
Nossa lista de melhores álbuns da primeira metade de 2025 não teve primeiro lugar eleito, mas se tivesse… Esse ano, Jadsa chegou com o pé na porta com o disco big buraco. Seus projetos anteriores tanto solo quanto em duo são excelentes, mas esse último conquistou todos os corações da cena e da crítica como nunca, rendendo até nomeação para o Grammy Latino. Apostando com firmeza nessa fase, convidamos essa artista magnífica para compor o lineup do 5 bandas, e agora teremos a honra de recebê-la no palco da Casa Rockambole no dia 25 de outubro.
Para aquecer antes do festival, batemos um papo com Jadsa sobre o atual momento da carreira e os processos por trás desse álbum que não sai de nossos fones. Não é por nada não, mas eu não recomendaria perder esse showzão… Se não quiser dar mole, os ingressos para o 5 bandas estão disponíveis aqui.
Minuto Indie: Pra começar, você tá nesse momento maravilhoso com o Big Buraco, uma recepção incrível, e eu, particularmente, sou muito fã do álbum também. Eu queria saber quais eram as suas expectativas antes desse álbum, se tinha alguma coisa que nunca aconteceu, que você nunca imaginava que fosse acontecer, acontecendo, assim, o Grammy Latino, o Lollapalooza… Queria saber um pouco disso.
Jadsa: Ó, poxa, eu tinha altas expectativas pra esse disco, assim, falando dele desde o desejo até a pós-gravação, né? Mas eu já tava vidrada nesse disco pensando em como ele seria repercutido, como é que ele chegaria pras pessoas, né? E como essas pessoas passariam pra outras pessoas. E eu fiquei pensando, poxa, o que é que nesse momento eu quero ouvir? O que é que a galera quer ouvir? O que é que meus amigos querem ouvir, sabe?
E eu fui escutando um pouco isso e fui tentando aplicar da melhor maneira dentro do Big Buraco. É, eu acho que pra mim a maior surpresa desse disco foi quando a gente terminou de gravar, eu e o Antônio, assim, a gente olhou para o disco e falou, nossa, mas ele tá bem pop, né? Ele tá com essa coisa leve e pop e… não sei, parece um sopro. Então acho que essa foi a surpresa, assim, pra gente, porque acho que a gente não tava vislumbrando tanto o disco que está dentro dessa popcidade, né? A gente tava pensando em, pô, vamos se juntar, vamos fazer e tal. Vai sair alguma coisa bem bonita, mas a gente não sabia disso. Então acho que essa foi a maior surpresa, assim. E eu acho que essa surpresa que tá me levando e levando o disco, enfim, todos os meus, assim, pra esses lugares, né? Que é o Lolla, que é a indicação do Grammy, outros shows, né? Nunca soube como era lançar um disco e fazer shows, né? Então acho que pra mim essa coisa toda tá acontecendo porque de fato o disco criou vida sozinho.
Minuto Indie: E é interessante observar essa diferença do Big Buraco pro Olho de Vidro, né? Uma coisa completamente diferente, até na sua identidade como artista, né? Como é que foi essa construção pra chegar nessa mudança? E você faria algo diferente no Olho de Vidro, no começo da carreira?
Jadsa: É… acho que talvez no começão da carreira ali, que foi com o EP Godê, que foi antes do Olho de Vidro, eu faria algumas coisas diferentes, assim, né? De intenções e talvez uma ou outra música diferente. Mas no Olho de Vidro eu não tenho, eu não faria nada diferente, com certeza. Tipo, ele tá do jeitinho que eu queria, mais ainda. E a mesma onda, assim, do Big Buraco. Eu, pra mim, não tenho muito o que mudar, sabe? Mas você falou de… a segunda pergunta foi que teria alguma coisa pra mudar, e a primeira pergunta foi?
Minuto Indie: Como é que foi pra chegar até aí, onde você chegou, né? Você falou que foi um pouco do estúdio, de virar pop sem querer, mas… Por trás disso, assim, como é que foi?
