Daniel Tupy acolhe suas próprias emoções em seu EP de estreia solo, ‘Bem’

Daniel Tupy Bem

O músico paulistano segue construindo seu projeto solo, em paralelo ao seu trabalho como baixista da Marrakesh

Somos filhos da cultura do “engole o choro” e, hora ou outra, a angústia predomina e o sentimento de frustração chega. Nosso piloto automático insiste em seguir em frente com a ideia de que está tudo bem fingir estar bem, ignorando os conflitos internos e toda a dor que corrói cada fração de vida. Chega um momento em que, subitamente, encaramos o espelho e nos deparamos com a imagem do nosso maior inimigo, do maior sabotador das nossas ações. Nos deterioramos, silenciosamente, assistindo nosso sofrimento na primeira fileira. Foi sentindo falta de reconhecer suas próprias vulnerabilidades, que Daniel Tupy deu som e voz as suas emoções e reuniu tudo em seu primeiro EP solo, ‘Bem‘.

Capa do EP ‘Bem’
Foto: Kessia Riany
Design Gráfico: Kessia Riany e Thomas Berti

No novo projeto, Daniel Tupy apresenta uma versão mais intimista como artista solo, mas segue como baixista e compositor da Marrakesh, banda com a qual já viveu muitas histórias e muitos trabalhos lançados nos últimos dois anos. O EP ‘Bem‘ passeia entre várias sonoridades até chegar a uma mistura de elementos dopop, MPB, trip hop, downtempo e alternativo. Ele é composto por quatro faixas, ‘Torcer Pra Deus, ‘Pra Quem?‘, a homônima ‘Bem‘ e ‘Empty Side‘, que refletem sobre a melancolia cotidiana e a importância de reconhecer suas próprias fragilidades emocionais.

O primeiro gesto de Daniel Tupy como artista solo se deu com o lançamento do single de mesmo nome do EP, ainda em setembro. A faixa ‘Bem‘, que, inclusive, indicamos aqui no MI, ganhou um clipe dirigido, filmado e editado por Thomas Berti, que soube bem como captar a essência da canção e ilustrar tudo de um jeito simples e intimista. Esse momento também marcou a estreia do selo LogoLogo, um projeto encabeçado por Tupy, Berti e Leonardo Migdaleski, que tem como missão ir além da música e valorizar a qualidade estética e artística.

Uma semana antes do mundo conhecer o EP ‘Bem‘ em sua forma completa, o músico e compositor lançou mais uma prévia. O single ‘Empty Side‘ é fruto de um processo de experimentação, recheado de camadas sonoras inovadoras. Na letra e na interpretação vocal, Tupy expõe todas as aflições e desabafa sobre a insegurança e a autossabotagem. Como novidades, temos ‘Torcer Pra Deus‘, uma surpresa que mescla português e inglês para refletir sobre a maneira como nós mesmos nos vemos, e ‘Pra Quem?‘, que conta com a participação de Vitor Milagres, da banda ROSABEGE.

Abrir o coração, se encontrar com suas próprias sombras, para que, enfim, possa alcançar a luz. Pensando assim, as faixas de ‘Bem‘, apesar do tom soturno e introspectivo, representam mesmo uma luz. Significam renovação, reinvenção, o primeiro passo de um novo caminho. Daniel Tupy aproveitou a liberdade que um projeto solo oferece e pôs ali toda a sua sinceridade e simplicidade, fazendo música do jeito que acredita e sente que deve fazer.

Contracapa do EP ‘Bem’
Foto: Késsia Riany
Design Gráfico: Késsia Riany e Thomas Berti

Em entrevista ao MI, o artista relembrou o processo de criação do EP ‘Bem’, e descreveu como se sente construindo seu projeto solo

Minuto Indie: Pra qualquer artista, é natural que um projeto solo represente auto-reconhecimento, liberdade, intimismo. Afinal, é você com você mesmo, encarando suas influências e inspirações mais pessoais. Ainda assim, seu EP parece ir muito mais além dessas características comuns. Todas as faixas soam como confissões, como se você tivesse entregado tudo que tem ali, através das letras e das melodias. Você, como compositor e baixista da Marrakesh, que agora firma sua estreia solo, sente que ‘Bem’ representa o que na sua vida?

Daniel Tupy: Representa muito na minha vida, um passo necessário que hesitei em dar antes, seja por perfeccionismo, insegurança ou não acreditar em mim mesmo. Mas estou extremamente feliz que trabalhei tudo isso dentro de mim e posso compartilhar isso com quem queira escutar o trabalho.

MI: O primeiro single lançado do seu projeto solo foi ‘Bem’, homônimo ao EP. Logo aí, você já disse que, produzindo esse trabalho, encontrou um jeito de encarar o fato de que precisava parar de fingir que estava bem para os outros e começar a ficar bem pra si mesmo. Agora, após lançar as quatro faixas produzidas, você considera que está bem consigo e pra si mesmo? O que é estar realmente ‘Bem’ pra você?

