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ENTREVISTA: Letrux no respeito aos próprios desejos e o segredo para a bobagem em meio ao caos

Aos 44 anos, tudo que Letrux mais quer é respeitar os próprios desejos. Três anos depois do último lançamento musical, ela ressurge no início de março com o anúncio do novo disco, SadSexySillySongs, lançado nesta sexta-feira (27). Conversamos com ela sobre o lançamento em um papo que contemplou reflexões introspectivas, midiáticas, sociais, linguísticas e, claro, musicais. 

O projeto partiu do desejo de fazer algo diferente. “Eu amo meus outros discos, eu amo minha banda. Eu ainda quero fazer discos com banda, com mais camadas sonoras. Mas eu acho que fiz muito, né? Três discos como Letuce, três discos como Letrux, com muitas camadas sonoras. Então uma hora eu pensei, ai, acho que eu queria fazer um disco mais cru, mais minimalista”, comentou. O resultado beirou um voz e violão até que seu baixista Thiago Rebello entrou em cena como produtor, e as regras mudaram, especialmente para as músicas mais sexy, que mereciam um charme e ganharam uns beats. 

A reação de seu público com o anúncio do disco foi de surpresa, como se ela estivesse chegando do nada com o álbum pronto. Sobre isso, Letrux acredita ser um efeito da forma diferente como estamos lidando com as redes atualmente. 

“É muito louco esse comentário, né? Do nada? Como do nada? Não é do nada. Estou trabalhando, mas não estava avisando. […] Eu acho que eu estou menos postando coisas da minha vida. No fundo, acho que a gente está lidando com as redes sociais de uma outra forma. Acho que eu era mais, estou aqui, estou ali, fui nesse show, fiz isso. Agora eu vou no show de alguém, mas eu espero, não boto na hora. Mas acho que está todo mundo um pouco assim, né? Eu vejo minha internet muito no final do mês, a galera posta o mês. Então não sei se é uma introspecção ou é só uma nova forma de lidar com essa rede social tão encalacrante que é o Instagram, né? Eu até estou no TikTok e tal, não estou mais no Twitter, graças a Jah. Mas a gente é viciado, né? Eu sou viciada, todo mundo é viciado. É barra”. 

Foto: Bruna Latini

Além de cantora e compositora, Letrux também tem seus pezinhos na literatura. Ela se consolidou como poeta em 2021, com o livro Tudo que já nadei: Ressaca, quebra-mar e marolinhas, e ano passado reviveu seu lado literário publicando “Brincadeiras à parte”, já como indicador da pegada silly do disco. Quando perguntada sobre a presença mais intensa de seu lado poeta nesse álbum, ela levantou a grande questão de uma eterna discussão dos limites entre a poesia e a canção. 

“Como sou escritora poeta, em todos os discos alguém vai achar “que poeta ela foi nessa música”. Isso é um drama, até no mundo da música e da poesia, isso é uma briga antiga. Bob Dylan é poeta ou é só um letrista? Patti Smith é só uma musicista? Isso é uma briga tão idiota. Quando Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura, muita gente ficou, meu Deus, não, ele é músico. Ai, bocejo, sabe? Porque tem uma letra acontecendo, ela pode estar viva de outra forma, ela não está viva no papel, ela está viva em som, ela está viva sonoramente, mas é uma letra, é uma escrita. Pode ser que esse disco seja mais poético, não sei, legal você perceber isso, eu não tinha ainda pensado. Mas acho que nos outros discos também, eu sempre vou achar o momento que eu tentei ser poesia, escritora”.

O SadSexySillySongs certamente vai satisfazer desejos de fãs antigos, pois conta com faixas antigas, como I Wrote This at 22 e Ornamentais — a respeito dessa última, ela revelou o sonho de ver sendo performada pela Maria Bethânia. Não existe motivo claro para esse resgate no baú, mas é fato que teve a ver com respostas do público nos palcos. Certamente a sua turnê comemorativa 20 Anos Alternativa mexeu com algumas noções de tempo, mas nos shows voz e violão ela foi tocada por relatos de fãs que relataram ter suas vidas mudadas, logo com uma canção que ela achava ser tão simples, mas então resolveu ouvir o sinal.

“Foi mais uma resposta do público que me fez gravar essas músicas, o interesse das pessoas, eu falei, eu amei isso, isso é minha vida, e eu também às vezes esqueço, eu tenho 44 anos, eu não esqueço que eu tenho 44 anos, mas eu tenho um público jovem […] Aquela letra pode ser boba pra mim hoje em dia, mas pra alguém de 22 anos é assim, é “minha vida”. Então eu falei, é sobre isso também, sabe?”. 

Parte do que explica essa reação fervorosa do público é a abordagem do polêmico tema de ciúmes pela sua sábia lente de quem tem vênus em Aquário, e que reconhece que as relações estão passando por outros acordos: “Eu não acredito em quem fala que não é ciumento. Pode até falar, “não demonstro, não me abala tanto corporalmente, não me abala psicologicamente”, mas não dá, todo mundo tem um pouco, né? Talvez a nova geração que tá nascendo já vai nascer com outra categoria de cabeça, mas a gente é foda, sofreu lavagem cerebral com filme romântico de Hollywood, com Princesa da Disney, então é difícil, né? Tinha essas cenas de you slept with someone else e terminavam, e eu, com a minha Vênus em Aquário, pensava: será que era pra terminar? Precisa de tudo isso? Eu também sou ciumenta, eu tenho a Lua em Touro, que aí ela é ciumenta, mas a Vênus em Aquário… Todo ser humano é contraditório e eu tô aí junto com todos os seres humanos também”. 