Jadsa: Não, de virar pop até querendo, tá? Mas é porque eu não sabia que eu ia chegar nesse ponto. Tipo, a gente escutar e falar, nossa, que loucura. É… pô, até chegar aqui agora, é isso, eu não mudaria nada. E a minha vontade que deu e que dá é de não ter parado de gravar músicas, né? Eu tive que selecionar muitas músicas pra entrar no Big.Foi uma trajetória muito feita de escolhas e desejos até chegar nesse Big Buraco, e foi bem tranquilo. Foi um momento muito feliz de gravação, e agora tá sendo muito feliz, leve, gostoso, assim.

Minuto Indie: Ai, que delícia. E você falando de escolher as faixas, tem… acho que três faixas são regravadas de TAXIDERMIA, né? Que loucura, virou outra coisa, né? De onde veio essa ideia de quase recriar a faixa?
Jadsa: Ó, eu comecei a pensar no Big Buraco analisando um pouco ali os anos 70, né? Fim dos anos 60 pra 70. E como que os artistas se apoiavam pra caramba, assim, né? Tipo, intérpretes e compositores se apoiando. Um gravava agora e o próprio compositor gravava no ano seguinte, né?
Minuto Indie: A gente nem sabe qual música é de quem, né?
Jadsa: É isso! É, tipo, assim, pra mim, as músicas de Gal eram todas escritas por Gal, entendeu? Até uma certa idade, né? Até eu entender que ela era intérprete. Mas eu acho que tem esse encanto, assim, do fim dos anos 60, 70, 80, e eu foquei muito nos anos 70 e muito em Elis Regina. Teve uma história que me marcou muito que foi ela ter ligado pra Gilberto Gil. Gilberto Gil trabalhava numa empresa. Ligou pra Gilberto Gil, que ela escutou, ouviu o nome dele. Alguém falou que ele era um grande compositor. E ele ligou pra ela e falou assim, pô, eu quero gravar uma música sua. Você liberaria? E ele falou, óbvio, lógico. Tipo assim, meu Deus, a primeira regravação, né? De uma faixa. Aí eu mergulhei um pouco nisso.
O que é que eu teria de ideia pra regravar, né? Em músicas que eu já lancei. Principalmente com TAXIDERMIA ali, que a gente experimenta muito. Mas o que é que eu tenho de informação pra essa canção, pra essa composição? E aí eu fiquei pensando, poxa, por que não ser uma intérprete das minhas próprias composições? Já que eu acho que os… Acho não, né? Mas tenho certeza que os tempos mudaram. Agora tem muito mais compositores e muito mais pessoas querendo se interpretar. E aí eu fiquei pensando um pouco nisso. Poxa, eu vou me reinterpretar e ir numa nova roupagem, uma outra roupagem. E mostrar pra mim e pras pessoas que uma música, ela não é uma coisa só, né? Uma composição, uma letra, ela não é só aquilo. Ela pode ser o que a gente quisesse. Então veio um pouco daí a inspiração, observando a Elis Regina e outros intérpretes.
Minuto Indie: Nossa, e é muito louco, né? Porque parece que as músicas encaixam tão bem no Big Buraco que você nunca imaginaria, né? Que loucura.
Jadsa: Vixe, nunca.
Minuto Indie: E assim, sobre o TAXIDERMIA, o João Meirelles também tava no Big Buraco, né? Como que foi vocês fazerem um projeto em conjunto e partir pro seu processo solo? Como é que foi essa divisão, essa participação?
