Banda Paira, dupla mineira, lança novo EP02

Conversamos com Clara Borges e André Pádua sobre o novo EP02 e os próximos passos da sua banda mineira favorita

Ver e ouvir o duo mineiro Paira pela primeira vez é daquelas experiências que não se esquece. A minha foi em 2024, justamente no lançamento da música de estreia Como Um Rio – um clipe gravado em um parque aquático em reforma, que mutado era digno de espaços liminares de TikTok, mas que com som era uma barulheira tão suave que parecia irreal. 

Logo de cara, a Paira soa como o equilíbrio perfeito entre olhar para trás para beber do que veio e caminhar pra frente moldando o que está por vir. Ampla o suficiente para ressoar com os emos e/ou fritos, mas tão autoral que destoa de qualquer outra banda nacional hoje. É evidentemente a promessa de uma banda que não vai demorar muito pra ser citada como referência por outras.

Seu novo lançamento, EP02, é um bom passo rumo a esse destino. O segundo EP da dupla chega pouco mais de um ano depois da sua estreia, também pela gravadora paulista casa-oficial-dos-indies-tristes Balaclava Records.

O novo trabalho é, mais uma vez, tão denso quanto leve. São composições ainda mais turbulentas, mas que se dão o devido tempo para sentir. Todas assinadas em parceria com Vinicius Cabral da Godofredo e produzidas junto a Roberto Kramer.

É um caldeirão de referências que se transforma em algo muito distante delas. Traçando uma árvore genealógica, a banda cita influências como Beatles, Charlie Brown Jr., Peter Gabriel, Daniel Avery e Alex G.

E assim a Paira volta com o que a fez, mas pisando em novos territórios e refletindo uma banda que não existe mais confinada à privacidade dos seus integrantes. 

Está mais indie do que nunca em Como Ficar, mais groovada em Pra Sonhar e ainda mais barulhenta em Ao Mar

Sua versão de 2025 mostra uma banda que rodou por aí enquanto mantém sua casa em Belo Horizonte (inclusive tocou um dos seus primeiros shows no nosso Festival 5 Bandas), trocou com mais pessoas (com direito a dois ótimos feats com Terno Rei e Fernando Motta) e teve mais tempo pra pensar sobre quem são e querem ser diante dos olhos de uma audiência com expectativas. 

“Acho que foi um alívio”, nos confessa Clara Borges em entrevista três dias depois do lançamento do EP02. “Essa semana eu acordei muito leve, tipo, nossa, lançamos, eu tô muito feliz”. 

Alívio por um lado, ansiedade por outro. “Eu tô pensando muito em como promover ele agora, depois do lançamento. Eu tô bem com essa pulga atrás da orelha. Ver como é que a gente leva isso pra frente”, conta André Pádua – ou Dedeco – a outra metade da dupla.

Ao conversar com os dois por quarenta minutos, torna-se fácil ver de onde vem este universo da Paira.

Minutos antes de começarmos oficialmente, Dedeco nos apresenta um gatinho chamado Elliott Smith em câmera. Pouco depois, Clara entra com o nome “Bruno”, um erro pelo Zoom estar logado na conta do seu namorado. É casual o suficiente que quase me faz esquecer que era uma entrevista.

Ambos muitos cordiais com saídas do script. Cheguei ao ponto de oferecer uma residência no Festival 5 Bandas pra banda, que riu mas não aceitou meu convite. 

Não sei até onde eu estava brincando, mas ainda conto com a impulsividade da banda pra chegar ao sim, afinal, “a Paira é muito uma banda de adrenalina”, segundo Clara. 

Apesar de estar um ano em produção, o EP02 é um disco que nasceu na correria da nova realidade da banda, com os dois integrantes morando juntos e fazendo tudo acontecer em paralelo aos trabalhos e compromissos que têm para além dela.

