ENTREVISTA: Taxidermizando o agora e a construção de uma saudade que não existe
“Taxidermia para a gente não é tudo ou nada: o Taxidermia para a gente é tudo.”

Ver o Taxidermia pela primeira vez dá a sensação de que o som não está só sendo tocado, mas construído ali, em tempo real, quase como um objeto que ocupa o espaço. Não é uma banda que simplesmente toca músicas: o que acontece ali é outra coisa e isso vem direto do lugar de onde tudo começou. Antes de virar projeto, a parceria de João e Jadsa nasceu fazendo trilha para teatro e isso não ficou como referência distante, está no centro de tudo. Pensar o som como algo que preenche o espaço, dialoga com o corpo e existe de forma quase física não fica só no conceito. Aparece na escuta.
Depois de quase um ano e meio longe dos palcos, Jadsa e João Milet voltam a tocar como Taxidermia no Festival 5 Bandas, no dia 26 de abril, na Casa Rockambole. O show marca essa retomada dentro de um lineup compartilhado com o Festival Bananada, servindo de ponto de partida para a conversa que segue.
“Tem um lance com o Taxidermia que é quase materializar o som”, comenta Jadsa. “Chegar num ponto onde ele é concreto, onde você consegue degustar, cheirar, tocar.” Em Vera Cruz Island, as músicas não se organizam de forma linear; elas se acumulam, se expandem e ocupam o ambiente. Em alguns momentos, parece menos sobre acompanhar uma faixa e mais sobre estar dentro dela. Se Jadsa puxa para o corpo e para as sensações, João organiza e estrutura. “A gente pensa muito o show como espetáculo”, ele diz, “existe um certo sagrado do palco e a gente está em cena.”
Isso muda tudo. Taxidermia não funciona na base do improviso solto, pois existe controle, intenção e precisão. “Parece muito orgânico, mas o Taxidermia é muito exato”, diz Jadsa. “Eu fico calculando o que eu vou cantar, porque qualquer escolha muda a intenção da música.”. João constrói o esqueleto enquanto Jadsa tensiona e dá corpo. Um organiza e o outro expande, sendo essa fricção que sustenta o som. Em outro momento, João solta uma frase que não pede explicação: “Eu tenho uma saudade de uma coisa que não existe.” A frase fica suspensa no ar enquanto a conversa segue.

O projeto não se fecha em si. Vira um ponto de encontro de tudo que escapa dos outros trabalhos. “É um lugar de a gente sentar e pensar: o que a gente quer fazer agora?”, diz João. Jadsa completa afirmando que “tudo se conversa” e que “o Taxidermia surgiu de coisas que não cabiam em outros projetos”. Essa abertura explica por que o som nunca parece estagnado. Não existe uma obsessão em evitar a repetição, mas sim um movimento constante. “Eu amo repetir”, diz Jadsa, “só não gosto que pareça repetição.” O que realmente impede o projeto de se acomodar é a pesquisa, não só musical, mas de vivência. Eles estão sempre ouvindo coisas novas, ou coisas antigas que parecem novas.
As colaborações seguem essa mesma lógica, entrando como extensão da convivência e não como estratégia. “A gente manda o rascunho e fala: faz o que você quiser”, explica João. “A colaboração ajuda a reinterpretar”, completa Jadsa, “é como colocar roupas novas na música.” No meio dessa troca, quando questionados sobre o que aproxima e o que distancia os dois, a resposta não vem pronta. Eles pensam. “É difícil”, dizem quase ao mesmo tempo. Jadsa começa pontuando que “a gente tem idades diferentes, vive momentos diferentes… isso cria uma diversidade”. João puxa a ideia um pouco mais e conclui que tudo tem a ver com o tempo: “Às vezes a gente está em momentos diferentes da vida, de trabalho, de cidade… e isso aproxima e afasta ao mesmo tempo.”
Não é uma resposta fechada e talvez nem faça sentido ser. O Taxidermia funciona exatamente nesse desequilíbrio controlado, onde as coisas não precisam se alinhar completamente para continuar acontecendo. A própria ideia do nome aponta para isso, como gesto de capturar um momento e elaborá-lo até que continue existindo de outro jeito. “A gente gosta de taxidermizar o momento”, resume João. Jadsa lembra que o batismo veio quase por impulso, antes mesmo do projeto tomar forma, provando que a banda não nasce de um conceito engessado, mas entende o que é enquanto acontece.
Agora, com o Festival 5 Bandas se aproximando, o duo volta aos palcos depois de um tempo sem tocar junto, misturando faixas dos primeiros EPs até o Vera Cruz Island. Não existe clima de reinvenção ou virada, apenas uma reconexão declarada por ambos. “A gente está se reconectando com o show”, diz Jadsa. “É uma reconexão com os palcos do Taxidermia”, completa João. No fim, o que eles fazem não é congelar o tempo, mas mexer nele o suficiente para que não passe direto. O Taxidermia não se interessa em resolver o som, existindo propositalmente nesse espaço de tensão entre controle, estrutura e sensação. É um trabalho que permanece vivo e ocupando espaço, como um instante capturado que ainda se recusa a parar.
