Instant Holograms On Metal Film surge como um ponto curioso na discografia do Stereolab. Não carrega o peso de um retorno dramático nem a ansiedade de um acerto de contas com o passado. Depois de 15 anos sem algo novo para mostrar ao mundo, a banda simplesmente reaparece fazendo o que sempre soube fazer melhor: reorganizar suas próprias ideias, deslocar referências e testar novas combinações dentro de um universo que continua imediatamente reconhecível.

O disco chama atenção pelo cuidado com os arranjos e as repetições – tão centrais na estética do grupo, agora parecem menos hipnóticas e mais funcionais, como se servissem à progressão das músicas em vez de ditar seus rumos e fica nítido como as guitarras ganham presença, soam mais secas, menos diluídas em camadas de teclados, e ajudam a criar uma sensação de contato direto com a canção. Em alguns momentos, a banda brinca com falsas conclusões, encerrando faixas que logo se desdobram em pequenos trechos instrumentais, quase como comentários finais, uma escolha simples que oxigena o álbum e quebra automatismos.

Aerial Troubles abre o disco deixando isso evidente. O jogo vocal remete a fases clássicas, mas o arranjo é surpreendentemente direto, guiado por um riff melódico insistente, quase pop em sua clareza – é uma faixa que aponta para o equilíbrio que o álbum busca: acessibilidade sem diluição, novidade sem rompimento brusco, uma mística madura, sem soar artifical e genérico. Em contraste, Electrified Teenybop! recupera o entusiasmo sintético que marcou EPs dos anos 1990, enquanto Transmuted Matter aposta em uma melodia mais expansiva, crescendo aos poucos e revelando um senso de construção que recompensa a escuta atenta.

Fonte – Facebook

Flashes From Everywhere se destaca por revisitar o diálogo do Stereolab com o pop dos anos 1960, mas sem cair em mesmísse, parece que Stereolab parece menos interessado em citar uma época específica e mais em capturar um espírito melódico atemporal, filtrado por sua própria lógica rítmica e harmônica. Em outro lado, Esemplastic Creeping Eruption coloca a guitarra em posição central, desempenhando um papel menos decorativo e mais estrutural, algo relativamente raro na discografia do grupo.

As letras seguem orbitando temas sociais e políticos, mas com um tom mais reflexivo, menos frontal. If You Remember I Forgot How To Dream Pt. 1 sintetiza bem essa postura – delicada, quase íntima, a faixa transforma a ideia de utopia em um gesto pessoal, sustentado por um arranjo contido e pela voz de Laetitia Sadier, que continua funcionando como eixo conceitual do Stereolab – que canta menos como narradora e mais como guia, conduzindo o ouvinte por um espaço onde pensamento e sensibilidade caminham juntos.

Nesse bolo todo, Instant Holograms On Metal Film impressiona por conseguir funcionar como síntese e reinvenção ao mesmo tempo. O álbum percorre quase todas as sonoridades que a banda já explorou, mas reorganiza esses elementos com mudanças claras de arranjo, estrutura e intenção. Longe de soar acomodado, o disco reforça a ideia de que a longevidade de uma banda como Stereolab, entendendo o que eles são, essa junção de pop psicodélico, looks, e é claro, o experimental, não vem do abstrato – que nem maioria julga, mas sim, da disposição constante para repensar a própria forma de existir dentro da música.

 

Autor

Escrito por

Giovanni

Me considero um fã de prog, metal, jazz e indie.
@giovarcon