Entre o sertão imaginado e o peso experimental, a Papangu revela as forças que moldam um dos sons mais singulares do Brasil hoje e as expectativas de tocar no Novas Frequências

A Papangu é aquela banda que você ouve uma vez e já percebe que tem algo diferente acontecendo ali. Vinda de João Pessoa, na Paraíba, eles chegaram chamando atenção com um som que ecoa muito além: uma mistura torta e poderosa de sludge, progessivo, do tal do “rock troncho” e referências nordestinas que escorrem pelas músicas sem nunca virar caricatura. É pesado, é experimental, é cheio de personalidade e, ao mesmo tempo, totalmente conectado a um imaginário brasileiro que pouca gente neste gênero busca explorar.

Desde Holoceno, dá pra sentir que a banda estava construindo algo diferente, mas foi com Lampião Rei que eles realmente cravaram seu lugar na cena como um dos projetos mais inventivos do metal progressivo brasileiro atual. O disco reinventa a figura do cangaceiro num clima meio mítico, sem perder a pegada crua que já marcava o disco anterior. Aqui, tudo cresce: os arranjos ficam mais grandiosos, as composições mais ousadas e a atmosfera ainda mais cinematográfica. A Papangu tem esse jeito de transformar cada música num pequeno rito, às vezes tenso, às vezes catártico, mas sempre muito envolvente.

A banda se apresenta neste domingo no Circo Voador como parte da programação do Festival Novas Frequências, que já virou referência quando o assunto é música experimental no país, e chega pela primeira vez ao Circo Voador para celebrar a sua 15ª edição com uma programação imperdível: junto à Papangu, a excelente Metá Metá, de Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci, e os experimentos sintetizados das bandas TEST & Deafkids dão o brilho numa noite de rock em frequências especiais. É a chance perfeita de ver a Papangu trazendo ao vivo a potência de Lampião Rei num palco histórico, dentro de um festival que combina totalmente com a atmosfera densa, inventiva e cheia de risco que o grupo vem construindo. Para quem acompanha a cena ou simplesmente quer ver algo fora do comum, esse show promete ser um dos pontos altos do evento e também um sonho realizado pela banda.

Tivemos a chance de conversar com a Papangu antes do show no Circo Voador, e foi daquelas conversas que fazem você entender ainda mais porque a banda soa do jeito que soa. Falamos sobre o Lampião Rei, sobre o cenário da cena nordestina dentro de uma estética tão própria, e também sobre as loucuras, desafios e descobertas envolvidas em criar um som que não se encaixa em rótulo nenhum. A entrevista acabou virando não só um mergulho no disco, mas também no espírito da banda. Você lê tudo a seguir:

Minuto Indie:  Como foi o processo de escolha de estética visual e sonora de Brasil que vocês quiseram representar no Lampião Rei? Vocês sempre souberam a história que queriam contar?

Hector: Eu vejo que existiu um Lampião Rei antes e um depois. O que quero dizer com isso? A ideia de lançar um disco sobre a história do cangaço está presente desde os primórdios da banda. A Papangu tem uma característica importante: às vezes temos uma ideia que sabemos que é muito boa, mas não a usamos imediatamente. Ela fica ali, maturando, até que faça sentido colocá-la em prática no futuro.

A ideia de contar a história de Lampião com elementos de realismo mágico existia desde o início da banda, mas só foi explorada depois do lançamento de Holoceno e da chegada de uma nova formação, Rodolfo, Pedro e Victor, que trouxe composições próprias e contribuiu para toda a identidade da Papangu. O disco reforça a origem da banda em João Pessoa e mistura liberdade artística com narrativa histórica. Um exemplo é “Maracutaia”, de Rodolfo, que funciona como uma história paralela dentro do disco, conectando diferentes perspectivas de forma criativa.

Papangu - Lampião Rei
Papangu – Lampião Rei

Rodolfo: Sim, o disco, além de contar a história de Lampião e do cangaço por uma ótica mágica e mística, também propõe uma forma quase cinematográfica de enxergar esse universo, porque buscamos trabalhar uma variedade de sentidos. A xilogravura da capa, por exemplo, é uma arte manual, muito humana, que transmite a sensação de algo palpável. Ela convida o fã, o ouvinte ou o espectador a interagir com a obra. Não é só a música: queremos que toda a experiência seja envolvente.

