Crédito: Tim Tronckoe / Divulgação Refused

Conversamos com Dennis Lyxzén sobre a turnê de despedida e o recomeço com a nova banda pós-Refused

É estranho testemunhar o fim de uma banda como o Refused, que soa mais urgente que nunca em tempos como estes. 

A boa notícia é que antes dele chegar, fãs brasileiros terão a chance de ver a banda sueca de hardcore pela primeira e última vez em território nacional neste 31 de outubro de 2025, em um show apresentado pela Balaclava Records e Powerline, no Terra SP. 

E esse fim não é daqueles Los Hermanos, é definitivo. 

Encerramento com direito à turnê de despedida e carta de justificativa assinada pelo baterista David Sandström, mas sem um sentimento amargo como foi da primeira vez. Pelo contrário, nos conta o vocalista Dennis Lyxzén em entrevista por Zoom, esta é uma turnê de celebração. 

É neste limbo entre o fim do Refused e o começo da nova banda com todos os integrantes da atual banda (já anunciada, ainda não planejada) que encontramos o vocalista.

Dennis entrou na nossa ligação conectado pela conta de sua esposa, estampando o nome Hilda durante toda a conversa. Apenas nós dois, sem a intermediação de assessores, uma situação incomum para uma banda da proporção do Refused. 

Curiosamente, nos falamos uma semana antes de seu clássico “The Shape Of Punk To Come” celebrar 27 anos. Um disco tão profético quanto transformador. Intencionalmente político e despretensiosamente pop(ular). E que ditará boa parte do repertório apresentado no show da banda por aqui.

Abaixo, confira a conversa sobre a turnê, o processo de fim da banda, o renascimento com o novo projeto, o potencial criativo da cidade de Umeå e suas bandas favoritas do momento.

Minuto Indie: Como é se despedir de uma banda que não só moldou a cultura, mas também foi uma parte importante da sua vida?

Dennis: As turnês até agora têm sido incríveis e muito divertidas. Muito, muito prazerosas. É estranho. É estranho tocar uma música pesada, agressiva, e pensar “estou me divertindo tanto”. É ótimo.

Minuto Indie: Que bom. Imagino que seja bem diferente da primeira vez em que a banda se separou.

Dennis: Sim. Não dá para comparar. Quando terminamos pela primeira vez, a gente se odiava. Não queríamos mais tocar juntos. Foi horrível. Agora estamos muito próximos, nos divertindo e curtindo muito. E o público também está gostando. Quando acabamos em 98, as pessoas nos shows também não pareciam se divertir.

Minuto Indie: Falando sobre o público, é interessante perceber que dos anos 1990 até agora o Refused foi uma banda formativa para muitas pessoas diferentes. Eu nasci em 1998, quando The Shape of Punk to Come saiu, mas lembro de ouvir “Françafrique” a caminho da escola, em 2015. Então, quem vocês têm visto nesses shows? Quem vocês esperam ver e quem realmente aparece?

Dennis: O mais legal é que, se você tem sorte como artista, acaba tendo gerações diferentes no mesmo show. Tem gente que ouve Refused desde a metade dos anos 1990 e gente que descobriu há pouco tempo, com o projeto Samurai, e tudo no meio disso. Acho isso bonito, porque a música não tem idade. É só música. Tem muitos tipos de pessoas nesses shows. Sempre há pessoas mais velhas lá atrás. Acho ótimo.

Minuto Indie: Olhando para o momento atual, você acha que uma banda como o Refused chegaria onde está se começasse hoje? Qual é o espaço para uma banda como a de vocês hoje?

Dennis: Sendo honesto, a cena punk e hardcore de hoje é muito interessante, criativa e divertida. O hardcore nunca foi tão popular quanto é agora, com bandas como Turnstile, Scowl e Hide. Então, se o Refused tivesse surgido hoje com ideias e músicas parecidas, é bem possível que fôssemos bem mais populares do que fomos nos anos 1990.

Minuto Indie: Talvez uma pergunta um pouco pessoal. Percebi que alguns dos meus artistas suecos favoritos são de Umeå, como o pessoal do Random Bastards e do Hoopdiggas. Você acha que há algo no ar que cria esses artistas? A cidade te influencia de alguma forma?

Dennis: Sim. É interessante porque Umeå é uma cidade pequena, com cerca de 120 mil pessoas. E fica bem isolada, no norte.  De carro, são quase oito horas até Estocolmo, o que já explica muita coisa. No isolamento, as pessoas criam.

Sempre foi uma cidade muito musical. Sempre houve cena punk, hardcore, metal e hip-hop. Sempre foi muito criativa e também muito colaborativa, porque é uma cidade pequena. Eu conheço o pessoal do Random Bastards e do Hoopdiggas porque moramos na mesma cidade. 

E quando você vê outras bandas da sua cidade tendo sucesso, você pensa “a gente também pode conseguir”. É algo cultural. Umeå é uma cidade musical incrível e tem muitas bandas boas. É um privilégio fazer parte de um lugar tão criativo.

Minuto Indie: A história do Refused é interessante. É uma banda que acabou, voltou e agora está terminando de vez, nas suas palavras. Mas não parece uma decisão por motivos de marketing ou dinheiro, como acontece com outras bandas. Essas decisões não são simples. Como vocês chegaram a ela desta vez? Como saber a hora de parar e recomeçar?

Dennis: É uma ótima pergunta. Quando se sabe que é o momento certo? Acho que nunca se sabe. Essa é a beleza de ser humano. Você nunca tem certeza se as suas decisões são as certas, mas toma mesmo assim, porque quer seguir em frente e viver.

