★ Opinião

QUASE RESENHA – “Celestial” mostra quando cada parte sabe respirar

Papangu é uma banda singular. Mostrou nos dois primeiros discos, uma mescla interessantíssima, era como se o King Crimson se tivesse fundido com Magma e Luiz Gonzaga e tivesse nascido na caatinga decide largar o peso, abrir as janelas e ver o que entra. O que entra é luz — mas a luz estranha dos sintetizadores analógicos, do Fender Rhodes aquecido, de oito máquinas vintage sendo operadas por gente que claramente tem mais intimidade com elas do que com qualquer coisa produzida depois de 1980.

Celestial é o terceiro disco do Papangu e eu entrei esperando mais do mesmo. Os discos anteriores eram pesados, sludgy, cheios de cangaceiro e caatinga soando denso e inevitável. Aqui eles viram a chave. O peso some e no lugar aparece uma claridade que parece outra banda — mas que claramente só podia vir deles. “Taxidermia” é a faixa que me fez parar o que estava fazendo. Uma virada de 15/8 pra 6/8 executada com uma leveza tão absurda que você demora pra perceber que acabou de acontecer algo tecnicamente ridículo. “Fechamento de Corpo” soa como trilha de uma exploração de cavernas que você não queria fazer mas da qual não consegue sair. “Bode Expiatório” começa jazzística, quase comportada, e termina explodindo num espaço que você não estava esperando.

Créditos – Helder Bruno

O que me desarmou mesmo foi a escuta. Com tudo acontecendo ao mesmo tempo — sintetizadores, percussão nordestina, vocais que às vezes raspam e às vezes flutuam — o disco nunca afoga. Cada parte sabe quando respirar. Isso é arranjo. Isso é confiança. Gravaram tudo em analógico, sem IA, sem muitos recursos e sem firula. É como se fosse uma declaração política tanto quanto estética. Soa como 1975 feito por gente que sabe o que aconteceu depois de 1975. O Nordeste soando como ninguém mais no mundo — e dessa vez com luz em vez de pó.

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