Existem pequenas tragédias sociais que todos nós reconhecemos: Enviar um e-mail antes de revisar e depois perceber que você repetiu a mesma palavra três vezes em uma frase; ou mandar um meme no grupo do seu trabalho, ninguém rir, e ter que esperar alguém começar um novo assunto por pura misericórdia. O Grammy de 2023 teve um episódio da mesma natureza: Harry Styles estava em cima do palco, segurando o gramofone de Álbum do Ano — o que soou no mínimo curioso, numa categoria com trabalhos exemplares de Adele e Beyoncé —, enquanto parte da humanidade se encontrava furiosa. Não havia mais o que ser feito.

A reação mais plausível diante de um dos constrangimentos cotidianos citados seria simplesmente desaparecer, e não mandar mais nenhuma mensagem no grupo por pelo menos uma semana. Harry, em meio a uma enxurrada de críticas e ódio, seguiu essa lógica extremamente humana, simplesmente desaparecendo dos holofotes — mas por três anos.

E como alguém que volta a escrever e-mails como se aquele erro de escrita fosse apenas uma memória distante, Harry Styles retorna à vida pública com “Kiss All the Time. Disco, Occasionally”.

O álbum é um passo para dentro do nicho. Harry — agora um homem de barba rala — nos apresenta um lado inédito de sua criação musical: sintetizadores de timbre mais honesto e bruto, poucas guitarras e percussões um tanto groovadas aparecem no álbum do ex-One Direction. Harry Styles foge do óbvio em faixas como “Aperture”, “Ready, Steady, Go!”, demonstrando o quão imaginativa uma canção pode ser. “Dance no more” surge como outro momento impactante do disco, com um dos melhores baixos de sua discografia.

A pegada eletrônica de “Kissco”, como foi apelidado, foge discretamente da engenharia do pop, acrescentando experimentalismo, groove e textura para a música de Harry Styles — O que soa quase como uma ode ao LCD Soundystem. O disco dialoga com a necessidade de exploração, pesquisa e novidade no mainstream e mostra que, superando as situações enfadonhas do passado, Harry consegue fazer uma leitura sóbria do cenário, e vê a oportunidade de dar um passo a mais no amadurecimento da sua linguagem musical.

Autor

Escrito por

Hildegardis Lima

Estudante de música, pesquiso música folclórica, adoro escrever e ganhei um campeonato de skate de dedo. Uma dessas coisas é mentira.