EXCLUSIVO: Dançando em meio ao caos, Tai Veroto lança single-clipe ‘E Se o Prédio Desabar?’

Conversamos com Tai Veroto sobre a vida, o medo e suas inspirações na produção de seu novo single ‘E Se o Prédio Desabar?’

É difícil não pirar em tempos tão confusos. Seja pela pandemia ou pela crise política, sentimos como se cada minuto fosse um desespero diferente, mas a realidade é que algumas coisas dependem de fatores externos para existirem ou deixarem de existir. Por isso, seja lá como for o nosso sentimento — da angústia à indiferença —, é preciso aprender a lidar com ele… aprender a dançar conforme o caos. É isso que o Tai Veroto propõe em seu novo single ‘E Se o Prédio Desabar?‘.

Capa do single ‘E Se o Prédio Desabar?’ de Tai Veroto

Apesar de ter sido a primeira vez que Tai Veroto trabalhou sozinho em uma faixa (na composição, na produção, nos arranjos, na gravação, na mixagem e na masterização), ele se aventurou e foi além das referências mais universais, como o rock e a MPB. Quem escuta, logo de cara, já nota que uma das inspirações para a concepção de ‘E Se o Prédio Desabar?‘ foi a música flamenca. No entanto, ao invés de apresentar um som mais romântico, Tai explorou o que o ritmo arrebatador e enérgico do flamenco oferece, para mostrar que, de desespero, também se faz dança.

Com a ajuda da mensagem existente no clipe, dirigido por Bárbara Lins, fica explícita a metáfora por trás de ‘E Se o Prédio Desabar?‘. Essa foi a forma que Tai encontrou de desabafar sobre como tudo parece desmoronar ao nosso redor, mas, apesar de tudo, o que nos resta é rir do medo e aceitar a queda. No decorrer dos segundos, a canção fica cada vez mais acelerada e os acordes sobem de tom. É assim que a sensação de ansiedade, terror e desalento é transmitida a quem escuta e acompanha o clipe. Afinal, estamos todos no mesmo prédio, não é? Então que a gente dance, mesmo se esse prédio desabar.

Reprodução/YouTube

A canção, lançada nesta sexta-feira (24), vem com exclusividade aqui no Minuto Indie. Tendo noção da grandiosidade da obra de Tai Veroto, aproveitamos a oportunidade para bater um papo com ele e conhecer um pouco mais sobre o que há por trás disso tudo — tanto da arte (a música e o clipe), quanto do próprio artista. Você pode conferir agora a entrevista, na íntegra, com Tai Veroto, o artista por trás de ‘E Se o Prédio Desabar?

Entrevista completa com Tai Veroto

MI – Como foi todo o processo de composição, produção, arranjo, gravação, mixagem e masterização deste novo single? Acredito que tenha sido um trabalho muito marcante pra você, justamente por ter sido sua primeira experiência fazendo tudo sozinho. Qual é seu sentimento em lançar essa música agora?

Tai Veroto – Eu já havia composto a letra da música no meio do ano passado, antes de todo esse caos pandêmico. Meus planos para 2020 passavam longe de gravar coisas novas, eu queria fazer muitos shows na verdade. Irônico, não? Me vendo impossibilitado de tocar ao vivo, resolvi dedicar o tempo livre em casa ao estudo da produção musical e consegui chegar em resultados que me contemplavam artística e tecnicamente. Essa canção veio como que naturalmente ao encontro do medo sentido ali no início da quarentena. Comecei a imaginar uma forma de traduzir em música a angústia retratada na letra, e aí veio essa escada de acordes cada vez mais rápidos trazendo uma urgência. O refrão melódico é um “alívio” após a ansiedade e a parte final veio de uma vontade de transformar tudo num grito dançante, uma espécie de “pé na porta” do medo, com medo. Gravar e produzir tudo sozinho é uma loucura. É desesperador não ter alguém te guiando, te validando e te sugerindo caminhos diferentes mas, ao mesmo tempo, é uma liberdade criativa antes nunca vivida. O que mais estou sentindo, no momento, é curiosidade. Por ser um som diferente, de difícil digestão, estou curioso com como será recebido. Também estou feliz e satisfeito de ter lançado um som totalmente autoral. Um misto de sentimentos! (risos)

MI – De onde é que veio essa ideia de misturar elementos de gêneros diferentes, inclusive da cultura do flamenco?

