
No centro de São Paulo, esperando o início da minha sessão na listening party de Nothing’s About to Happen to Me, novo álbum de Mitski, escuto pela primeira vez em anos expressões como “aula de matemática” ou “prova de geografia”. A fila, com mais de duzentas pessoas, é composta em sua maioria por jovens que eu julgo estarem entre os seus 15 e 17 anos. À mesma medida que percebo que estou envelhecendo — apesar de estar vestido como todos alí —, também tomo noção da proporção que a música densa e introspectiva de Mitski alcançou.
Em 2023 eu estava naquele mesmo lugar, para a audição de The Land is Inhospitable and So Are We, que reunia no máximo 90 pessoas. O desempenho comercial exemplar do álbum, liderado pelo single My Love My All Mine, apresentou a música da artista para uma nova leva de adolescentes — que não tiveram dificuldade nenhuma em se reconhecer nas letras de Mitski, uma espécie de bardo da dor e do sofrimento que crescer e existir nesse mundo nos proporciona.
Portanto, não é surpresa que esses temas estariam presentes em Nothing’s About to Happen to Me. O que marca o disco, no entanto, é justamente a escassez de surpresas. O som do disco é predominantemente uma sequela da estética austera e americana do The Land, contando com timbres similares, ambientação um tanto bucólica e cordas assinadas pelo mesmo arranjador, Drew Erickson. Em algumas faixas, o som indie-rock que marcou momentos anteriores da discografia da cantora reaparece, sendo Where’s my Phone o protagonista dessa lembrança.
O álbum tem momentos fortes, como In a Lake — uma das faixas mais inventivas, com uma sanfona de rasgar o coração e uma narrativa musical super sensível —, I’ll Change for You, que tem um quê de Brasil na percussão e nas cordas, e The White Cat com um coral cativante em seu refrão.
Vale dizer que a artilharia lírica de Mitski continua a todo o vapor, com letras tocantes e cheias de questionamento por todo o disco. Dead Woman, por exemplo, por exemplo, aborda a falta de autonomia das mulheres na construção de sua própria história dentro de uma sociedade patriarcal, partindo da ideia mórbida e real de que a morte de uma mulher garante que ela não terá mais controle sobre a própria narrativa.
Em suma, o álbum apresenta ideias bem executadas e ecos de eras passadas de Mitski. Sem trazer grandes motivos ou inovações musicais, a artista nos oferece um trabalho sólido e sensível para ser apreciado.
