Daniel Drexler e a música que redesenha o mapa do Sul
Às vésperas de dividir o palco com Vitor Ramil e antes de voltar a Porto Alegre para o Chisme, o uruguaio conversa com o Minuto Indie sobre La Serena, portunhol, memória e uma geração que começa a descobrir que a América Latina sempre esteve mais perto do que parecia
Três semanas antes de conversar com Daniel Drexler, eu estava em Montevideo sentindo um frio absurdo em uma sensação térmica tinha chegado perto dos -1°C e caminhar pela Rambla significava aceitar vento na cara, olhos lacrimejando e aquela pergunta inevitável sobre por que alguém escolheria turistar no país vizinho justamente naquele momento. Foi assim que a entrevista começou. Antes de música, festivais, fronteiras ou qualquer assunto minimamente planejado, falamos sobre o frio do inverno gaúcho e uruguaio e de como temos muito mais em comum do que a gente pode imaginar.
Daniel riu. Disse que a Rambla de Montevidéu podia muito bem ser o lugar mais frio do mundo. Depois contou que gosta de entrar no mar. Foi uma conversa pequena, mas, olhando agora, talvez falamos sobre tudo o que já fica subentendido quando uma gaúcha e um uruguaio se encontram: o clima compartilhado, o mar, a sensação de reconhecer uma paisagem e a ausência de qualquer cerimônia entre uma pessoa do lado brasileiro e a outra que vive do outro lado da fronteira.
Poucos minutos depois, estaríamos falando exatamente sobre isso.
Daniel Drexler estava em Porto Alegre para um encontro com Vitor Ramil na programação inaugural do recém-aberto Teatro Bancários RS e no mês de novembro, estará de volta à cidade como uma das atrações do Chisme Festival. Entre uma coisa e outra existe muito mais do que uma agenda de shows, é bem verdade. Há uma relação com o Rio Grande do Sul que atravessa décadas, família, música e uma geografia que, para ele, nunca coube muito bem nas linhas rígidas de um mapa.
Pergunto sobre essa proximidade. Ele começa pelo bisavô.
“Meu bisavô era gaúcho”, conta. “Do lado da minha mãe, era de perto do Cassino, um pouquinho mais para o sul, nos Campos Neutrais. A resposta rapidamente sai da biografia pessoal e Drexler começa a falar das fronteiras que mudaram ao longo da história, da Banda Oriental, das cidades fronteiriças, do clima, da topografia, da formação de uma região que culturalmente nunca se comportou como dois universos completamente separados.
Para quem vive no Rio Grande do Sul, algumas dessas conexões parecem tão naturais que talvez a gente nem pare para observá-las. O mate muda de nome, a pronúncia muda, algumas palavras também, mas na realidade todas essas conexões estão sempre nos rodeando. Coisas que atravessam a fronteira sem mostrar o passaporte e a música é a ferramenta mais poderosa quando a gente fala sobre conexão do Sul da América do Sul.
Aliás, a música faz isso há bastante tempo. O mais curioso é que nem sempre Daniel percebeu o Rio Grande do Sul dessa forma. Cresceu no Uruguai consumindo intensamente cultura brasileira, ouvindo discos brasileiros em casa, lendo autores daqui e reconhecendo no Brasil uma referência cultural enorme. Mas era, sobretudo, aquele Brasil projetado internacionalmente pelo eixo Rio-São Paulo, por Minas Gerais, pela Bahia… engraçado, parece que eu conheço essa história? Pois é.
Porto Alegre ainda não estava naquele mapa, até um táxi atravessar a Avenida 9 de Julio, em Buenos Aires, em 2004. Daniel estava fazendo uma agenda de imprensa com o irmão, Jorge Drexler, quando a pessoa que os acompanhava decidiu colocar para tocar um artista que estava trazendo para a Argentina. A música era “Não É Céu”, de Vitor Ramil.
A reação foi imediata. “Eu me lembro da reação minha e do Jorge: ‘Uau, o que é isso? Esse cara está falando nossa língua. Ele está do outro lado da fronteira’.” Talvez nenhuma outra frase da nossa conversa explique tão bem o que aconteceu depois.
Não esstamos falando aqui sobre compreender o idioma português, estamos falando de reconhecer uma paisagem estética, uma cadência, determinada maneira de escrever e de olhar para e entender o mundo. Encontrar do outro lado de uma fronteira nacional algo que parecia estranhamente familiar.
Mais de vinte anos depois, Daniel estava em Porto Alegre justamente para dividir o palco com Vitor. E havia pedido que “Não É Céu” entrasse no repertório daquela apresentação. Algumas músicas demoram anos para terminar de contar uma história. Em outro momento da conversa, Daniel lembra de estar entre amigos em Santiago, no Chile, tocando “Garota de Ipanema” (quem nunca…). Foi quando alguém interrompeu a interpretação perguntano sobre o que dizia aquela música. Para um uruguaio acostumado desde cedo à presença do português, aquilo parecia quase absurdo.
“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça… O que você não entende?”, lembra, rindo. É, parece que nem todos os latinos compreendem a mesma poesia. Aliás, esta é uma pequena história, mas diz muito sobre o tipo de relação que existe neste pedaço específico do continente. A proximidade entre português e espanhol que parece evidente na fronteira Brasil-Uruguai não funciona necessariamente da mesma forma em Santiago, Bogotá ou Lima.
