
Fora do eixo Rio-SP, banda sergipana constrói uma década de estrada, discos e vínculos — e estreia no Rio Grande do Sul com shows em Porto Alegre e Novo Hamburgo
Há quem diga que sobreviver na música independente brasileira é quase um ato de teimosia. Mas a Cidade Dormitório prefere chamar de algo mais bonito: solidariedade, vínculo, experiências e conexões. Comemorando 10 anos de história, o grupo sergipano que emergiu dos rolês universitários em São Cristóvão, perto de Aracaju, segue ecoando melodias que misturam pós-punk, psicodelia e letras que traduzem o sentimento de concreto e a complexidade da solidão urbana.
Entre discos como Fraternidade‑Terror (2019) e RUÍNA ou O começo me distrai (2022), passaram por diferentes formações, sobreviveram à pandemia e insistiram no álbum como obra completa, totalmente na contramão de um mercado que receita singles a cada vinte dias. Agora, para celebrar uma década, pegam novamente a estrada, como “maias modernos”, e chegam pela primeira vez ao Rio Grande do Sul, para shows em Porto Alegre e Novo Hamburgo. Uma banda pronta para comprovar que a cena indie se constrói com encontros e não com algoritmos.
Conversamos com os integrantes Yves Deluc (vocal e guitarra), Fabio Aricawa (bateria e voz), João Mário (baixo e voz) e Lucas Rocha (guitarra e voz), sobre os desafios desses 10 anos, o que significa sair de Sergipe para tocar no Sul, a resistência do circuito alternativo e a visceralidade que pulsa na sonoridade da banda.
Minuto Indie – Vocês estão nessa tour de 10 anos e é a primeira vez descendo até o Rio Grande do Sul. Como é isso pra vocês?
João Mario – Na real, a gente já tinha descido algumas vezes pro Sul, mas nunca tinha passado de Joinville. Fizemos Santa Catarina, Curitiba, Ponta Grossa… mas Porto Alegre e Novo Hamburgo é a primeira vez mesmo. E sempre pareceu algo muito maior, até porque é um desafio logístico gigantesco. Então demorou dez anos pra isso acontecer, e é muito doido pensar que estamos conseguindo chegar até o extremo do país.
Fabio Aricawa – E o mais louco é que a recepção surpreende. Okay, existe Spotify, tem YouTube, mas a gente não imagina o tanto de coisa que ta acontecendo assim com a gente. Às vezes vamos parar numa cidade que nem sabíamos que existia, e tem uma galera lá, querendo receber a gente.
Yves Deluc – Mesmo com redes sociais, que nem sempre refletem tudo. É como quando fomos pra Ponta Grossa: na estatística do Spotify nem aparecia, mas ao vivo foi incrível. Estamos só no começo da tour, só fizemos quatro datas de 17 que temos programadas, então a gente espera ainda se surpreender mais. Novo Hamburgo foi um convite que nos pegou totalmente de surpresa, mas falaram tão bem que parece magnético. Não sabemos o que esperar, só sentimos que vai ser massa.
MI – E olhando pra esses 10 anos, com toda a mudança que rolou no Brasil e até na forma de consumir música, o que vocês acham que construíram? Como veem a banda no cenário atual?
Yves – Esses dias uma galera de Santa Catarina entrevistou a gente e disse algo tipo: “vocês inspiram e respiram algo da cena independente”. Me senti uma certa responsa, não de forma negativa. Nunca tinha parado pra perceber isso — que talvez sejamos uma referência pra quem tá fora do circuito Rio-São Paulo. De certa forma, eu acho que a gente já teve que remodular a rota, reorientar a rota. E talvez isso ajude a não reproduzir certos modelos ou certas receitas de bolo que, às vezes, fodem a banda mesmo, fodem a ideia de solidariedade cena. Então, talvez para a gente, uma lição que a gente aprenda e talvez tenta repercutir com outros artistas ou com outras produções que a gente vai tendo contato para conseguir rodar é meio que essa ideia de uma tentativa, de ter uma ética de solidariedade ou uma ética de cena que, claro, sempre teve problemas, mas aí é uma construção artesanal mesmo, porque a gente não racionaliza isso, não. Então, para mim, a cena são vinculações. Mas é uma surpresa pensar que isso possa criar uma forma de referência de que a gente tem um lugar na cena, fora dos circuitos hegemônicos. Então é massa, mas é muito precário também.
