ENTREVISTA: Ítallo França mistura futebol, amor e política em um disco sobre a própria canção
Em algum momento de uma conversa madrugada adentro sobre Paulo Leminski, Ítallo França percebeu que já tinha o nome do disco nas mãos. “Catatau” apareceu quase por acaso. A palavra soava engraçada, brasileira, boa de falar. Faz sentido que tenha vindo assim. Seu novo álbum também funciona desse jeito: um fluxo onde futebol, trabalho, amor, cidade e canção popular brasileira convivem sem muita separação.
Diferente de Tarde no Valquíria e Time da Moca, discos cujos títulos surgiram antes mesmo do repertório estar fechado, Catatau encontrou seu nome já perto do fim do processo. A descoberta aconteceu durante uma conversa sobre o romance experimental Catatau, de Leminski, um livro que, segundo Ítallo, acaba ofuscado pela popularidade de Toda Poesia.
“Quando eu falei a palavra, voltei um pouquinho e pensei: ‘caralho, Catatau é uma palavra absurda. Esse é o nome do disco’”, relembra, rindo da própria empolgação ao lembrar das mensagens enviadas para amigos avisando que o disco finalmente tinha um nome.
A palavra parecia resumir o álbum melhor do que qualquer conceito muito fechado. Um “catatau” pode ser um volume enorme de coisas, um monte de papel acumulado, excesso. Mas também pode ser justamente o contrário: algo pequeno, quase infantil (como o Catatau do Zé Colmeia), lembrado pelo próprio músico durante a conversa. A dualidade aparece também na capa do disco, onde um Ítallo ainda criança surge cercado por jogos de linguagem e palavras montadas a partir das letras do próprio nome.
“Tem tristeza ali, mas também tem alegria”, comenta. “Como é uma criança, existe essa mistura.”
A conversa em si também teve um pouco disso. Em alguns momentos, o notebook dele travava. Em outros, eu mesmo me perdia no meio da pergunta e tentava recuperar o fio em voz alta. Ítallo ria, esperava, ajudava. Não foi uma entrevista toda redonda, dessas que parecem ter sido pensadas antes de acontecer. Ainda bem. O disco também não parece nascer de uma linha reta.
Antes de chegar ao Leminski, à capa e aos jogos de palavra, Catatau passa por outro lugar: a rua. Mais precisamente, por um Ítallo saindo do trabalho às 23h30 na Lapa, tentando alcançar o trem, depois o metrô, depois o ônibus. O último metrô na Luz, sentido Linha Amarela, passava por volta de 00h05. Às vezes, ele precisava correr de verdade. Não como modo de dizer. Correr mesmo.
“Eu saía do trabalho onze e meia. Às vezes o trem atrasava. E o último metrô era meia-noite e cinco, eu acho, lá na Linha Amarela, na Luz. Então muitas vezes eu tive que sair correndo”, relembra. “Pegava o trem, corria pra pegar o metrô e chegava no Butantã, na estação, pra pegar mais um ônibus. Isso já era uma da manhã, meia-noite e quarenta.”
É uma cena pequena, mas talvez explique melhor o disco do que qualquer palavra grande. Catatau fala de trabalho, política, futebol, amor, cidade, linguagem e canção brasileira sem separar muito uma coisa da outra. No mesmo álbum em que há Leminski, metalinguagem e palavra desmontada, também existe o corpo cansado de quem atravessa São Paulo de madrugada para conseguir voltar pra casa.
“O trabalho é muito importante pra mim”, diz Ítallo. “Eu fui CLT algumas vezes na vida, passei por perrengues que um trabalhador brasileiro passa, de pegar condução uma hora pra ir, uma hora pra voltar, abuso de patrão, enfim, muitas coisas ruins padrões.”
Antes de viver só de música, Ítallo trabalhou como atendente de telemarketing em São Paulo, passou por estágios, empregos CLT, faculdade de Direito e anos tocando como músico de apoio em bares. Começou a tocar de forma remunerada ainda em 2010, mas nem sempre aquilo parecia sonho. Muitas vezes era trabalho no sentido mais seco da palavra: tocar quatro horas, cumprir repertório, sustentar a noite dos outros.
“Dava prazer, obviamente”, diz. “Mas muitas vezes eu tocava coisas que eu não queria tocar e por muito tempo.”
É dessa relação com o trabalho que Catatau tira parte da sua matéria. O disco fala de exploração, cansaço e dinheiro curto, mas não como quem coloca um conceito na frente da música. A ideia aparece em forma de cena: condução, aplicativo, frete, crachá, cachê, trem, jogo, feira, personagem, saudade. O Brasil entra menos como tese e mais como conversa atravessada.