Jadsa: Massa. João sempre trabalhou comigo, assim, desde o Godê, em que ele produziu. A gente se conheceu no teatro, em 2014, e eu não quis mais largar. Eu não via mais um projeto sem esse parceiro, sem essa parceria que é tão proveitosa, tão massa de acontecer. E do Big Buraco, eu queria muito que ele participasse, mas ele tava cheio de outros projetos. Eu falei, tá bom, vou aguardar um pouquinho pra frente, mas você vai estar junto. Aí, quando a gente terminou de gravar o disco, chegou a fase que eu piro muito, que é a pós-produção, o momento que você realmente bota os detalhes importantes, né? O formato do olho, a cor da pele, o formato do corpo, o cabelo, aquele momento que você consegue criar um bicho, um monstro, criar uma coisa ali visível. E aí eu falei, pô, João, eu acho que esse é o momento de você entrar, hein? Ele falou, então bora. E assim foi. É muito tranquilo trabalhar com o João: ele já sabe muito como a minha voz se comporta, como o meu pensamento acontece, então ele prevê algumas situações, sabe? Já mexe na música sabendo o que eu vou gostar e o que eu não vou gostar ele propõe, e isso pra mim é incrível, incrível. É muito tranquilo trabalhar com o João. Muito tranquilo.
Minuto Indie: E funcionou tanto na pegada mais experimental quanto no pop, né?
Jadsa: Ah, com certeza. A gente criou o TAXIDERMIA justamente pra não ficar habituado a uma coisa mais reta, tipo, a gente tem que fazer isso, tem que falar sobre amor, tem que falar sobre, sabe? Então o TAXIDERMIA veio pra ser disruptivo com a gente mesmo, né? A gente ter onde liberar essa ansiedade, essa felicidade. E o João é um cara muito atualizado, uma pessoa que sempre me traz novidade, e no Big Buraco, ele trouxe essa coisa um pouco mais eletrônica que eu queria. Eu queria muito que fosse orgânico, um sentimento assim, mas eu já tenho uma identificação com o psicodélico, né? Subs e tal. Então o João trouxe essa taxidermia só num retoquezinho. Os detalhes, né? Até porque é o João que produziu o Olho de Vidro, e agora fez pós-produção no Big Buraco.
Minuto Indie: Tá sempre ali, né? De alguma forma.
Jadsa: Sempre, sempre.

Minuto Indie: Ai, que bom. Assim, agora pensando que você falou que teve essa intenção do pop, na gravação, isso também teve a ver com as letras e os títulos das faixas em inglês? Foi intencional ou foi mais natural mesmo?
Jadsa: Eu não sou fluente em inglês, mas tem coisas que chegam pra mim em um formato parecido com o inglês. E aí eu vou estudando aquilo e vou dando sentido pra aquelas palavras, né? O que é que encaixa. Não foi pensando no pop que eu acrescentei o inglês. Eu acho que foi uma coisa já natural, assim. Não teve uma forçação com relação a isso. Mas essas canções do Big Buraco foram surgindo e pra mim foi muito massa criar esse pacote Big Buraco porque são músicas que, de certa maneira, me representam demais. Meio que eu aponto pra mim mesma na frente do espelho. Então, eu acho que foi muito tranquilo pensar nessas músicas. Ah, beleza, quero um disco pop, mas também não vou ficar batendo nessa tecla, né? Não quero que seja um apelo, né? Quero que aconteça. Então por isso a surpresa na primeira pergunta que você fez do, poxa, então ficou bem pop, né? Porra, dois doidos fazendo produção, que loucura. Deu nisso aqui, que massa.
Minuto Indie: E, assim, sobre essa recepção crítica boa e tal, como é que isso está impactando no seu cotidiano artístico? Na criação, na agenda no geral, o que você tá achando disso tudo?
Jadsa: Tô achando massa, que venha mais shows, inclusive. Mas pra mim é diferente, porque quando eu lancei o Olho de Vidro, em 2021, tava na pandemia, então eu não sabia o que era lançar um disco e fazer shows. Pra mim, foi aquilo, né? Eu lancei, trabalhei também com Francine na época. Então eu fiz muito faixa a faixa, muita entrevista que nem eu tô fazendo com você, e fiquei acostumada com esse modo de fazer. Então pra mim, lançar um disco fora desse período pandêmico e desse caos mundial, é bem diferente. É novo pra mim, então eu tô tentando entender ainda e me adaptar também. Porque pra uma pessoa que fazia um show a cada, sei lá, quatro, cinco meses, fazer quatro, cinco shows num mês é bem diferente. Tô tentando botar isso na minha cabeça e tentar acreditar que esse é o normal. Esse tem que ser o normal, né? De trabalho, de fluxo mesmo. E tá sendo muito massa. Tá sendo muito proveitoso, assim, pra mim. Muita novidade. Tô amando.

