A frieza gringa, política no telão e a catarse de Sudan Archives: o saldo do Balaclava Fest 2026
Entre superestreias, reencontros com o público brasileiro e manifestações políticas no palco, a 16ª edição do festival teve em Sudan Archives sua catarse máxima e deixou claro que conexão ainda importa tanto quanto curadoria
Nos dias 26 e 27 de setembro, o Tokio Marine Hall recebeu a 16ª edição do Balaclava Fest. Com dois palcos e um line-up que atravessou gerações, o evento reforçou seu status como um dos principais festivais de música alternativa do Brasil. Mas, para mim, o festival começou antes mesmo dos shows.
Um dos grandes atrativos de um evento desse nicho é justamente esbarrar com a nossa “bolha”. As meninas da Rota Indie me fizeram companhia no primeiro dia, troquei uma ideia com a Fran, trombei o Otto(pap)i e finalmente conheci a Vi Prates pessoalmente. Essa resenha de pista faz parte da experiência tanto quanto a música, transformando o festival em uma verdadeira reunião de firma da cena indie brasileira.
O saldo musical do fim de semana mostrou um sábado com altos e baixos, demorando um pouco mais para engrenar. Wishy foi um dos primeiros acertos, equilibrando melodias acessíveis e o peso das guitarras dos anos 90 sem soar como uma simples cópia do disco.
Logo depois, Ludovic provou por que é um pilar do nosso underground. Divulgando seu primeiro álbum em duas décadas, a banda de Jair Naves entregou uma apresentação intensa. O público respondeu com moshes e letras cantadas a plenos pulmões, criando aquela sensação de pertencimento que só uma banda jogando em casa consegue gerar.
Dry Cleaning veio na sequência com um show muito sólido, em que o spoken word de Florence Shaw foi ganhando a plateia aos poucos, culminando em uma pista totalmente entregue. Fechando a noite, a aguardada estreia do Blonde Redhead justificou as expectativas. O trio preencheu o palco com seu noise rock e dream pop, mas o ápice da noite foi visual e político: durante o set, o telão exibiu a bandeira da Palestina, mensagens pró-Lula e duras críticas à extrema direita, estampando chifres de diabo em imagens de Donald Trump e Flávio Bolsonaro. A galera ferveu.

O domingo, no entanto, colocou o festival em outro patamar. Wednesday finalmente pisou no Brasil entregando peso, urgência e ruído. Liderada por Karly Hartzman, a banda fez um show explosivo, com direito à vocalista xingando Jair Bolsonaro antes de tocar “Bull Believer”.
O clima de nostalgia e crescimento marcou os shows de Beach Fossils e DIIV. Ambas as bandas já tinham uma história com o público brasileiro em palcos menores e, agora, retornaram tocando para milhares de pessoas. O DIIV, inclusive, aproveitou a passagem para iniciar a turnê do novo disco ZIRP!.
Mas a coroa do festival tem dona: Sudan Archives. Brittney Parks transformou o show em uma experiência física e quase ritualística. Vestida com seu violino e uma presença de palco impressionante, ela extrapolou o formato tradicional. Chamou um fã para o palco, abriu uma espécie de passarela no meio da pista e fez o público deixar de ser apenas espectador para participar da apresentação. Em um evento no qual muitas atrações internacionais mantiveram uma relação mais distante com a plateia, Sudan foi, disparado, a figura mais carismática do fim de semana.
Essa entrega da Sudan evidenciou meu principal incômodo com o festival: a distância que parte das bandas internacionais manteve da plateia. Faltou olho no olho, troca e, em alguns casos, a sensação de que havia interesse em estar ali para além da própria apresentação. As exceções que salvaram esse quesito foram a própria Sudan, Wishy, Wednesday, Beach Fossils, High Vis, Blonde Redhead e DIIV.
No show do High Vis, Graham Sayle mostrou justamente como essa conexão pode mudar a energia de uma apresentação. Além de dedicar músicas à classe trabalhadora, o vocalista abriu o coração antes de “Trauma Bonds”, falando sobre como encontrou na música uma força para se manter sóbrio. Mais do que uma fala entre músicas, o momento deu contexto pessoal ao show e aproximou ainda mais a banda da pista.
Mais do que atestar uma curadoria afiada, a 16ª edição do Balaclava Fest evidenciou a habilidade da gravadora de documentar a própria trajetória. O evento se consolidou como um terreno onde os artistas que ajudaram a sedimentar a cena alternativa dividem espaço com os nomes que ditarão o seu futuro. Desta vez, no entanto, o impacto desse encontro foi muito além da música. Entre bandeiras estendidas, discursos rasgados e projeções inflamadas, os palcos viraram plataformas de manifestação, absorvendo a urgência política que o cenário global exige.
Quando as luzes se apagaram, a mensagem que ecoou na pista foi clara: a engrenagem da música independente não sobrevive apenas da descoberta de bandas, mas da necessidade de aglutinar a comunidade, canalizar indignações coletivas e fazer dessa troca a nossa maior catarse.
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