E por isso Catatau consegue juntar assuntos que muitas vezes aparecem em gavetas separadas. Futebol e política. Amor e trabalho. Palavra e ônibus. MPB e telemarketing. Lula e Zé Colmeia. Cinema japonês e música de bar. Nada disso aparece como colagem de referência para parecer interessante. Entra porque, na vida comum, essas coisas já se esbarram o tempo inteiro.

Quando pergunto se ele escreve sobre o cotidiano como alguém que observa de fora ou como parte da cena, Ítallo não escolhe um lado só.
“Eu observo, mas também sou objeto da observação”, resume. “Mesmo quando estou observando, eu também sou parte da observação.”
A política, em Catatau, nasce muito daí. Não como discurso pendurado na música. Ela aparece no deslocamento, na rua, no cansaço, nos personagens, no trabalhador que precisa transformar tempo em dinheiro e ainda encontrar espaço para desejar alguma coisa.
“Acho que faltava um disco que fosse um pouco mais contundente quando fosse falar de política”, diz. “Eu já tinha trazido algumas questões, mas sempre de uma maneira mais subjetiva. Agora talvez as coisas tenham ficado um pouquinho mais objetivas.”
Ainda assim, Catatau não abandona o campo da canção. Mesmo quando cita Lula, fala de classe social ou encosta na esquerda brasileira, o disco continua lidando com romance, humor, melodia, futebol e nome próprio. Política não é uma faixa isolada. É o jeito como as coisas entram no dia.
Foi em uma dessas voltas que apareceu uma das melhores definições possíveis para o disco: Música TV Cultura.
A expressão veio de Felipe Vaqueiro, depois de ouvir “Janeiro”. Ele disse que a letra tinha uma coisa “bem TV Cultura”. Ítallo gostou. Depois, pensando melhor, percebeu que talvez ele próprio e Felipe fossem compositores TV Cultura.
A definição funciona porque tira a pose sem diminuir o trabalho. Música TV Cultura não é música careta, nem tentativa de parecer culta. É como um livro didático rabiscado: tem explicação, mas também tem seta, piada no canto da página e brincadeira.
“Eu entendo a TV Cultura como uma extensão do livro didático”, diz Ítallo. “Um livro didático na TV. Não é exatamente uma coisa careta, mas também não é totalmente descolada do mundo. Ela quer te educar de alguma maneira. Existe um conceito ali de cultura.”
Ele não se incomoda com o rótulo. Só faz uma ressalva: não quer fazer só isso. Porque aí vira acomodação.
Essa ideia ajuda a ouvir Catatau. O disco tem algo de educativo, mas não no sentido de ensinar uma lição. Ele parece interessado em mostrar como a canção se monta: verbo, ritmo, palavra, repetição, melodia, referência, rua, nome próprio, frase pescada de conversa. Em “Janeiro”, isso aparece de forma direta, como uma canção sobre tentar fazer canção. Em outros momentos, vem por baixo, no jeito de aproximar temas e imagens sem pedir licença.
Ítallo fala da canção como quem respeita o ofício, mas também como quem se diverte com ele. Gosta de letras longas, de muita palavra, de experimentar forma, de compor pensando no disco como obra, mas sem perder o prazer de escrever.
“A grande tônica desse disco é ter músicas com muita letra, que é particularmente o que eu gosto mais, o que eu me divirto mais quando tô fazendo música”, conta. “Eu gosto de fazer melodia também, mas acho que não me sinto tão capaz de fazer melodias muito bonitas como vejo outros colegas fazendo. Com letra eu tenho um pouco mais de capacidade e mais prazer.”
A dúvida deixa Ítallo menos blindado. Ele sabe onde pisa, mas não fala como quem domina tudo. Em “Tire Uma Hora pra Lembrar de Mim”, por exemplo, queria uma canção mais canção mesmo, com refrão, para fazer uma ponte com Tarde no Valquíria e com “Retrato de Maria Lúcia”, que ganhou nova circulação depois da regravação de Zé Ibarra.
Quando mostrou a música para Paulinho, produtor do disco, ouviu algo que precisava ouvir. Paulinho disse que a faixa tinha “cara de clássico”.
“Eu disse: ‘putz, era isso que eu queria ouvir’”, lembra. “Eu queria uma validação, porque fiquei meio: ‘será que é isso mesmo?’. Aí ele me encorajou e a música entrou no disco.”