D: Ter mais calma, não atropelar as coisas. Nos últimos anos fui muito imediatista e escapista, não quero voltar a ser assim. E também depressão é um tema que não gosto de falar, por isso nunca demonstrei isso pra ninguém. Sinto que com o trabalho pude tratar disso, tive essa chance de amadurecimento. E ter a consciência de que um sentimento nunca dura para sempre, tudo tem seus altos e baixos.

MI: Enquanto o single ‘Bem’ é sobre isso, que podemos chamar de “limpeza emocional”, ‘Empty Side’ é mais sombria, um desabafo mais angustiante, mais melancólico, especialmente pela sonoridade e pela letra. Como se você confessasse a si mesmo que você é o seu próprio limite, o seu próprio sabotador, e precisa aprender a lidar com isso. O que você chama de “lado vazio”?

D: É o seu pior lado, estado que te toma por completo e não te deixa levantar da cama. Tantas vezes que eu não consegui trabalhar por causa disso. Uma angústia que só vai crescendo. E claramente não sou o único que sente isso, a maioria das pessoas que eu conheço tem algum tipo de depressão e acho importante falar. Por muito tempo ignorei esse sentimento que me travou em tantos aspectos na vida por ter privilégios e achar que não deveria me sentir assim, minha angústia não era séria o bastante. Mas é necessário compartilhar o que está sentindo, pedir ajuda e nunca deslegitimar o sentimento do outro.

MI: O público pôde conferir essas duas faixas, ‘Bem’ e ‘Empty Side’, antes do lançamento completo do EP, então já deu pra ter uma ideia do que estaria por vir. Não sei o motivo em específico, mas você escolheu deixar ‘Torcer Pra Deus’ como uma das inéditas, e eu, particularmente, acho que ela é uma surpresa e tanto. Ela surpreende em todos os sentidos, tanto pela metáfora do sol, que você usa pra fazer uma reflexão sobre como nós nos enxergamos, quanto pela letra intercalada em inglês e português. Quais lembranças você guarda do processo de criação dessa faixa, especialmente?

D: “Torcer Pra Deus” eu compus e produzi entre dezembro de 2019 e janeiro deste ano. Foi a primeira que deu um estalo pro projeto. Comecei a compor em inglês pelo hábito e depois decidir mesclar com português. Me senti vulnerável e que estava me expondo demais e isso me deixou animado, e já sabia que ela deveria ser a faixa inicial do projeto.

MI: ‘Pra Quem’ é a outra faixa que estreia junto com o EP. Essa aqui marca sua parceria com o Vitor Milagres, do ROSABEGE, nos vocais e na composição. Como é que fluiu essa colaboração entre você e o Vitor e essa ideia do sample “ele disse que queria casar comigo ou então morrer afogado”? Inclusive esse é um trecho do filme ‘O Céu de Suely’, né?

D: Sim, é um trecho do começo do filme que me deixou bem comovido. Quis tirar essa frase do contexto e inserir em uma perspectiva pessoal, dando a ela outra narrativa. E o processo com o Vitinho foi muito bom. Primeiro fiz o beat do começo da música e fiquei umas duas semanas até encontrar a letra e a melodia de voz. E por muita tentativa e erro cheguei em um lugar que era muito sincero. Quando mandei pro Vitinho ele ficou um tempo digerindo e um mês depois ele me mandou sua parte. Senti uma euforia muito grande, estava perfeito. Fez com que todas as peças do quebra-cabeça se encaixassem. Essa foi a produção que deu mais trabalho pra fazer, mas no momento é a minha faixa preferida do EP.

MI: Diante disso tudo, acho que, mesmo se eu tentasse, não conseguiria rotular o seu som, o seu estilo. O que você demonstrou até aqui, nesse projeto solo, é que a sua vontade é de misturar suas influências até onde der, da MPB ao Downtempo. O que (e quem) te inspirou nessa trajetória até aqui?

D: Eu também não sei rotular ao certo (risos). Mas acredito que minha vida, referências e meus amigos que me inspiraram e me fizeram chegar nesse som.

MI: Pra gente finalizar, quero saber de você, não só como artista, mas também como pessoa, de que forma você enxerga o futuro? O que você ousa esperar dele? E quem acompanha seu projeto solo, pode esperar mais novidades?

D: Meus planos como pessoa vão ser sempre ouvir mais os outros e aprender, sempre me aprimorar no meu ofício. Quero viver a vida no presente e fazer o meu melhor com que posso agora, assim tenho certeza que coisas boas virão. Podem sim esperar novidades, quero dar sequência ao EP ano que vem, mas agora vou focar em gravações com a Marrakesh e o desenvolvimento da LogoLogo como selo.

Escute ‘Bem’, o primeiro EP solo de Daniel Tupy

… ou em outras plataformas, clicando aqui

Ficha técnica:

Todas as músicas escritas e produzidas por Daniel Tupy (exceto “Pra Quem?”, escrita por Daniel Tupy e Vitor Milagres, e “Empty Side”, produzida por Daniel Tupy e Thomas Berti);
Pós-Produção e mixagem por Thiago Fernandes;
Masterização por Pedro Soares;
Fotografia por Késsia Riany;
Design gráfico por Késsia Riany e Thomas Berti;
2020 © LogoLogo.

* Créditos da foto de destaque da matéria: Thomas Berti

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