Também incorporamos muita literatura, especialmente as influências do Nordeste e do Brasil. O realismo mágico surge nesse contexto latino-americano, principalmente na literatura, e isso dialoga diretamente com o que estamos construindo. Tentamos trazer influências que não vêm apenas da música, mas das artes plásticas, do cinema e, claro, da própria xilogravura, que ao aparecer na capa já evoca imediatamente esse universo. É isso.

Minuto Indie: E sobre o processo de confecção do Lampião Rei, alguma música mudou completamente de rumo durante a produção no estúdio?

Rodolfo: Tem sim. Assim, pegando desde o início do disco, você tem faixas que já existiam para estar ali naquele disco desde o começo, mas que no processo de ensaio e arranjo, elas vão se alterando para adequar, às vezes, a necessidade de como tocar aquilo ao vivo, ou de como aquilo vai soar melhor no disco. Vou falar de duas que eu acho que são bons exemplos de como, às vezes, a produção não tem uma fórmula.

Algumas músicas, como Maracutaia, já surgiram praticamente com o arranjo completo e chegaram ao disco quase iguais à concepção inicial. Outras passaram por muitas mudanças durante o processo de composição e arranjo à distância: ritmos foram alterados, instrumentos substituídos ou acrescentados conforme as ideias surgiam. Um exemplo é Sol Raiá, que inicialmente seria instrumental com bateria, mas ganhou letra rapidamente e acabou ficando sem bateria. No lugar dela, entrou uma percussão vocal, que surgiu como guia, mas funcionou tão bem que foi mantida no disco. Tudo reflete um processo muito humano, próximo e experimental.

Hector: Um exemplo final é Rito de Coroação. Durante os ensaios no estúdio, Rodolfo sugeriu alterar a métrica do vocal, o que deixou a entrega mais interessante e coesa. A mudança aconteceu em cima da hora, no próprio dia da gravação, mostrando como o processo da banda é orgânico e natural.

Minuto Indie: O termo mais utilizado para definir a sonoridade de vocês é o rock troncho, né? como vocês explicariam o que é o rock troncho para alguém de fora?

Rodolfo: É engraçado. A gente tem orgulho de ter cunhado esse termo. Começou como uma brincadeira: alguém falou algo meio “troncho” no grupo de WhatsApp da banda, outro respondeu “é isso, é rock troncho”. E ficou. Troncho é uma palavra que usamos muito no Nordeste para algo torto, esquisito. Em outros estados também se fala, mas, para mim, ela tem uma identidade muito nordestina. “Esse negócio troncho da bexiga.” Vem naturalmente.

E é rock: pesado, alternativo, torto. Tem muito do rock progressivo, com compassos compostos, diferentes, ímpares. Existe essa verve progressiva muito forte, essa coisa alternativa, fora da caixinha. Queremos fazer justamente isso; não para marcar caixinhas ou parecer diferentão, mas porque é o que nos empolga: criar uma música pouco usual, que vai na contramão do que o mercado às vezes pede.

Resumindo: é um som pesado, com muita influência progressiva, alternativo, com um pezinho na vanguarda. Ao mesmo tempo em que exige seriedade para executar, ele também é extrovertido. Queremos transmitir essa leveza e diversão no palco. O compromisso é ambíguo: existe cuidado artístico, mas também existe o descompromisso da brincadeira. É um show que muitas vezes chega a ser engraçado. Acho que rock troncho evoca exatamente isso.

Hector: E uma coisa legal que aconteceu é que vimos outras bandas e artistas se identificando com isso e se apropriando do termo de forma muito natural. “Pô, é isso, eu estava procurando um nome: o que eu faço é rock troncho.” E assim começa a surgir uma cena ao redor dessa ideia. Hoje, aqui na Paraíba, vemos bandas que rapidamente se aproximaram desse magnetismo, dessa identificação. Passamos a enxergar uma ligação maior entre esses artistas justamente por conta desse “rótulo”, digamos assim.

Mas é um rótulo que não se fixa, porque a proposta dele é justamente fugir da regra. E isso é o mais divertido. A gente fica muito feliz não só de se identificar com essas bandas, mas de poder ajudá-las. Estamos há um pouco mais de tempo na estrada, conquistando aos poucos novos espaços, e queremos também abrir portas para que outras bandas próximas da gente possam ir junto.

Minuto indie: Não sei se vocês já tem planos para projetos futuros, mas… os próximos lançamentos também vão manter o aspecto conceitual de possuir uma história guiando o ouvinte? ou vai ser algo mais experimental e “aberto” para interpretação?

