★ 5 Bandas

ENTREVISTA: Tutu Naná prefere deixar a música sem ponto final

Às vésperas de se apresentar no 5Bandas, em Goiânia, banda conversa com o Minuto Indie sobre a mudança para São Paulo, processo criativo, títulos improváveis, convivência e o fim da John Filme.

“É como uma banda que tem flauta, mas que não soa como Jethro Tull.” Se a Tutu Naná não está muito interessada em definir o próprio som, ao menos encontrou uma boa maneira de avisar o que não esperar dele. A resposta também combina com uma banda que parece funcionar melhor quando deixa alguma coisa em aberto.

Até a mudança para São Paulo teve um efeito pouco abstrato sobre a música: foi preciso baixar o volume, e o disco Itaboraí é o maior reflexo desse choque geográfico. “Foi quando a gente mudou pra essa casa que a gente tá morando agora, todo mundo junto”, explica Carolina. “A gente começou a tocar muito baixo, só no acústico mesmo, com umas percussões, sem bateria pesada. A paisagem de São Paulo é muito diferente do interior. Lá, as casas têm jardins, recuo. Aqui é tudo grudado. A gente tava sempre preocupado em não incomodar os vizinhos.”

Hoje, mais habituados à dinâmica e “acertados com a vizinhança”, a banda absorve o ritmo da metrópole de outra forma e o volume pode subir novamente. Mais do que isso, a cidade ampliou o repertório de experiências dos quatro. Em dois ou três anos em São Paulo, eles dizem ter visto mais shows do que nos 20 anos anteriores em Chapecó. O efeito sobre a música é menos direto de apontar. “E acho que influencia. Não sei aonde, mas influencia.”

É justamente esse tipo de influência difusa que interessa à Tutu Naná. Sem letras ocupando o centro da composição, os instrumentos também escapam de funções muito rígidas. Uma guitarra não precisa soar como “todas as guitarras”: entram os vícios, as maneiras particulares de tocar e tudo aquilo que cada músico desenvolveu ao longo do caminho. As músicas podem sugerir uma paisagem ou uma sensação sem precisar transformar isso em mensagem.

A composição acompanha essa lógica. Ensaios e improvisações são gravados; depois, os integrantes voltam ao material para procurar o que pode continuar. Um trecho pode ser retrabalhado ou simplesmente recortado e mantido como apareceu. A gravação não encerra necessariamente a música — e aí aparece uma das questões centrais da banda: quando, afinal, ela está pronta?

“O mais difícil é dizer quando que tá pronto o negócio.”

Por isso uma gravação seja entendida mais como um fragmento do que como uma versão definitiva. A música pode mudar no próximo ensaio, ganhar outro arranjo no palco ou encontrar uma forma que ainda não existia quando foi registrada. A gravação captura o momento, mas não engessa o que vem depois.

Os títulos funcionam quase pelo mesmo princípio. “gufuork gufuork” vem de The Sims Bustin’ Out. “Triângulo de Jova” recupera uma história da antiga John Filme: uma música chamada “Jova” tinha sido batizada com o nome escrito errado e acabou servindo de ponto de partida para outra composição. A progressão tinha três notas em vez de quatro e o que antes parecia um quadrado virou, naturalmente, um triângulo. “O desenho das notas era meio que um quadradinho. São três. Aí ficou meio que um triângulo.”

A explicação não precisa acompanhar a faixa para que o nome funcione. Parte da graça está justamente em não entregar tudo de bandeja. O próprio nome Tutu Naná nasceu desse gosto pela linguagem: “Gugudadá” ponto de partida para a escolha definitiva: vem um pouco dessa coisa infantil que não se explica, é livre e musical. Enquanto a história de que Tutu seria uma referência a Miles Davis e Naná a Naná Vasconcelos é, nas palavras da própria banda, uma mentira. “A mentira que a gente conta é o Tutu do Miles Davis e o Naná Vasconcelos. Mas isso é mentira.”

Masculine Assemblage, lançado em 2025, também nasceu de um acaso. A expressão estava escrita em uma nécessaire e virou piada entre os integrantes. Daí veio “Necessaire”, uma das músicas, e depois o título do disco. A vontade de parecer mais sério chegou a existir quando a Tutu Naná começou, especialmente porque o humor já era uma característica da John Filme. Não durou muito. “Aí não deu. Ou deu até certo ponto.”

Morando juntos, a separação entre banda e vida cotidiana também fica menos nítida. Futebol, shows e até tarefas de casa aproximam os quatro; a rotina de ensaios pode fazer o contrário. Quando tocar começa a parecer compromisso, a música perde um pouco daquilo que fez os quatro quererem tocar juntos em primeiro lugar.

A resposta veio no próprio processo: chegar ao ensaio sem necessariamente ter uma tarefa a cumprir e começar a tocar. Os quatro participam igualmente das decisões, em uma dinâmica horizontal que permite que a música apareça antes de ser organizada. É uma forma de devolver ao ensaio alguma espontaneidade.

O espaço onde vão tocar também entra nessa equação. Fernando lembra do Teatro Cênico como um lugar que fez a banda pensar em como determinadas músicas poderiam soar naquele ambiente. O palco não é apenas onde a composição termina; às vezes, ele ajuda a decidir como ela será executada.

Por isso, o setlist também não precisa obedecer a uma fórmula rígida. Há uma preocupação com começo e fim, mas o percurso pode mudar. Algumas músicas entram, outras saem, posições são trocadas. “De resto, pode acontecer qualquer coisa.”

No 5Bandas, em Goiânia, essa abertura ganha mais uma camada. Parte do público ainda não conhece a Tutu Naná e a banda pretende levar músicas inéditas para o palco. Em vez de tentar preencher essa ausência com explicações, a ideia é usá-la a favor do show: “Ninguém vai estar esperando nada, então vamos fazer alguma coisa que surpreenda mesmo. Que não seja fácil de entender, que não seja mais o mesmo.”

A John Filme aparece nessa trajetória como contexto. A experiência anterior ajudou os quatro a entenderem melhor a própria relação com a música, mas o encerramento aconteceu justamente quando o projeto começava a ganhar notoriedade. Para Akira, foi também o momento certo para parar. Continuar significaria provavelmente aprofundar uma linguagem que eles já conheciam; acabar abriu espaço para descobrir o que poderiam fazer como quarteto. O som da Tutu Naná, segundo ele, não existiria da mesma maneira se a banda anterior tivesse continuado.

É uma escolha que ajuda a explicar a lógica do grupo até aqui: aproveitar o que existe sem tratá-lo como definitivo. As referências mudam, os arranjos podem se transformar, os títulos surgem de jogos, erros, piadas e uma nécessaire, e cada gravação registra apenas uma possibilidade entre tantas.

É por isso que a melhor definição da Tutu Naná continue sendo justamente uma recusa em definir som e significado. E que a pergunta sobre quando uma música termina ainda encontre a mesma resposta:

“O mais difícil é dizer quando que tá pronto o negócio.”

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