Fabio – Acho que justamente por causa da precariedade, acaba se tornando tudo muito empírico. Não adianta… A gente vai fazendo, conversando, na boa vontade mesmo. O que impera é isso: todo mundo junto, completamente empírico dentro do processo. Não tem muito mistério.
João Mário – Esse caminho é bem real. A música tem muito dessa coisa, a galera vende muita receita, tipo “cinco chaves do sucesso na música”: lança uma música a cada 20 dias, garante presença digital, blá blá blá. Mas a gente tem esse romance com o disco, com o álbum como narrativa. E quando a gente não está tocando em outros lugares, a gente fica com a cabeça muito pensando que um disco, a gente faz uma parada e dali a coisa pode acontecer já, é só a gente continuar fazendo a receita de bolo, que a gente recebe muita receita de bolo. A gente fica Imaginando que lá fora são assim as coisas, porque é isso que está sendo dito. Mas aí quando a gente vai e está tocando e tudo mais, a gente começa a perceber onde certas coisas acontecem, né? Como é que funciona tal circuito, como é que a gente consegue estar dentro disso e tudo mais. Também porque, de alguma forma, a banda conseguiu uma audição muito grande das pessoas, então a gente consegue uma coisa, mas que ainda parece até não refletir essa quantidade e tudo mais. O legal é ver que não precisa do mundo inteiro num show. Se em cada cidade tiver 100, 150 pessoas querendo conhecer a banda, isso já cria um circuito mais sustentável. Não tô dizendo que é fácil, na realidade é muito difícil, mas a cada ano a coisa se transforma em um pouquinho maior, tá ligado? E é o que dá vontade de continuar.
MI – Pra essa tour, vocês pegaram a estrada como faziam os “maias”. Como foi dar o start nisso e se conectar com o público?
Yves – Depois do (disco) Ruína, bateu um cansaço. Pensei: “meu Deus, só queria alguém que mandasse em mim, tô cansado, só queria alguém que me dissesse o que fazer”. Fomos atrás de booker, gravadora, produção mais diretiva. Chegaram convites estranhos, com receita pronta, e ficamos: “pô, mas também não é isso não”. Então meio que traímos esse desejo cansado e voltamos a rodar, a pegar estrada nessa “ética dos maias que você falou”. Mas agora estamos apontando flechaspara alguns lugares. Entramos no selo, na Matraca Records, gravamos um álbum com eles e se tornou uma parceria próxima do que eu acho que aqui nninguém tinha vivido e foi uma escolha nossa. Eu tava mandando e-mail pra selos porque não tinha mais perna pra fazer disco só, então conhecemos outras formas de trabalho. Agora estamos tentando entender como sair do caminho como “faziam os maias” ao mesmo tempo em que consigamos ter uma hibridização com pessoas que tenham a mesma ética política. Eles ajudam a abrir caminhos, é uma aposta, temos uma ótima relação. E isso foi uma aposta, deles e nossa. Pode dar certo, pode não dar. Apesar de refletir pra caramba, a gente sempre chega na mesma conclusão: dúvidas e incertezas. Mas a gente vai seguir.
MI – E o que o público pode esperar dos shows dessa turnê?
Lucas Rocha – A palavra é visceralidade. O set foi montado em blocos por álbum, pra galera ter essa trajetória quase cronológica e sentir a nostalgia. Dá pra ver quem canta mais cada disco, vira um experimento social.
Fabio – Brincamos que o público é uma espécie de “cobaia”, rsrs.
Lucas – Já estamos testando músicas novas que devem entrar num disco no começo de 2026. A galera já canta refrão sem ter sido lançado, postaram até no YouTube.
Yves – Esse pós-show é parte do espetáculo. Dependendo da relação que você estabelece com o público, essa ideia de… esse dispositivo de identificação que se chama fã, ela vai-se embora, porque aí a gente estabelece esse tipo de relação. E a gente está sempre aberto a conversar, então é bem massa. O pós-show, a galera falando das músicas ou do que se identifica, isso também meio que dá fôlego pra gente. Pensar que uma música que a gente achava flopada e não estaria no show passa a estar, porque também esse contato síncrono de cada cidade faz a gente ver que não, não é só número.
Lucas – A cervejinha, o pós-show também é parte do espetáculo, rsrsrsrs.
No RS, os shows da Cidade Dormitório são promovidos pelo selo outrahorarec que apadrinha artistas emergentes, produzindo shows e outros eventos colaborativos com o olhar atento a curadoria da cena alternativa. Ainda há ingressos disponíveis para os shows de Novo Hamburgo e Porto Alegre. As informações completas você encontra nas redes sociais da banda.