“Às vezes [a gente tem] uma super ideia faltando duas semanas pro lançamento. E a gente tenta fazer tudo meio rapidão. Mas também ao mesmo tempo é bem desgastante. Eu tenho saudade de fazer as coisas bem com calma, sabe?”, continua Clara.

Também foi um momento de se acostumar com o lado menos glamouroso da música independente: a burocracia. “A gente começou a morar junto, mas pensando em fazer música, né? Mas acabou que a gente quase não fez música, só ficou resolvendo pepino”, conta André.

Eles relembram estar corrigindo cor do videoclipe de “Pra Sonhar” com menos de duas horas pro lançamento no YouTube, tudo feito com um nível de urgência e cuidado que parece transbordar pro som.

“Já foi um pouco melhor que o primeiro EP porque nesse nós dois acabamos internados no hospital”, Dedeco comenta como se fosse nada. Era um “problema de garganta bizarro”, mas ambos passam bem. 

O crescimento da Paira foi exponencial. Chegando mais rápido e mais longe do que eles poderiam imaginar, em portais, rádios e mais do outro lado do mundo – em parte com um empurrãozinho dos já fãs gringos da persona de Dedeco enquanto DJ de VGM, com um ótimo canal no YouTube.

Curioso é como ambos ainda falam sobre a recepção do trabalho com a mesma surpresa e felicidade na voz que tinham na entrevista que nos concederam há mais de um ano

Entre esse mar de amor, pouco hate parece chegar na banda. Exceto um caso, logo no lançamento de Como um Rio, relembra Clara. “Um cara ficou muito puto com a gente. Falou que a gente era, tipo, playboy, que devia arrastar a gente na rua, sabe?”. “A cara no asfalto. Foi bem violento”, completou Dedeco. E como a amiga que não quer pesar o clima, deixei pra lá essa história. 

A primeira turnê da Paira pelo Brasil 

E o esforço de não dizer que Paira estará pairando por aí.

A banda cresceu ao vivo mais do que em qualquer outro aspecto e agora sairá em sua primeira turnê nacional, atravessando as 10 cidades abaixo. 

Pôster da turnê de estreia do EP02 da Paira Crédito: Divulgação / Reprodução Instagram

Pôster da turnê de estreia do EP02 da Paira
Crédito: Divulgação / Reprodução Instagram

Os shows estão mais robustos, agora com baterista e, às vezes, guitarrista somando à dupla. Em shows recente pelo Sul, tiveram um crossover com o Eric Santana, baterista da Hoovaranas – que conheceram no 5 Bandas, pro nosso orgulho. 

Mas a banda sonha com palcos maiores, como conta a Clara: “[Ver] a Paira tocar em qualquer festival, pra mim, zerei, já tô de boa. Meu sonho é tocar num festival grande, num Primavera Sound, num Lollapalooza, ou viajar pra fora pra tocar”. É uma questão de tempo.

Cada vez mais, ver a Paira ao vivo tem sido uma daquelas experiências transformadoras. Todo mundo sai fã, afirmo com os olhos de quem já testemunhou a conversão ao vivo. 

Falando em conversão, perguntei o que me corroía: por que a Paira segue a Escola Iniciática Aurora no Instagram? “É uma casa de atendimento energético, eu trabalhei um tempo nela. A gente foi lá uma vez fazer uma limpeza e tal.”, explicou Dedeco. “A gente respeita muito e tem carinho. Aí a gente seguiu sem querer e eu falei, tipo, ‘ah, bora deixar’”, Clara complementou. Respondido, a vida pode seguir. 

Minha reação honesta na hora foi pensar, mas não dizer, que talvez ouvir a Paira seja o equivalente de uma limpeza espiritual. Ouvindo o EP02 de novo, só digo que a escola em questão que se cuide, concorrentes fortíssimos. 

Autor

Escrito por

Maria Luísa Rodrigues

mestranda em comunicação, midióloga de formação e jornalista de profissão. no Minuto Indie desde 2015 e em outros lugares nesse meio tempo.