T – Se eu te disser que estudei a cultura flamenca, estarei mentindo. Gosto bastante da musicalidade flamenca, mas não sou um grande conhecedor. É como se essa musicalidade estivesse dentro do meu inconsciente e, de repente, num processo intuitivo, ela aflorasse. Acho que é assim que funciona com toda referência, né? Para mim, o flamenco é um desses movimentos, como o fado ou o samba, que expressam uma vivência muito verdadeira e visceral, de uma forma melódica e rítmica lindíssima. Gosto de misturar elementos diversos nas minhas canções. Tenho muito medo, às vezes, de não ter uma identidade musical reconhecida, mas eu gosto de um monte de coisas, fazer o que? Sei lá, talvez parte da minha identidade seja a mistura.

MI – E, na realidade, o flamenco é uma manifestação artística tipicamente romântica, sensual. Você se inspirou nele e entregou uma canção impactante, dramática, mas com um sentido diferente do comum. ‘E Se o Prédio Desabar?’ é angustiante, é questionadora e, enfim, revolucionária. O que te motivou a compor essa canção com elementos musicais desse estilo?

T – Sinceramente, acho que o flamenco PODE ser sensual, mas antes da sensualidade, eu enxergo força e visceralidade. Talvez seja isso que me fez trazer esse elemento para a canção. A dramaticidade também está muito presente no flamenco. Sei lá, pensando agora, por mais que seja uma cultura bem diversa da qual estamos acostumados no Brasil, ela acaba conversando bastante com a temática da minha canção e com a minha forma de fazer música. Eu sou muito dramático (risos).

MI – Outra coisa que chama muito a atenção é como essa música evolui com o passar de cada segundo. Ela começa como um desabafo aflito e termina como uma dança. O clipe reafirma que essa dança não é feliz, parece mais uma forma de expressar inquietação com o corpo e seus movimentos… uma forma de expressão da alma, algo que vem de dentro pra fora. Qual é o conceito por trás da sonoridade de ‘E Se o Prédio Desabar?’ e como isso foi tão bem ilustrado no clipe?

T – Eu enxerguei essa composição e esse arranjo como uma história com 3 partes, uma espécie de início, meio e fim. O início tenso e urgente, o meio cadenciado, mais calmo, melódico e apoteótico e o fim dançante e revolucionário. No clipe procuramos traduzir as mesmas sensações e temáticas para os movimentos de câmera: a câmera começa rápida, urgente e depois passa para movimentos mais calmos e delicados. Na parte final, a câmera, aos poucos, quebra com o movimento protagonista e passa a ser espectadora de algo diferente ali na cena.

MI – Essa música é sobre medo. O que realmente te dá medo e angústia nos dias de hoje?

T – Eu tenho medo das coisas não melhorarem, num campo político-cultural. Sou uma pessoa bastante esperançosa e sinto que, no fundo, o mundo está caminhando para lugares mais justos, mas dá medo de estar errado. Me angustia muito essa era que vivemos da “pós-verdade” onde as pessoas estão voltando a acreditar em coisas de séculos passados como os terraplanistas, por exemplo. Tenho medo de não conseguir viver meus sonhos e vivenciar frustrações muito grandes. Tenho medo de ser esquecido, medo de que minha arte não seja relevante e se perca no caminho do tempo. São muitos medos, né? Dá-lhe terapia! Também sei que a vida não é só medo. Tomo minhas doses diárias de coragem e esperança e tenho muita fé em caminhos que uma parte da humanidade está tomando.

MI – Já vivemos a metade do ano. Um ano muito angustiante, que dá medo mesmo. E esse medo nos adoece de verdade. O que acontece ao nosso redor nos assusta muito, em todos os sentidos. Pessoas morrendo e outros simplesmente não se importando. Como tudo parece estar um caos, às vezes nossa cabeça não consegue lidar bem com esse bombardeio de notícias. É o que alguns chamam de “infodemia”, uma epidemia da informação (e de muita desinformação também), justamente porque o excesso de notícias nos cansa e nos consome. Você, como pessoa, está conseguindo lidar com isso de que forma?

