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Charli xcx declarou a morte da pista de dança, e pelo visto você não pegou a piada

Foto por Tyrell Hampton

Passado o tumulto verde-limão, muito se perguntou o que Charli xcx faria em seguida. Após três turnês, um álbum de remixes com grandes colaborações, premiações e um filme seu com a A24 estreando em Sundance, a última coisa que se esperava de Charli era que ela dissesse que a pista de dança morreu — e que agora faria rock.

Mais surpreendente do que a própria declaração é a ideia de que muitas pessoas a levaram a sério. DJ desde os 14 anos, Charli fez da música pop/eletrônica seu ganha-pão, e, com o tempo, se tornou a porta-bandeira do hyperpop, tendo trabalhado ao lado de nomes como Sophie Xeon, criadora das bases do gênero e sua amiga próxima. Não há um mundo onde Charli xcx diga um absurdo dessa qualidade sem uma camada óbvia de provocação.

A canção “Rock Music” foi lançada na última sexta-feira (08), e bastou abrir as redes sociais para deparar-se com uma gama de pessoas frustradas ou até mesmo furiosas com o single. Eis um exemplo da clássica frustração que sucede um disco aclamado: ele atrai um novo público que ama aquele trabalho específico, mas não necessariamente entende a trajetória da artista nem reconhece seu processo e proposta criativa.

Na faixa, Charli de fato flerta com a estética do rock: guitarras distorcidas e uma bateria dividem espaço com os vocais processados que já são assinatura da cantora. A canção consegue transitar entre a linguagem pop-experimental de Charli e o estilo do rock com fluidez, o que soa consistente e, sobretudo, atual.

O grande trunfo, porém, fica com a letra. Charli debocha da elite artística e da pretensão que ronda o discurso musical. O eu-lírico de Rock Music circula entre pessoas “super criativas”, obcecadas em sempre parecer à frente de seu tempo, com opiniões enfáticas sobre o zeitgeist e os rumos da arte. Ao mesmo tempo que a canção se propõe a ser uma crítica, é em certo nível uma auto-ironia. A letra é engessada, com versos secos e statements evidentemente enfadonhos e pretensiosos, que fazem da canção uma encenação daquilo que ela própria critica.

Os números iniciais já sugerem que a nova era de Charli talvez não repita o mesmo buzz de Brat — todavia, Charli apresenta uma música extremamente coerente e entende que não se levar a sério é essencial para qualquer artista que deseja continuar em contato com a realidade.

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