Midnight Mocca Higher Ground

ENTREVISTA: Midnight Mocca segue sua estrada com o lançamento do terceiro EP, ‘Higher Ground’

Conversamos com o vocalista Lucas Mileib sobre o processo de criação de ‘Higher Ground’, EP fruto do amadurecimento da banda ao longo de 3 anos

Em sua autobiografia, Bob Dylan eternizou algumas memórias, e uma delas foi de quando ouviu sua avó dizer que “a felicidade não está na estrada que leva para algum lugar. A felicidade é a própria estrada“. Talvez cada um de nós tenha, ou procure ter, a sua própria estrada, a sua própria felicidade. Em algum momento, os destinos de Lucas Mileib, Renato Saldanha e Pedro Flora se cruzaram, e suas estradas se tornaram uma só. Assim nasceu a Midnight Mocca, uma banda de Belo Horizonte que, de 03 anos pra cá, construiu seu nome, evoluiu sua sonoridade e contribuiu com a cena indie folk mineira.

Foto: Luiza Ananias

Ainda em 2018, a banda se apresentou ao público através de 04 faixas de um EP, estreia que recebeu o nome de ‘Where are you guys from‘. Ali começava uma trilogia, que continuou em 2019, com mais 04 canções em ‘The road goes on‘, e se completou nesta sexta-feira, 02 de outubro de 2020, com o lançamento de ‘Higher Ground‘.

O terceiro EP da MidnightMocca começou a ser gravado no fim de 2019 e foi concluído no início deste ano. Ele é composto pelas faixas ‘Hiding all the Traces‘, ‘Far From Everyone‘, ‘Soul of the Street‘ (com participação do pianista e ex-Mutantes, Túlio Mourão) e ‘It Feels Like the Ocean‘, sendo que as três últimas foram lançadas como singles, antecipadamente.

Muitos planos precisaram tomar outros rumos em virtude da pandemia, um acontecimento que nem a banda, nem ninguém, poderia imaginar, quando ainda estávamos em 2019. Shows e uma grande turnê de lançamento, marcados para 2020, precisaram ser desmarcados, mas isso não impediu que a Midnight Mocca seguisse a estrada e aproveitasse a viagem.

Esse conceito de “estrada” não é nada aleatório; pelo contrário. O ideal, na verdade, é mesmo utilizar essa palavra para contar a história da banda belorizontina. Desde o início da trajetória, a estética da MidMocca, tanto sonora quanto visualmente, sempre fez relação com o conceito de roadtrip e toda essa coisa de enxergar a estrada como uma fonte de energia e de inspiração. Aliás, a trilogia de EPs possui significados muito sensíveis em relação a isso, uma característica bem evidente logo nas capas de cada um dos trabalhos lançados.

Capa do 1º EP ‘Where are you guys from?’ (2018)
Capa do 2º EP ‘The road goes on’ (2019)
Capa do 3º EP ‘Higher Ground’ (2020)

A Midnight Mocca não é só uma banda com uma boa sonoridade, que chama atenção dos que já curtem artistas como Mac de Marco e bandas como Wilco. É interessante como a música que vem dela está tão concentrada, naturalmente, em nos transmitir sentimento e, especialmente, sentido. Em cada fragmento de ‘Higher Ground‘, o grupo se entrega, com carinho, a nos mostrar o porquê está aqui.  Sua maturidade e sua evolução são facilmente notados quando a gente se pega viajando junto com cada melodia de cada canção.

Ainda há muita estrada para percorrer, mas muita história já foi construída até aqui. Por isso, conversamos com o vocalista Lucas Mileib (que também compõe e toca violão e guitarra na banda), que nos contou sobre o processo de criação do novo EP, como as participações de outros artistas, e também nos mostrou como é a sensação de ter encontrado, depois de tanta roadtrip, um “lugar mais esclarecido“, com ‘Higher Ground. Confira a entrevista exclusiva, na íntegra, a seguir:

Entrevista exclusiva com Lucas Mileib

MI – A pandemia trouxe inúmeras dificuldades, desafiou os artistas a se reinventarem, a pensarem em novas alternativas de comunicação com o público, e é claro que com vocês o desafio não foi menor. Pelo contrário, já que, em 2019, a expectativa para um ano novo era grande, né? Lançamento do terceiro EP da banda, shows em turnê e tudo de bom que pudesse surgir. Como é que vocês encararam esse momento e o que precisou mudar?