T – Procurando me desligar e escolhendo bem as informações que leio, ouço e assisto. Para o bem e para o mal, acho que essa “infodemia” chega a um ponto em que nós simplesmente apertamos o “foda-se” e tudo vira uma massa cinzenta de informação que não é mais processada pelas nossas emoções, sabe? Por um lado isso pode ser cruel, por outro talvez seja importante essa “blindagem” para não perder a sanidade mental também, né?

MI – Além das aflições como indivíduo, acredito que você também tenha suas dores pessoais como artista. A pandemia impediu nossos planos, interrompeu eventos e agravou a situação do setor cultural, que já era carente. Muitos, como você, continuam produzindo. Onde você encontra forças pra continuar se manifestando através da arte? Qual é seu combustível?

T – Acho que tenho dois combustíveis: um é a força criativa, as inspirações que surgem de momentos difíceis e que precisam sair do papel, se concretizar e tocar o mundo. O outro combustível, com certeza, é o tempo livre. Tempo para poder estudar produção musical, tempo para experimentação e tempo para deixar a inspiração criativa florescer sem pressa.

MI – Esse novo single vem como um ato político nesses tempos tão sombrios pra nós. O que você deseja que as pessoas entendam com ‘E Se o Prédio Desabar?’

T – Por mais clichê que isso possa soar, eu realmente não desejo uma compreensão racional específica das pessoas. Desejo sim, e muito, que possam sentir as sensações que procurei traduzir ali ou ainda sensações únicas e diferentes derivadas desse material. Acho muito louca e importante essa “transmutação” de sensações por meio da arte: onde eu pintei angústia, pode ser que sintam outra sensação totalmente diferente, como prazer, por exemplo. Enfim, além das sensações transmutadas de cada um, desejo causar essa comunhão de sentimentos em quem ouve, para que sintam que, no fundo, no fundo, todos estão sentindo a mesma tensão dos tempos atuais.

MI – Você pretende lançar mais três singles ainda este ano. O que você já pode contar sobre eles? A reflexão feita em ‘E Se o Prédio Desabar?’ deve seguir presente nas próximas músicas ou esses lançamentos que estão por vir são inspirados em outras ideias?

T – Acho que há uma inspiração comum à todas as próximas canções: os tempos atuais. E talvez as épocas em que cada artista compõe e lança suas canções sempre sejam inspiração, mas eu sinto que esses nossos últimos anos, por serem mais tensos que o comum, acabam tendo um papel mais importante na inspiração como um todo. Tem música sobre o presidente e música sobre o amor em tempos difíceis. Tem música sobre o tempo e sobre superação. Tudo isso conversa muito com o tempo em que vivemos.

MI – Agora eu quero saber de você, Tai. Ainda há tempo pra fazer algo por nós mesmos? O que fazer pra que esse prédio não desabe?

T – Sempre há tempo. Até porque o tempo foi a gente quem inventou, sempre importante lembrar disso. Acho que a questão não é fazer alguma coisa para que o prédio não desabe, mas sim saber que ele pode desabar e estar tranquilo com isso. O importante é saber que sobreviveremos a esse prédio desabado e dos escombros podem sair coisas muito bonitas e novas. Talvez seja até bom que ele desabe de uma vez, sabe? O medo tá aí. Vamos nos abraçar e rir do medo do prédio desabar?

Só um aviso: gente, isso é uma metáfora, tá? Não estou falando de um prédio de concreto desabando com todo mundo dentro. Nesse caso é melhor evitar – com todas as forças, bons materiais e engenheiros responsáveis – que ele desabe.

Confira ‘E Se o Prédio Desabar?’, o novo single-clipe de Tai Veroto

Ouça ‘E Se o Prédio Desabar?‘, de Tai Veroto, através das plataformas de streaming: Spotify | Apple | Deezer | Amazon | Tidal | Napster

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