Rodolfo: A gente já gravou o terceiro disco. Ele está pronto e foi feito totalmente de forma analógica. AAA: analógico na gravação, analógico na mixagem e analógico na masterização. Normalmente, quando alguém quer um disco analógico, faz pelo menos as duas primeiras etapas assim, mas a conversão final costuma ser digital. Nós tentamos manter tudo analógico até o fim.

Esse disco já está gravado e eu ainda não posso revelar muito sobre ele. Mas posso dizer que ele é fiel àquilo em que a banda acredita, na proposta musical e na proposta conceitual. Como sempre, é um amálgama de várias influências multimidiáticas que vão muito além da música. E, por agora, é tudo o que posso comentar. Os spoilers começam a aparecer com o single no ano que vem.

Hector: É exatamente isso. Os advogados da banda não permitem que a gente ultrapasse certos limites de informação, mas é um trabalho do qual estamos muito orgulhosos. Podemos dizer isso com tranquilidade. É um disco que vem do coração, da alma e da cabeça da banda. A sensação é de que conseguimos dar um passo à frente em tudo o que fizemos até agora. Estamos muito satisfeitos com isso.

Estamos também muito orgulhosos da forma como ele foi gravado, porque essa abordagem totalmente analógica é uma raridade hoje em dia. É um disco feito completamente à parte de computadores. Buscamos essa identidade e sentimos que realmente alcançamos o resultado desejado.

Estamos ansiosos para lançá-lo, mas, por enquanto, é tudo o que podemos contar.

Rodolfo: Gravar o disco totalmente analógico foi um grande desafio e quebrou vários paradigmas. Sem a tela mostrando formas de onda ou espectrogramas, tivemos que confiar mais na audição e aceitar os erros. Essa experiência mais roots foi valiosa para enxergar o disco como um todo, sem se prender a detalhes minuciosos.

Minuto indie: Queria ouvir um pouco de vocês sobre o processo de transição de uma simples banda de amigos para ser aclamado na crítica, compor line up de grandes festivais como o Lollapalooza e até fazer turnê internacional. 

Hector: Muito massa. Eu consigo dividir esse momento em duas camadas. Tem o lado mais romântico, o sonho de criança, aquela coisa de ser pirralho e imaginar estar em palcos grandes. E isso é muito legal. Mas também faço questão de destacar a outra camada, que é o trabalho diário, a dedicação, o suor, o sangue e as lágrimas que colocamos na banda com todo o nosso coração.

Existe um trabalho constante por trás dos bastidores, longe das luzes do palco e das lentes. A banda é muito do que cada um de nós representa, do que carregamos no peito e colocamos em prática todos os dias. Hoje, o artista não pode se limitar apenas à parte criativa, a não ser que esteja em um nível muito mainstream. Precisamos cuidar de comunicação, merchandising, logística, agenda. E dividimos essas funções entre os integrantes para conseguir administrar tudo com mais planejamento. É muito suor envolvido.

Por isso eu digo que enxergo o lado romântico, aquele que o Héctor de 12, 13, 14 anos sonhava: tocar no Lollapalooza, tocar no Circo Voador. É surreal. Nunca imaginei que isso aconteceria tão rápido depois do lançamento de Holoceno e Lampião Rei. Então tem esse quentinho no coração, essa alegria de ver as coisas acontecendo. E ao mesmo tempo existe o orgulho de olhar para dentro e perceber: isso está vindo do nosso esforço também.

Rodolfo: Uma coisa muito legal é perceber como, com os novos momentos da banda, surgem novas responsabilidades e compromissos com o nosso local. Passamos a ser cobrados, mas é uma cobrança positiva. Outras bandas, artistas e fãs locais querem ver o que vamos dizer, o que vamos fazer. De certa forma, nos tornamos responsáveis não só por falar bem, mas também por traçar caminhos que outras pessoas possam seguir.

Para nós, é importante abrir caminhos para os artistas que admiramos e que também nos apoiam. Apesar de parecer que a Papangu surgiu rapidamente em vários espaços, cada integrante tem uma longa trajetória musical, com outros projetos, composições e ensaios que nem sempre deram certo. Para cada oportunidade que funciona, existem muitas que não se concretizam. Por isso, não se pode ter medo do “não”: é preciso tentar sempre e acumular experiência para quando as oportunidades certas surgirem.