Não foi uma decisão fácil. Para mim, foi difícil. Acho que para o David foi mais fácil, porque ele sentia que já tinha encerrado o que queria fazer com o Refused. Ele dizia que queria fazer algo completamente diferente, que não queria mais tocar as músicas antigas.

E sobre a questão financeira, ele disse “não quero que a economia dite a música que toco e a banda em que estou”. Eu e o David sempre dissemos que, se um de nós não quisesse mais, a banda acabaria. Então ele disse que não queria mais fazer, e nós conversamos e decidimos que, se fosse para terminar, faríamos isso direito. Fazer uma turnê de despedida, transformar o fim em uma celebração, tocar para as pessoas, dar a elas as músicas que querem ouvir e aproveitar esse momento juntos mais uma vez.

Claro, quando você faz uma turnê de despedida acaba ganhando um pouco mais de dinheiro, mas isso não fez parte da decisão. Era hora de seguir em frente e fazer algo diferente.

Minuto Indie: Vi o post do David no Instagram, em que ele disse que o Refused nunca foi bom para a relação de vocês. Mas vocês planejam formar uma nova banda. Como acha que essa relação vai funcionar agora?

Dennis: Algumas pessoas comentaram sobre isso, mas o problema na nossa relação nunca foi a música. Foi o lado dos negócios.

Eu sempre quero fazer turnê, assinar com gravadora. Sou pragmático e vivo de música. Quero viajar e tocar. O David é o tipo de pessoa que só quer criar. Ele quer fazer música, mas não quer fazer tantas turnês ou lidar com gravadoras, empresários, essas coisas. Isso sempre foi difícil, porque nos anos 1990 a gente estava sempre em turnê. E quando voltamos em 2012, não sabíamos muito bem para onde o Refused iria.

Brigamos mais sobre o lado de negócios da banda do que sobre música.Acho que, se tirarmos esse lado empresarial e tocarmos apenas por diversão, sem expectativas, vai dar certo.

Quando se começa do zero, é possível definir desde o primeiro dia o que se quer fazer, quantos shows tocar, qual o nível desejado. Com o Refused é diferente, porque é uma banda já bastante popular.

Minuto Indie: Imagino que muitos fãs vão acompanhar vocês nesse novo projeto. Mas a ideia é não tratá-lo como um trabalho, nesse sentido das obrigações, e sim de forma mais livre e criativa?

Dennis: Sim. A ideia é ser mais livre, mais criativo, mais experimental e se divertir. No Refused, levamos quatro anos para lançar um disco. Neste novo projeto, queremos algo mais relaxado, mais livre, talvez sem gravadora, sem empresário, sem agente de shows. Fazer tudo no nosso ritmo. Talvez lancemos cinco discos em dois anos, talvez um em cinco. Ainda é cedo, mas a abordagem vai ser bem diferente.

Minuto Indie: Vocês vão resolver esses detalhes depois da turnê?

Dennis: Sim. Já recebi e-mail com gente perguntando se pode contratar a nova banda, respondi “não, não temos nem uma música”.

A ideia é terminar o ano, tirar alguns meses de descanso e depois se reunir no estúdio para ver para onde a música nos leva. É isso o que me interessa. Quero ver o que vai acontecer.

Minuto Indie: Também estou animada, mas sem pressão. É a primeira vez de vocês no Brasil, daqui a algumas semanas. Quais são as expectativas?

Dennis: Não sei o que esperar. Os brasileiros são muito entusiasmados com a nossa vinda, e finalmente dissemos “ok, vamos ao Brasil”. Pelo que percebo, os brasileiros são muito apaixonados, e estou empolgado com isso. Nunca estive na América do Sul. É uma viagem longa, e São Paulo é muito diferente da Suécia. Com certeza vamos saber que estamos em um lugar novo. Aliás, fui eu quem insistiu muito para irmos à América do Sul antes do fim, e agora está acontecendo.

Minuto Indie: Obrigada por isso, porque eu estava triste achando que ia perder essa turnê. Há várias bandas abrindo os shows, e a brasileira será Eu Serei a Hiena. Você já ouviu?

Dennis: Sim, ouvimos todas as bandas. Normalmente sou eu quem escolhe as bandas de abertura. Às vezes o promotor manda sugestões e eu ouço todas. É muito legal.

Minuto Indie: Você mencionou algumas bandas hardcore que estão em alta, mas o que tem ouvido ultimamente? Temos um festival chamado 5 Bandas, pra apresentar novos artistas. Se tivesse que escolher cinco bandas para o seu próprio festival, quais seriam?

Dennis: Vou tentar. Hide é minha banda hardcore favorita no momento. Acho incrível. Tem uma artista psicodélica turca chamada Gaye Su Akyol. Eu a colocaria no festival. Ela é maravilhosa. Tem uma banda sueca estranha e muito boa chamada Isotope Soap, que toca hardcore com sintetizadores em vez de guitarras. Gosto da banda End It, de Baltimore, que também colocaria. E talvez Mdou Moctar, do Níger, que é tipo o Jimi Hendrix do Saara. Ele também tocaria.

Minuto Indie: Muito obrigada pelo seu tempo. Foi ótimo conversar com você. Estou muito animada para ver o Refused ao vivo pela primeira vez, e desejo o melhor para os próximos projetos. Nos vemos em algumas semanas. Quer dizer, eu te vejo, vou estar no meio da plateia.

Dennis: Vou procurar por você. Até mais.

Refused em São Paulo

Data: 31 de outubro de 2025 (sexta-feira)
Horário: 19h (abertura da casa)
Local: Terra SP | Av. Salim Antonio Curiati 160, São Paulo, SP
Ingressos

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Autor

Escrito por

Maria Luísa Rodrigues

mestranda em comunicação, midióloga de formação e jornalista de profissão. no Minuto Indie desde 2015 e em outros lugares nesse meio tempo.