Lucas Mileib – A expectativa para 2020 era imensa, tanto que já logo após a virada do ano articulamos uma mini-turnê nacional, e saímos por algumas capitais do sudeste divulgando o single ‘It Feels Like the Ocean’, que seria o único revelado antes do lançamento do EP. Além disso nos organizamos para fazer uma grande festa de lançamento do novo trabalho, planejada para acontecer em maio, no Teatro Sesi Minas, aqui em BH, e que contaria com a participação especial do Túlio Mourão (ex-Mutante), do André Travassos (Moons) e do nosso produtor musical Leo Marques (Transmissor, Estúdio Ilha do Corvo). Com a pandemia o show de lançamento foi cancelado e, diante de todas as incertezas daquele momento inicial do isolamento, acabamos refletindo e optamos por fazer o lançamento do restante das músicas do novo disco aos poucos, com uma forma de abraçar e se manter conectados com os nossos amigos e ouvintes. Não foi fácil a escolha, sobretudo para quem já estava com o disco todo pronto e esperava fazer um show produzido no teatro, entretanto acabou sendo uma opção bem interessante pois nos mantivemos trabalhando na divulgação de música a música, além de termos mais tempo também para a produção de videoclipes para cada novo single que revelamos.

MI – Bom, agora a gente vê na prática que, apesar dos obstáculos, vocês conseguiram. Chegou a hora de apresentar a versão completa de ‘Higher Ground’ ao mundo. Além de destacar o amadurecimento da banda desde o segundo EP, de maio de 2019, esse novo tem algo diferente. ‘Higher Ground’ começou a ser gravado ainda no fim do ano passado, quando nem imaginávamos que viveríamos uma pandemia em poucos meses depois. Ele nasce agora, em uma realidade completamente diferente da que foi concebido. Quais recordações todo esse processo deixa para a história da banda?

MileibGravar o ‘Higher Ground’ foi muito prazeroso, e, de certa forma, um processo contínuo que se iniciou em 2017, desde quando conhecemos o produtor Leonardo Marques e começamos a gravar o primeiro EP lá na Ilha do Corvo. O estúdio que é uma espécie de berço da Midnight Mocca, sempre teve papel importante na nossa memória. Vale dizer que nunca estivemos muito distantes de lá ao longo dos últimos 3 anos, e quando começamos a gravar o ‘Higher Ground’ tudo rolou de uma forma muito natural. Temos muita afinidade com o espaço e com o Leo. Sem dúvidas receber os amigos que fizeram as participações especiais no novo disco foram alguns dos momentos mais marcantes.

MI – Por que a escolha do nome ‘Higher Ground’ para esse terceiro EP da carreira? Em tradução para o português, seria algo como “o lugar mais alto”? O que isso significa para a Midnight Mocca?

Mileib – “Higher Ground” é uma expressão que significa ao mesmo tempo um lugar mais esclarecido como também um lugar mais alto, mais ao topo. Para explicar essa escolha precisamos voltar aos trabalhos anteriores e que formam uma trilogia com o ‘Higher Ground’. Em 2017 iniciamos um caminho com a MidMocca e em 2018 o nasceu o EP debut ‘Where are you guys from?’, que em sua capa mostra um carro arrancando estrada acima. Como não paramos de gravar, lançamos em 2019 o segundo EP ‘The road goes on’, que literalmente marca essa continuidade na estrada, gravando, tocando e seguindo viagem com nosso projeto. ‘Higher Ground’ tem em sua capa, não por acaso, um lugar mais alto, e marca essa trilogia da aventura inicial da Midnight Mocca. É um lugar mais esclarecido, de onde se enxerga melhor, já que depois de 3 anos de estrada, conseguimos explorar novas sonoridades e fazer parcerias que expandiram nossas próprias ideias iniciais.

MI – ‘Hiding all the Traces’ é a surpresa do lançamento do EP, já que essa faixa não fez parte da divulgação em forma de singles. Como foi feita essa escolha? Por que ‘Hiding all the Traces’ foi a escolhida para ser lançada junto ao EP, como a faixa 01 da obra?

MileibPodemos dizer que foi um consenso. Quando conversávamos sobre a ordem das canções e dos lançamentos, todos concordamos com a mesma sequência. Cada um de nós pode ter uma explicação própria pela opção, e eu diria que ‘Hiding all the Traces’ quiçá seja, comparado com as demais, aquela que além de apresentar muito bem nossa sonoridade própria, mas que também o expande, em um novo caminho que não havíamos explorado tanto. Isso sem mencionar que é uma música curta, e com uma mensagem forte e que se conecta, pela sua letra, diretamente com a expressão que é o título do EP.