Essa dúvida não diminui a canção. Mostra que Catatau também nasceu de tentativa, conversa, apoio de produtor, pitaco de amigo e frase que aparece no meio da noite. Um disco pensado, mas não intocável.
Para Ítallo, Catatau também passa por uma defesa da canção brasileira — não como saudade de uma época melhor, mas como atenção ao ofício num momento em que tudo circula mais rápido. Ele reconhece que a música se pulverizou, que mais gente consegue lançar, circular e encontrar público. Isso tem ganho real. O problema, para ele, é quando a abundância vira repetição automática.
“Com todas as coisas boas que vêm com a democratização dos acessos, também vem muita coisa ruim, porque tudo é mais”, diz. “E que bom que seja assim. Mas, a partir dessa situação, a gente também pode discutir o que é problema.”

O incômodo dele não é com o novo. É com a música feita por molde. A mesma sequência, o mesmo jeito de cantar, o mesmo assunto, a mesma tentativa de repetir o que acabou de funcionar. Em vez de se colocar fora desse mundo, Ítallo se entende dentro dele, tentando propor outra coisa. Sem dizer que inventou a roda.
“Eu sou educado pela canção brasileira, pela MPB”, afirma. “Tudo que tá ali você já pode ter ouvido em outras coisas, mas aquilo tá sendo reinventado, remodelado, rediscutido.”
Essa frase diz mais do que qualquer discurso sobre originalidade. Catatau não tenta fingir que nasceu do zero. O disco assume que veio de algum lugar: da MPB, da música de bar, da literatura, do cinema, da TV, do trabalho, da rua, da família, dos amigos. A diferença está no modo como Ítallo mistura essas coisas.
As pessoas, aliás, aparecem o tempo inteiro. Nos nomes das músicas e na memória do compositor. Ele diz que até tinha prometido a si mesmo que não faria músicas com nomes de mulheres nesse disco, mas não conseguiu. Ou melhor: não fazia sentido evitar. Nina é sua mãe. Lolô é sua sobrinha. Marina é Marina Nemésio, cantora e compositora para quem escreveu “Drive My Car (pra Marina)”.
“Eu sempre faço canções em homenagem a pessoas importantes na minha vida”, conta. “A vida é na rua, véio. É conversando, conhecendo pessoas, se relacionando. Se a música é viva, é justamente porque essas pessoas existiram.”
No caso de Marina, a música nasceu primeiro como melodia. Ítallo começou a cantar e sentiu que aquilo parecia composto por ela, não por ele. Tentou escrever uma letra que carregasse um pouco do jeito da amiga, mas sem deixar de ser sua.
“Eu queria uma coisa que me tirasse um pouco de mim e colocasse um pouco dela dentro de mim.”
O título veio depois, ligado ao filme Drive My Car, de Ryusuke Hamaguchi. Ítallo fala do longa sem pose. Assistiu pela primeira vez em 2022, num momento em que precisava daquele filme, e chorou em todas as vezes que viu.
“Eu chorava de soluçar”, diz. “E são três horas de filme. Não vou bancar o cinéfilo, não. Filme de três horas dá vontade de dormir, dá vontade de abandonar no meio, não vou dar uma de cult. Mas esse filme me deixa vidrado.”
O que pegou foi o texto, a presença da arte dentro da arte e a forma como o filme trata comunicação. Quando falamos sobre isso, ele percebe que Drive My Car talvez não esteja só na música para Marina, mas também em “Janeiro”, “Dorinana” e “Última Roupa”.
“O amor tá sempre ligado com comunicação. Acho que isso é Drive My Car. Deve ter um Drive My Car ali.”
É uma das costuras mais curiosas de Catatau: um filme japonês de três horas, uma canção para uma amiga, uma música sobre fazer música e uma frase sobre amor como sinal postal cabem no mesmo lugar. Não porque Ítallo força uma conexão, mas porque o disco funciona por associação. Uma coisa puxa a outra.
No fim, Catatau parece menos interessado em dar respostas e mais em defender uma maneira de fazer canção: com palavra, prazer, rua, estudo, amizade, dúvida e alguma bagunça. Uma música que pode ser TV Cultura sem ser comportada. Que pode citar Leminski e correr para pegar o metrô. Que pode pensar a MPB sem colocar a MPB num pedestal. Que pode falar de política sem esquecer que alguém ali também ama, trabalha, sente ciúme, pega ônibus, vê filme, torce, ri e precisa de validação de vez em quando.
No fundo da capa, ainda está o Itinho. Criança, expressivo, meio triste, meio alegre, olhando para o mundo antes de saber que um dia tentaria transformar tudo isso em música.