Esse Ano Não Tá Fácil

ENTREVISTA: Conversamos com o Júlio Victor, do canal Tá Na Capa, sobre seu novo EP: Esse Ano Não Tá Fácil

Esse Ano Não Tá Fácil traz política e reflexão pessoa de forma forte e poderosa

Júlio Victor, do canal Tá Na Capa, acabou de lançar o EP “Esse Ano Não Tá Fácil“. Além de temáticas pessoais, a visão política do que está acontecendo no país também está presente. O EP leva a uma reflexão sobre nós e sobre o mundo ao redor e como isso afeta a vida das pessoas.

Você poderá ouvir abaixo o EP. As 5 faixas do EP Esse Ano Não Tá Fácil podem ser ouvidas no canal Tá Na Capa.

O Minuto Indie bateu um papo com o Júlio, que fala um pouco mais de como tudo foi feito:

Como surgiu a ideia do EP? Você já tinha algo escrito ou as coisas foram acontecendo repentinamente?

Desde o fim das eleições até mês passado eu tenho entrado em um cataclisma mental envolvendo várias coisas. Desde o futuro do meu canal, Tá Na Capa, até minha profissão, visão de mundo, minhas relações e etc… Isso acabou culminando em sintomas depressivos e uma sensação de impotência tremenda. Mas foi após muita relutância que fui pra terapia pra entender que meus problemas não eram menores como eu achava ser e esse momento foi muito especial pra baixar a cabeça e me conectar comigo mesmo.

Nessa mesma semana eu sentei em frente ao computador com meu sintetizador e em uma madrugada pari o EP inteiro. Instrumentais, letras, temas e samples. Tudo foi recortado em um único período. É um desabafo, o vomitar de coisas que nem sempre cabem em uma conversa (termo que tá cada vez mais raro quando se fala de política, religião e vaidades como um todo).

O que você tem ouvido ultimamente influenciou no trabalho?

Acho que esse trabalho se influencia pouco por coisas recentes que tenho escutado. Os sintetizadores vem de uma estética bem Stranger Things, série que gosto bastante e o conceito sonoro dela me atrai. é O timbre dos anos 80, mas ao mesmo tempo é sombrio. Tem muito de Rogério Skylab também, nessa noção de discurso direto, ácido, debochado, que parece não ser sério até você prestar atenção.

Eu optei por cantar menos nesse registro, mas ainda sim carregando a influência do emo, que é muito forte pra mim, daí sem dúvidas o spoken word do Hotel Books é algo que me influencia desde que descobri o projeto muitos anos atrás, lá no início. Mas acho que o jeito de fazer músicas começando pela batida, pelo sample, e ainda soar melódico bebe muito do que sempre escutei de Kanye West e Frank Ocean.

Composição

Como funciona o seu processo de composição?

É aleatório. Nesse caso específico eu precisava falar coisas que não eram facilmente ditas. Eu precisava me fazer entender e isso é um grande desafio hoje na internet. Um texto, um vídeo, nem sempre faz as pessoas te entenderem. Mas a arte torna isso mais acessível. A premissa básica desse EP são músicas para serem compartilhadas. É eu poder colar um link pra você ter acesso a tudo aquilo que eu não consigo dizer e que eu percebo que muitos amigos não conseguiam condensar também por serem temas angustiantes.

Tudo começou no que precisava ser dito, os personagens fictícios que poderiam muito bem existir e que faria qualquer um pegar a carapuça e vestir. Daí eu partia pra algum sample do rock nacional dos anos 70 ou 80 que eu sentia que tinha a mesma intensão de letra e a partir daquela vibração do artista eu construí com teclados e beats o que veio na cabeça na hora. Meio que o primeiro pensamento musical que veio foi o que ficou.

Letras

Suas letras trazem além das suas perspectivas diárias, temas políticos, como você vê hoje as coisas que acontecem no país?

Sabe quando tu é criança, no ensino fundamental, aprendendo sobre o Egito, Grécia, fenícios, idade média, cruzadas, revolução francesa, segunda guerra mundial, ditadura militar e tudo aquilo parece tão distante, quase ficcional? Eu vejo esse momento atual com um medo latente nosso de uma “ficção” se tornar real. Mas na verdade não é ficção, aconteceu. E a gente sempre se pergunta: como deixaram isso acontecer?

E a parada é que simplesmente aconteceu, igual tá acontecendo, a história não tem uma consciência exata do momento em que se vive. Eu nunca imaginei ver gente normalizando nazismo, elogiando torturador, racistas assumidos, homofóbicos assumidos, o machismo imperando, o maniqueísmo rondando, uma polarização que vê tudo que é anti-presidente como algo maléfico, de esquerda, do PT.