Minuto indie: Famoso quem vê close, não vê corre 

Hector: É uma forma bem longa de dizer que quem vê close não vê corre. E, para concluir, sobre essa questão de se tornar uma banda inserida em uma cena de alcance nacional, saindo do contexto apenas nordestino, acredito que esse show especial que faremos no Circo Voador, no Festival Novas Frequências, representa exatamente isso. É uma resposta concreta e uma realização enorme.

Falo por mim, Héctor: antes de entrar na Papangu, eu já era fã do Test, do Deafkids… e hoje eles são nossos amigos. Já fizemos uma turnê juntos. Antes mesmo de lançar qualquer disco com Papangu, eu já admirava o som deles.

Com o Metá Metá é ainda mais forte. Eu sou completamente fã tanto do Metá Metá quanto da Juçara Marçal na carreira solo. Considero o Delta Estácio Blues um álbum perfeito, dez de dez. Escuto várias vezes por mês. Então, para mim, esse show no Circo Voador é a materialização prática de tudo isso: levar o nosso sangue, o nosso lugar de origem e de fala, e projetar isso em uma cena que tem visibilidade nacional. Estar lado a lado com artistas que admiramos, conviver com eles, chamá-los de amigos… isso é muito especial.

Rodolfo:Eu sempre digo que tocar no Lollapalooza é, sem dúvida, um sonho, mas tocar no Circo Voador dentro do Novas Frequências é diferente. Um é o sonho coletivo da banda em ascensão, o outro é um sonho pessoal de artistas e fãs de música que já viram tantos ídolos passar pelo Circo. Para mim, esse show é um verdadeiro divisor de águas.

Lembro quando fui ao Circo Voador muitos anos atrás. Foi a única vez que estive lá, já que não sou do Rio, mas tive a chance de ir a um show da Pitty e nunca me esqueci. Faz mais de dez anos, e ainda assim guardo a memória de como foi incrível. O espaço em si é uma experiência: você sente que está vivendo a história da música brasileira, especialmente da música alternativa que conquistou seu lugar ali. O público confia não só na banda que sobe ao palco, mas também na curadoria e no próprio espaço, que não abre as portas para qualquer coisa. Só passa coisa realmente boa.

Para nós, esse momento representa uma grande virada. A gente percebe como o anúncio desses festivais e o apoio que eles recebem ajudam bandas menores, de regiões mais distantes como a nossa, a circularem de forma mais expressiva. Sem esses festivais de porte médio abrindo caminhos para os de grande porte, seria muito difícil para bandas do Nordeste conseguirem fazer turnês pelo Sudeste, Sul ou Centro-Oeste do país.

Minuto Indie: somos suspeitos de falar e somos apaixonados pelo Circo Voador e estamos muito animada pra ver vocês lá E assim, sabendo que com várias experimentações, improvisos nenhum show de vocês é igual vocês podem dizer um pouco do que vocês vão preparar e, o que o público pode esperar do show do Novas Frequências?

Rodolfo: Dá sim, a gente tem um pouco do Holoceno, um pouco do Lampião Rei, um pouco coisa nova e a gente também vai preparar na verdade já preparamos, mas vamos apresentar um repertório diferente pois o festival ele se propõe a trazer Novas Frequências e a gente quer poder também experimentar ao vivo e a banda já é conhecida pelas suas experimentações, pelos seus improvisos e a gente quer levar isso ao Onze no Nobe se possível, porque é o espaço que a gente tem pra fazer isso e eu tenho certeza que o público vai estar 100% aberto a essas experimentações o Hermeto ocorre e não é à toa

Hector: É exatamente isso. Acho que será um ambiente que une a fome do público por algo diferente com a vontade da Papangu de entregar o que já fazemos, em maior ou menor escala, mas sempre com constância, seja em festivais grandes, médios, pequenos ou em casas menores. Com certeza, esse evento vai nos dar uma oportunidade única de expressar esse lado “troncho” da Papangu, para usar o termo que nos acompanha.

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Festival Novas Frequências

Data: 07 de Dezembro de 2025 (Domingo)
Horário: 17h (abertura da casa)
Local: Circo Voador, Lapa, Rio de Janeiro

INGRESSOS AQUI

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Autor

Escrito por

João Pedro Cabral

Fotógrafo e estudante de Produção Cultural que só queria ser um dos strokes e coleciona uns discos que encontra por ai.