MI – Essa faixa e a ‘Far From Everyone’ carregam energias muito boas e uma característica em comum: as harmonias vocais. ‘Hiding all the Traces’ é uma parceria sinérgica e realmente harmônica entre as vozes do Mileib e do músico convidado Lucca Noacco, que participa no piano também. Ah, e a ‘It Feels like the Ocean’ é outro fruto de parceria. Nesse caso, o trombone e o trompete, de Leonardo Brasilino e Juventino Dias, dão o toque especial na sonoridade da banda. O mais legal é que todas as faixas influenciam quem escuta. Nos dá vontade de pegar estrada e também nos faz viajar a um espaço imaginário, onde só a paz tem lugar. O que é que inspira vocês na hora de compor ou na hora de decidir que determinada canção pede por uma parceria?

MileibÉ curioso como a estrada está totalmente ligada à sonoridade da MidMocca né? Já brincaram comigo que o rótulo nosso seria de ‘roadtrip rock’, nem sei se isso existe de verdade, mas faz todo sentido. A estrada é um espaço e também um movimento, que me serve de inspiração semanal, já que ainda viajo com frequência ao interior de Minas, tanto a trabalho como para visitar a família. É na estrada que eu consigo me conectar melhor com meus próprios pensamentos, comigo mesmo, e muitas vezes sozinho, tenho algumas ideias. É prazeroso pra mim estar na estrada.

Sobre as parcerias em ‘Higher Ground’, todas se deram de forma muito natural, e cada uma a seu modo. O Lucca é um amigo que conheci quando finalizava o primeiro EP, e de lá pra cá, sempre o convidei para participar de uma canção. Quando estávamos finalizando ‘Hiding all the Traces’, eu o convidei sem pensar tanto no resultado, e muito mais no encontro, no processo, e ali na Ilha do Corvo, com o comando atento do Leo, tudo fluiu muito bem. Já em ‘It Feels like the Ocean’, eu havia imaginado os metais, e quis acrescentar a sonoridade do trompete e do trombone. Fui atrás do músicos Leonardo Brasilino e do Juventino Dias, que admirava pelos outros projetos que participam, mas não conhecia pessoalmente. E eles foram super atenciosos no processo de gravação e rolou muito bem também apesar de ter sido uma escolha mais ‘pensada’.

MI – Túlio Mourão é uma inspiração e tanto para diferentes gerações de músicos, seja por causa de toda a sua trajetória como pianista, ou, especialmente, por fazer parte da história do rock progressivo brasileiro como ex-Mutante. Imagino que deve ter sido bem especial contar com a participação dele em ‘Soul of the Street’ que, inclusive, é uma canção com identidade única, tem aquela cara de blues, sonoridade conquistada graças à maestria e intimidade de Túlio com o piano. Como foi que surgiu essa parceria? E como foi firmá-la?

MileibO dia em que levamos o Túlio para a Ilha do Corvo é um daqueles dias muito especiais em que a memória não vai se esquecer. Sabe aquele dia que parece um filme de tão marcante? Foi assim pra mim. O Túlio, assim como todos os integrantes da Midnight Mocca também é natural de Divinópolis, e é muito amigo do Renato Saldanha, nosso baixista. Num jantar na casa do pianista, o Renatinho mostrou os bounces das nossas novas músicas, num rascunho bem cru mesmo. O Túlio gostou muito da faixa ‘Soul of the Street’ e já começou a fazer ali mesmo na sua casa um som no piano. Renatinho me fez um vídeo e contou que o Túlio tinha se interessado em gravar conosco. Alguns dias depois conversamos e agendamos uma data para fazer a gravação. O resto é história. Ficamos muito felizes com o resultado e com esse encontro tão importante. Não é todo dia que uma banda nova e independente como a nossa tem a possibilidade de fazer um feat. de tão alto nível.

MI – Enquanto eu assistia ao clipe e prestava atenção na mensagem de ‘Soul of the Street’, me lembrei do livro ‘A alma encantadora das ruas’, de João do Rio. Ele foi publicado no comecinho do século passado e é uma série de registros (reportagens e crônicas) das ruas do Rio de Janeiro, que João do Rio capturava com os olhos, ao “flanar” pela cidade. A ideia central é andar sem rumo, perambulando e observando as vidas que constroem aquele lugar… e a essência da terceira faixa desse novo EP parece ter a ver com isso. Pelo olhar de vocês, o que, quem, como é a alma das nossas ruas? E, afinal, do que ela corre atrás?