Já começa por aí que a histeria gerou comparações absurdas, não se pode falar de Bolsonaro, que é uma pessoa com opiniões, que tentam já comparar com o PT, que é um partido com ideologia. São moedas e pesos totalmente diferentes e distantes de comparação. Pra ser ostensivo contra o autoritarismo e irresponsabilidade de um governo vigente não precisa ser oposição, basta reconhecer isso na figura. E cada vez mais fica mais fácil de ver isso, mas ainda tem os fanáticos e eles fazem MUITO BARULHO.

Conheça o canal Tá na Capa.

Toda a produção foi própria ou outras pessoas participaram do processo?

Absolutamente sozinho. Foi um EP de emergência, eu quero cada vez mais abandonar esse meu processo de produção solitária, quero trabalhar com outros produtores, cantores, artistas plásticos, igual tenho feito já para os futuros lançamentos. Mas a velocidade necessária pra esse projeto só é possível em solidão.

Fiz a capa com colagens de imagens do Google, assim como os lyric videos, entre a concepção das músicas e o lançamento teve pouco mais de um mês. Era algo que não podia esperar uma burocracia musical. E talvez por isso que ele seja tão rude, áspero e de certa forma até mal acabado, mas tudo isso vira conceito no final das contas.

Posicionamento

E como você enxerga bandas e artistas que tem cada vez mais se posicionado com a atual situação?

Dentro do underground isso tá lindo, o hardcore tá muito vivo, o disco do Dead Fish prova isso mas é só a ponta da lança, tem muita coisa acontecendo. Dentro do rap tá maravilhoso em nomes como Djonga e Hot e Oreia, mostrando que esse movimento é o “novo rock” mesmo, o hip hop.

E acho até sacanagem dizer o novo rock por que o rap é o rap e acho que é muito maior e mais identitário que o rock, principalmente nacional. Sinto que as bandas tem se posicionado, mas aquelas que tem um pouco mais de visibilidade tendem a se abster e se pronunciar apenas em momento oportuno nas redes sociais com medo de não serem cobradas. Mas ao mesmo tempo vejo esse medo também em fazer músicas que realmente coloque a cara pra jogo, de falar mesmo do que tá acontecendo sem poesia subjetiva bonitinha.

Não tem ninguém morrendo nem censura pra você querer escrever nas entrelinhas igual Chico e Milton em Cálice. Eu vejo que o rock que tem um vitrine mais mainstream tem usado muito pouco da sua liberdade de expressão com medo de perder algo tão difícil de alcançar que é a visibilidade. Mas o momento é oportuno hoje pra isso, talvez ano que vem não seja.

Além de ser um autorretrato dos seus sentimentos, o que você busca atingir com o EP?

São músicas para serem compartilhadas. Pra conseguir passar uma visão de mundo e sofrimento que tem acometido muitas pessoas em 2019, mas que eu acredito que seja uma tendência para os próximos 3 anos, com certeza. Tem coisa que não cabe no debate, brasileiro não sabe conversar, brasileiro sabe ter razão.

A música é essa via onde tu vai escutar e ter as sensações da obra. Precisa prestar atenção. Depois você pode responder, discordar, fazer birra, achar lindo, tanto faz, mas pelo menos você escutou.

Hoje em dia é muito fácil falar e muito difícil ser escutado. E mesmo sendo fácil falar, é tanta coisa ao mesmo tempo que os pensamentos ficam desorganizados entre o que é fato, informação, e o que é sentimentos, emoção.

O EP consegue condensar esse retrato de tudo que eu tenho vivido esse ano e que eu sei que muita gente vive. Vai desde o governo até o instagram. Da religião até a sala de terapia.

Esse Ano Não Tá Fácil

Qual foi a reflexão feita depois de ver o material pronto?

Primeiro fiquei muito feliz por me expressar. Depois fiquei doido pra lançar. Depois fiquei feliz com os comentários de amigos a respeito da obra, todos com seus pontos fortes, fracos, críticas e afetos.

Mas prestes a lançar eu tive uma sensação de impotência, de foda-se, ninguém precisa desse som, ninguém gosta o suficiente do que faço em música, só em vídeo, isso pode dar ruim, queimar meu filme e etc… Mas após a terapia no dia seguinte que eu entendi que talvez isso fosse uma forma de me sabotar.

Se algo desse errado eu teria que lidar com isso. Mas se eu não fizesse o que fiz eu sempre pensaria em como seria e conviver com esse fantasma talvez fosse pior. O disco foi feito pra dar errado.

Ouça no Spotify.

Confira o EP Esse Ano Não Tá Fácil

 

Júlio Victor

Confira o último vídeo do canal Minuto Indie.

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