Minuto Indie: Ai, que lindo. E nossa, uma coisa que eu esqueci de perguntar quando a gente tava falando mais do processo da produção do álbum. Como é que foi pra escolher a ordem das faixas? Como é a relação entre os bigs e big buraco estar no final? Como foi isso?
Jadsa: Eu já tinha uma pré-seleção da ordem e, normalmente, eu gravo assim. Isso pra tudo, né? Eu faço uma pré-ordem e a gente vai gravando dessa maneira. Porque eu sinto que o disco, pra mim, é uma obra, que tem início, meio e fim. Eu sempre tento fechar essa obra, não deixar em aberto pra que, ah, depois eu termino. Ou você vai saber o que é que significa essa música no outro disco. Eu não tenho muita onda dessa, assim. Pra mim, é uma obra fechada ali. E aí, eu já cheguei com essa ordem: a primeira música é Big Bang e a última é Big Buraco. A gente já sabia disso, né? Era muito óbvio pra mim, pra Mayra, que é minha empresária e produtora, pra Antônio Neves. A gente já tinha essa ideia de que começava na explosão e terminava no buraco. E aí tinha mais dois Bigs, Big Love e Big Mama. Então, eu comecei a pensar em atos, pra que não fique muitos assuntos embolados dentro do disco.
Então, a primeira é como se fosse o início de um mundo. Beleza, surgiu o mundo, aí, o primeiro ser vivo aparece, em Tremedeira, que tem um formato tal, cheiro tal, não sei o quê. Aí, depois de Tremedeira, vem sol na pele, fundamental pra que as coisas realmente floresçam e cresçam, e a vida aconteça. Depois do sol na pele, desse sol, depois da vida acontecendo, vem o amor. Então, cada música faz parte dessa caminhada, dessa trajetória, e aí, eu quis fazer um momento mais científico, romântico, né? Num primeiro ato, em Big Bang. Aí, no segundo ato, Big Love é a paixão total, é a perdição dentro daquilo. Aí, vem Big Mama, que é aquela voz na consciência, tipo, uma voz que tá ali te falando, ó, beleza, você tá conhecendo a vida agora, o mundo agora, mas vá com calma, entenda, sua referência. E a última parte, que é o Big Buraco, é meio isso tudo tá acontecendo dentro de um lugar, e esse lugar é o meu corpo, esse lugar sou eu. Tanto que, no início do show agora, eu tô falando que o Big Buraco sou eu, pra galera poder entender que cada um tem o seu Big Buraco também.
Mas a ordem das músicas foram acontecendo meio dessa maneira, assim. Meio lúdica, mas real, sem ser um aperto de mente, né? Não queria que o Big Buraco fosse opressor. O nome já é muito forte, né? Concretão, assim. Eu queria que a galera quisesse estar nesse buraco, quisesse se jogar nele
Minuto Indie: Amei. Sorte de quem vai ter ouvir essa história contada nos palcos, né? Então pra gente fechar, quais são as suas expectativas por 5 bandas?
Jadsa: A melhor possível, a melhor possível mesmo, assim. Quero conhecer todo mundo também que tá fazendo, as outras bandas, né? Quero ter mais esse envolvimento e tentar entender onde é que cada um tá se sentindo nessa vida, nesse universo musical. Acho que eu quero mais trocar nos 5 bandas, estar mais próxima de outras bandas e outras pessoas. E aproveitar o festival. Eu sei que todo mundo tá com uma grande expectativa pro 5 bandas também, né? O line-up tá foda. Só quero estar lá. Quero curtir, quero tocar. Quero que seja inesquecível.
