Em new avatar, Kelela habita todos os seus universos
Entre shoegaze, indie rock, UK garage e R&B, Kelela revisita as próprias origens sem perder de vista a música preta que ajudou a empurrar para o futuro
Desde o lançamento da mixtape Cut 4 Me, Kelela apresentou ao mundo uma fusão de R&B e música eletrônica que abriu caminhos pouco explorados na época. Com profunda consciência da cena que ajudou a transformar, ela sempre expôs as engrenagens históricas da indústria musical: a inovação, a apropriação e o apagamento constante de artistas negros que ajudaram a construir a música preta contemporânea. Inicialmente, o título new avatar pode sugerir a adoção de uma persona digital passageira ou uma simples troca de figurino. Mas quando pensamos no “Avatar” da clássica animação, uma entidade responsável por restaurar o equilíbrio em um mundo em conflito, dominar múltiplos elementos e absorver as pancadas de sua era sem perder a própria essência, Kelela ocupa esse lugar. Como tantas figuras que mudaram o rumo da música por meio de uma visão artística singular, ela também se tornou uma referência para quem agora começa a expandir esses mesmos caminhos.
Nesse novo ciclo, os elementos que a artista passa a dominar são o rock alternativo, o shoegaze, o dream pop e o punk house. Essa guinada é um resgate da sua própria história (antes da carreira solo, ela integrou a banda de indie rock Dizzy Spells). Como a artista já comentou, suas primeiras composições nasceram em punk houses, espaços onde a principal regra era desmontar a obsessão pela perfeição. Se Take Me Apart era marcado pela tensão calculada e Raven pela imersão noturna, new avatar aposta na leveza. Há uma sensação genuína de liberdade ao abraçar a ética de estar pouco se fodendo, permitindo que a espontaneidade de sua juventude floresça novamente sob a roupagem de guitarras distorcidas.
Kelela e Oscar Scheller constroem um disco em constante transformação. O álbum vai da contemplação a explosões de energia em questão de segundos, como no salto brilhante de “idea 1”, que parte de arpejos de sintetizador para guitarras mercuriais e harmonias vocais que ampliam a escala da faixa. O indie rock também dita o ritmo no fluxo tortuoso de “goin down” e nas baterias reverberantes de “crystalize”. O R&B permanece como o centro gravitacional do álbum. A música de clube ressurge com força em faixas como “point blank”, com baixos pressurizados, e na excelente “dont piss me off”, que abraça o groove do UK garage dos anos 2000.
É aqui que surge o espelhamento geracional. Ao convidar Fousheé para a refrescante “new life forms” e PinkPantheress para a precisão rítmica do two-step em “the bridge”, Kelela se reconhece nelas. Ela enxerga seu próprio reflexo em artistas que ajudam a expandir os caminhos da música preta para uma nova geração. Para o público que chega a esse universo através dessas novas vozes, sua presença funciona como um mapa que leva diretamente a uma das artistas responsáveis por ampliar o espaço criativo que elas ocupam hoje. O clima de resolução se estende às parcerias masculinas, como a participação letárgica e sedutora de A.K. Paul na balada “outta time”.
Liricamente, as metáforas sutis deram lugar ao confronto direto. A narrativa não entrega “mais do mesmo”, mas uma evolução: os temas ganham uma nova dimensão ao oscilar sem pudor entre a entrega amorosa e a fúria incontrolável. Essa crueza é o complemento perfeito para a experimentação instrumental, provando que é possível olhar para o passado, abraçando as guitarras de sua formação e os pioneiros que expandiram os limites do rock, enquanto se abre espaço para novas possibilidades. Se o Avatar representa alguém capaz de encontrar equilíbrio entre diferentes elementos sem perder sua identidade, então new avatar é o momento em que Kelela deixa de alternar entre universos e passa a habitá-los todos ao mesmo tempo.