O título já evidencia a presença da língua inglesa no disco, que de fato é a forma de expressão de metade das faixas. Letrux afirmou que essa escolha é um misto de expressão pessoal com o desejo de expansão para o mercado internacional. A turnê na Europa deixou clara a existência de um público espalhado pelo globo, e é de interesse dela manter essa conexão: “me interessa também dialogar com outras pessoas, sem ser só com a língua portuguesa, que é minha língua mãe, minha língua paixão.” Mas como boa brincalhona, é claro que vai brincar com outras línguas, como já aconteceu com o espanhol no Aos Prantos e com o francês no show Alfabeto Sonoro. 

“Acho que pelo título ser esse, foi muito natural também compor em inglês, sabe? Parece que a língua inglesa é mais fácil no sentido sonoro. Quando você fala put me on, sei lá, tem frases que fazem sentido, e aí quando você vai falar em português, fica estranho. Mas, por exemplo, a música com a Jadsa, que é a música que abre o disco, é uma música bilíngue. “If we ever stop talking” dava vontade de falar em inglês, não dava vontade de falar se a gente parar de se falar. Estava estranho. Mas aí depois tem guitarra maneira, baixo incrível. Eu tentei falar em inglês, nice guitar, amazing bass. Aí não rolou. Falei, que loucura, bicho, porque a palavra, ela manda em mim. E eu fico lá cachorrinha da palavra, eu obedeço. Então a palavra pediu pra ser em inglês, eu aceitei. A palavra pediu pra ser em português e eu aceitei também. Funciona mais ou menos assim. Eu sou serva da palavra.

Foi curioso ouvir isso justamente sobre a faixa em parceria com Jadsa porque, em entrevista ao MI em 2025, a baiana já afirmou possuir a mesma relação com o instinto da língua inglesa. Letrux reconhece o forte posicionamento anti língua inglesa de parte de seus ouvintes, mas acredita que o não domínio da língua não deveria impedir ninguém de desfrutar de suas músicas. 

Teve uma pessoa que escreveu no meu Instagram que preguiça a música em inglês. E eu entendo também que preguiça, que se a pessoa não fala, mas eu amo ouvir Sigur Rós, eu não entendo uma porra de uma letra em islandês. O que essa pessoa tá falando? Mas eu amo Sigur Rós. Porque música pra mim é letra, mas também tem outro lugar da emoção, da sonoridade. Eu ouço música em árabe, eu ouço música em japonês. Sei lá, ou bate ou não bate. Ou toca ou não toca, não tem… Então, eu já tentei não vou fazer música em inglês, vou tentar fazer o disco. Ai, gente, mas assim, que preguiça também de me castrar. Se eu tenho esse desejo e se ele sai natural, por que eu vou ficar me castrando? Já me castrei muito na vida, tô com 44 anos, só quero viver meus desejos e realizá-los se possível. E é sobre isso o disco, realizar desejos.”

É fascinante observar como a capa do disco captura exatamente as essências de Sad, Sexy e Silly, e isso felizmente é um indício de um lado mais visual que o álbum vai assumir. Como boa cria da MTV, ela garantiu que vai ter um clipe para quase todas as músicas. “Eu sei que a galera fala, ai, clipe já não serve, clipe já não sei o que. Foda-se. Clipe ainda serve pra mim, ainda me emociona, ainda vejo clipes, ainda ligo minha televisão, boto no YouTube pra ver clipe de antigamente. […] Não adianta, eu sou uma pessoa que viveu anos 90, então a imagem, a historinha, o filminho, a contação da história pode super me seduzir. E eu já gravei seis clipes pra esse disco. Tô nesse nível, e tem de tudo. Tá muito curioso, Brasil. Vem aí muita coisa imagética”. 

Letrux apresenta o quarto álbum solo feito em estúdio, 'Sad sexy silly songs' | G1

Ainda não há expectativas sobre turnês porque, nas palavras da própria, a expectativa é a mãe da decepção. ‘Eu quero que role, eu quero que as pessoas gostem, eu quero fazer um turnê, mas sem manipulações e loucuras, vamos, sei lá, o que vier vai vir, o destino é maior que tudo, isso eu já aceitei nova na vida, eu percebi que o destino é maior que tudo, então tô aqui pro que for acontecer e é isso.

Para encerrar, numa vibe bem silly, pedi pra ouvir qual o segredo para encontrar o espaço pra bobagem e pra risada em meio a esse caos todo do mundo agora.

Um espaço maravilhoso que as pessoas têm que voltar a fazer é encontrar os amigos e as amigas pra jogar jogo de tabuleiro, porque sai fofoca, sai piada, sai besteira e tem que ter regra, gente, ninguém pega no celular na próxima uma hora, entendeu? Então eu acho que a recuperação da bobagem, da besteira, que é maravilhoso, porque é uma coisa que a gente fazia muito na infância, por que a gente para de brincar? Por que a gente para de jogar? Sou contra essa regra, sou uma pessoa que entra no carro, ou senta na mesa do restaurante e fala, vamos brincar de alguma coisa? Eu sou essa chata, mas no final todo mundo me agradece, que bom, porque essa mesa de restaurante estava enorme, eu estava com medo de ser uma mesa chata, eu falei, claro, a mesa do restaurante é chata nos adultos, Irã, Catali, horrores, inferno, a vida já é isso o tempo inteiro, então vamos brincar, vamos jogar, então a recuperação desse lado silly, bobo, é encontrar suas amizades para se entregar às brincadeiras”.

Ouça o novo disco de Letrux, SadSexySillySongs nas plataformas digitais:

 

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