ENTREVISTA: Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo — amadurecimento e próximo disco
Após dois álbuns aclamados pela crítica, premiações e muitos shows, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo se prepara para lançar um terceiro disco que, segundo Vicente Tassara e Theo Ceccato, busca ser o mais fiel possível à forma como a banda realmente toca junto.
A banda paulistana, que compõe o line-up da edição de 2026 do Festival 5 Bandas, conversou com o Minuto Indie sobre as perspectivas para seu próximo disco, sua relação com os movimentos da música fora e dentro do Brasil, e as experiências e referências que acabaram atravessando o som da banda.
Num cenário em que bandas do Norte Global como Geese e Black Country New Road — dentre outros — dão novas roupagens ao Rock e chamam a atenção da mídia, a SCEUEPDT não parece se deixar levar ou iludir pelas promessas que a ascensão desse som pode sugerir.
“Os ciclos da indústria vão acontecendo e eles não dependem muito dos processos da banda. Os ciclos da banda são muito internos, e a gente vai sacando eles sozinhos, à revelia do que são as referências […] Se tem uma trend, e a Olivia Rodrigo tá tocando pop punk, a gente continua fazendo a mesma parada, e se der certo, que bom” — diz Vicente.
Sem se deixar levar pela maré da indústria, o grupo prefere confiar no próprio tempo, nos seus processos e na espontaneidade, que também se mostra presente em outros níveis. A banda apresenta uma rotatividade em quem assume os vocais ou um certo instrumento, o que ficou em maior evidência no seu segundo disco, “Música do Esquecimento”, de 2023.
“A banda antes da Sophia […] não ligava pra essa coisa de instrumentação fixa. Era uma zona, uma gincana. Quando a Sophia entrou, a gente começou a fazer um negócio mais organizado, com as funções mais divididas. Mas a gente gosta! Quando a gente tá arranjando as coisas, a gente segue os nossos instintos. Gosto muito de tocar outros instrumentos, a Sophia gosta muito de bateria” — Vicente explica.
Theo também confessa que, apesar de os compositores de cada canção geralmente estarem associados com os vocais, no terceiro disco alguns cantores não necessariamente compuseram as letras de suas respectivas faixas.

Com funções menos engessadas e um processo mais fluido, referências distintas começam a se misturar no processo de criação do terceiro disco. À medida que a banda não se vê integrada no movimento recente de atenção ao rock alternativo, SCEUEPDT volta seu olhar com mais interesse para a música feita dentro do Brasil — e se mostra aberta a integrar, no próprio trabalho, as experiências e relações construídas dentro do país.
“Eu tô apaixonado há alguns anos pelo “Força Bruta”. Eu sei que a minha paixão é um pouco particular, mas eu sou muito fã. Eu vi o Pedro tocar recentemente, no Rio. Gosto do jeito que eles tocam a guitarra, do approach deles. Além das composições serem muito foda. A banda tem um jeito muito ao vivo de tocar, é um som de guitarra muito ao vivo […] Agora a gente tá tentando fazer algo muito “a gente” […] O nosso show ao vivo é muito genuíno, muito forte. Por que a gente não procura pegar essa energia do ao vivo, e tentar pintar aqui?” — Vicente fala.
E Theo acrescenta:
“Pra complementar o Vi e dar nome aos bois, é o “Banda C” do Caetano, que tem um clima muito particular […] A banda é Callado na bateria, que acabou de lançar disco, que é um grande amigo, e um baita baterista que toca no Caetano e no Rubinho.
“Cara, uma referência que atravesse tudo que é o Caetano nos anos 90. São todos muito fãs” — Vicente confirma.
“Que nem o David Bowie, cada vez você vai sacando que as melhores coisas tão pro final” — Theo finaliza.
No dia da nossa conversa, Theo e Vicente mencionaram que ensaiaram mais tarde para o 5 Bandas, e comentaram um pouco sobre sua relação com outros nomes da cena alternativa no Brasil, e sobre como ter feito shows por todo o país pode ter atravessado o som da banda:
“Eu acho que a gente tem sempre uma preocupação, que é uma preocupação de qualquer banda que sai um pouquinho do linear do underground, que é tentar trazer essas referências dos amigos, dessas bandas que a gente conhece, que impactam a gente. Vera Fischer Era Clubber [que também integra o line do 5 Bandas] é uma dessas bandas” — Vicente comenta, e Theo complementa logo em seguida:
“A gente conseguiu viajar muito pelo Brasil com a banda, a gente acabou sendo atravessado por muitas coisas […] ver uma banda de Belém, de Recife, de Salvador, dançar um carimbó na Ilha do Marajó, todos juntos. A gente vai sendo atravessado por essas coisas, e noiando com essas coisas. A Sophia, que nunca tinha visto, ficou atravessadíssima […] Vai ter som de carimbó no disco? Não. ‘Vai ser um metal com uma pitadinha de carimbó’, como diz Hermes e Renato. Foi atravessado pelo carimbó, pelo Caetano, pelo Oruam, pela Vera Fischer”
Nessa nova passagem na história de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, o que está em jogo é traduzir em som o que já é realidade: uma banda com paixão pelo tocar, que mistura experiências, aprende com a vivência, leva os nomes de sua cena e recusa fórmulas prontas. E um recorte desse momento, com certeza estará presente ao vivo no Festival 5 Bandas, que acontece na Casa Rockambole no dia 26 de abril. No palco, antes mesmo do lançamento de seu terceiro trabalho, a banda vai nos revelar como todos esses pensamentos podem aparecer na prática.
