, bateria as vezes eletrônica, as vezes humana e raivosa (e com as baquetas na mão de Dave Grohl ainda por cima) e letras desesperadas e cortantes dão o tom desse trabalho que, apesar de ter apenas 26 minutos, é gigante e só pode nos encher de expectativa para o próximo álbum da banda.

Branches/Bones, a primeira faixa, é um industrial stooner punk urgente e raivoso, um petardo de 1m47s onde Reznor praticamente declama a letra com sua voz suave e atormentada que narra um cenário de pesadelo apocalíptico. A música acaba abruptamente e irrompe em Dear World, que já começa também abruptamente com Reznor sussurando a letra em cima de uma base de sintetizadores sombrios, mas dançantes. Ou dançantes, mas sombrios. Enfim. A letra trata do desajuste na vida virtual e é puro Black Mirror. Ou melhor, acho que Black Mirror que é puro NIN. O refrão reclama : “I’m locked inside here /Have to stay/ With people who aren’t here/ All the way ” (algo como “Estou preso aqui dentro / Tenho que ficar / Com pessoas que não estão aqui / Por todo o caminho”). Impossível não enxergar uma clara referência as redes sociais. A perda de identidade e a obsolescência que esperam escondidas atrás da exposição e possibilidade de fama das redes preocupam o compositor que conclui que “sim, todos estão adormecidos”. A mórbida She´s Gone Away conta história de um homem que assiste a morte da mulher e se recusa a aceitar, acompanhando sua decomposição até o final.  A bateria quase tribal dá o tom desse som angustiante enquanto as guitarras sangram sob o canto grutural de Reznor. The Idea of You traz a dualidade do conflito entre o corpo sussurrado e o refrão gritado por Reznor enquanto Grohl mostra seu habitual talento como baterista, tudo isso envolvido em riffs de guitarra simples, mecânicos, cheios de efeitos e distorções. O disco termina em Burning Bright (Field on Fire), curiosamente um hino ciberpunk de renovação e esperança, onde o protagonista passa por uma espécie de ressurreição com ares pós juízo final. Apesar disso, Reznor põe tudo em dúvida ao afirmar no fim da letra não saber “em qual lado (ele) está do sonho”.

Not The Actual Events é, sem sombra de dúvidas, um belíssimo EP, absolutamente contemporâneo, conectado com as questões dos tempos atuais, musicalmente compatível com os sentimentos distópicos dos nossos tempos, um grande presente de natal para os fãs e uma pérola que veio atrapalhar todas as listas de melhores do ano que já saíram. Imperdível.

 

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