MileibMuito pertinente essa relação com a obra de João do Rio, que por acaso foi um dos livros que li pro vestibular da UFMG, muitos anos atrás. Tem muito a ver sim com essa captura despretensiosa e ao mesmo tempo atenciosa da cidade. A música foi inspirada justamente por esse olhar perambulante, que é uma marca registrada do lindo trabalho de fotografia do Alexandre Biciati, que construiu um projeto de fotografias maravilhosas, no seu andar – e observar – que é chamado Carne Urbana (@carneurbana). As fotografias ilustram a rua de um modo real, quase como uma denúncia. A rua é talvez o espaço mais importante da vida numa cidade, lugar de encontro, movimento e de mil possibilidades. Infelizmente há um descaso crescente com as ruas, sobretudo do papel do pedestre na rua, de um modo geral, que dá cada vez mais lugar a carros e máquinas. Mas é também possível encontrar nas ruas uma ternura. A música conta a história de um personagem que chega na cidade grande e tem que se virar na rua, conquistá-la. Foi composta inspirada na história fictícia de vida do meu cachorrinho Lenon, que foi resgatado no ano passado, mas é também uma história ampla, que se conecta com todos que tiveram, ou têm, na rua como sua casa, sua vida.

MI – Qual é o sentimento de vocês, agora, lançando todas essas faixas, reunidas, e de forma completa? Se pudessem escolher uma palavra para definir esse EP, como definiriam?

MileibO sentimento é de dever cumprido. São três anos de muito trabalho, num esforço em conjunto e contínuo pela nossa música, perseguindo sempre uma sonoridade autêntica e agora encerramos uma etapa importante, que nos trouxe muita maturidade e aprendizado. São três EPs, doze músicas autorais produzidas com carinho e com muito entusiasmo. O ‘Higher Ground’ é um verdadeiro ‘fechamento com chave de ouro’ dessa trilogia que apresenta a Midnight Mocca para a cena mineira e brasileira. É um trabalho que nos orgulha muito. A palavra para definir o EP seria ‘gratidão’. Gratidão a todos que cruzaram nosso caminho nessa estrada, estamos muito contentes com o resultado e somos gratos a todos os encontros.

MI – E quais são os planos para o futuro? O que o público pode esperar da Midnight Mocca daqui para frente?

MileibSão muitas as incertezas para fazer algum tipo de plano, mas no curto prazo, estamos ansiosos por poder reunir e fazer a live de lançamento do ‘Higher Ground’ no sábado, dia 03-out, lá na Ilha do Corvo, depois de quase 6 meses sem nos encontrarmos todos. Fizemos uma live em um formato acústico-duo, eu e o Pedro (guitarrista) e a recepção foi muito calorosa pelos nossos seguidores, não descarto o lançamento de alguma versão desplugada de uma das músicas já lançadas. A longo prazo, como eu tenho feito algumas novas canções fico com o desejo de poder gravar um álbum completo, é o que manda seguir a cartilha depois de três EP’s, né? (Risos). E depois da experiência em que acompanhei de perto os amigos da Moons gravando o LP ‘Dreaming Fully Awake’ no ano passado, fiquei com o desejo de reunir a MidMocca também no sítio. Nos últimos anos sempre passamos alguns dias lá para ensaiar e seria muito bonito poder reunirmos outra vez para a produção de um trabalho totalmente novo.

Escute ‘Higher Ground’, o novo EP da Midnight Mocca

Clique aqui para conferir o EP no YouTube.

Midnight Mocca é Lucas Mileib / Pedro Flora / Renato Saldanha

Participações em ‘Higher Ground’:

Túlio Mourão – piano em ‘Soul of the Street’

Lucca Noacco – vozes e piano em ‘Hiding all the Traces’

Leonardo Brasilino e Juventino Dias – trombone e trompete, respectivamente em ‘It Feels like the Ocean’

Eduardo Pereira Brazin’ – bateria em todas as canções

EP gravado, mixado e masterizado por Leonardo Marques, no estúdio Ilha do Corvo, em Belo Horizonte/MG, entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020.

Assista ao clipe de ‘Soul of the Street’

Live show de lançamento do EP

* Gravada na Ilha do Corvo, em VHS, e transmitida às 20h de 03 de outubro, no canal da banda no YouTube.

** Créditos da foto de destaque da matéria: Luiza Ananias

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