Aqui criamos até uma língua que não está oficialmente nos livros. “Eu posso falar em espanhol, você pode falar em português”, diz Daniel. “Meu português é horrível, mas o importante é que eu consigo me comunicar.”
Discordo da primeira parte, o português dele está bem longe de ser horrível. Inclusive eu estava morrendo de medo antes da entrevista (risos). Nossa própria conversa passa o tempo inteiro por esse lugar. Português, espanhol, portunhol, at;e senti dificuldade depois em identificar onde termina um e começa o outro. A língua cumpre a função mais importante entre nós, mas é a música que verdadeiramente nos aproxima.
Isso também ajuda a explicar por que festivais como La Serena, no Uruguai, e o Chisme, em Porto Alegre, parecem conversar tão naturalmente entre si. Quem acompanha o Minuto Indie há algum tempo provavelmente já percebeu uma obsessão editorial minha em criar estas pontes. Temos olhado cada vez mais para artistas, festivais e movimentos que reposicionam o Brasil dentro da América Latina, especialmente num momento em que uma geração mais jovem parece disposta a atravessar barreiras que durante décadas fizeram o mercado brasileiro se comportar quase como uma ilha dentro do próprio continente.
E eu mesma já atravessei essa ponte algumas vezes. Foi no La Serena, em La Paloma, que conheci artistas que depois passaram a aparecer por aqui. É muito difícil passar alguns dias naquele ambiente sem voltar pensando justamente sobre o quão estranha é a distância cultural que ainda insistimos em construir entre países geograficamente tão próximos.
Daniel conhece bem essa sensação. Afinal, ajudou a criar aquele espaço. Ele me conta que o La Serena nasceu muito antes de ter cara de festival, nasceu de amigos chegando para uma festa bem importante… seu aniversário. Ele conta que, no início, por volta de 2008 e 2009, percebeu que estava em um lugar perto do Brasil e da Argentina e começou simplesmente a telefonar para pessoas.
“Eu ligava para um parceiro em Córdoba e dizia: ‘Cara, estamos aqui fazendo um churrasco, venha’. E ele chegava.”Até que fez, segundo ele, um “erro muito grande”: convidou Zelito. “Ele perguntou: ‘Posso levar gente?’. E eu falei: ‘Toda a gente que você quiser’.” Digamos que chegaram bastante gente depois disso.
De repente havia barracas espalhadas ao redor da casa. Tantas que o proprietário acabou avisando que não poderia continuar alugando o imóvel daquela maneira. Sem estratégia de branding, sem manifesto cuidadosamente diagramado e sem reunião para discutir integração ibero-americana, uma ideia de festival começava a existir porque músicos de países diferentes queriam ficar juntos. Engraçado como eu nem fazia ideia de que o festival tinha começado por causa disso, mas o sentimento que nos passa quando estamos lá é exatamente este, de que estamos chegando para celebrar com pessoas próximas uma data especial.
Quase duas décadas depois, La Serena cresceu, criou palcos e programação, recebeu artistas estabelecidos e outros ainda começando suas trajetórias. Mas Daniel acredita que o que realmente importa continua intacto. “Você está sentado em uma roda, passando mate, tocando violão, falando, cantando, fazendo churrasco.” Eu não poderia concordar mais, só quem esteve por lá entende extamente o que ele está falando. E completa: “La Serena cresceu muito, mas conserva essa sensação de hospitalidade, esse desejo de convidar o outro, de celebrar a diversidade e, ao mesmo tempo, perceber o quanto somos parecidos.”
Existe um momento em La Paloma em que deixa de ser muito importante saber quem veio de Porto Alegre, Montevidéu, Buenos Aires, Córdoba ou São Paulo. Não porque as identidades desapareçam, bem pelo contrário. Elas estão por toda parte, nas músicas, sotaques, instrumentos e histórias, só que ali naquele pedacinho de paraíso, elas ficam muito, mas muito próximas.
Fica claro também que é esse sentimento que alguns festivais estejam tentando construir atualmente aqui no Brasil. A ideia não é uma América Latina homogênea, mas uma América Latina capaz de perceber suas diferenças sem transformá-las em muros. Há outra história familiar de Daniel que torna tudo isso ainda mais significativo. Seu avô era professor. Nos anos 1930, foi enviado para uma escola no norte do Uruguai, próxima à fronteira brasileira. Daniel conta que uma de suas orientações era não permitir que as crianças falassem português. “Na verdade, no norte do Uruguai se falava português, ou portunhol.” Existe algo quase cinematográfico nessa passagem de gerações.
Pensem aqui comigo: um avô enviado para uma região fronteiriça onde a mistura linguística precisava ser controlada. Décadas depois, o neto constrói parte da própria carreira justamente atravessando essa fronteira, falando portunhol em entrevistas, compartilhando palcos com artistas brasileiros e ajudando a criar um festival onde português e espanhol convivem praticamente sem pedir licença um ao outro.
Durante muito tempo, os centros culturais também apontaram para outras direções. Daniel lembra que, para artistas uruguaios, Buenos Aires sempre foi uma continuação quase natural de carreira. Do lado gaúcho, muitos músicos também cresceram pensando que o caminho inevitável para desenvolver um projeto passava por São Paulo ou Rio de Janeiro.
Mas e se o caminho fosse para o outro lado?

E se alguém de Porto Alegre pudesse olhar para Montevidéu e Buenos Aires não como etapas de uma improvável “carreira internacional”, mas simplesmente como cidades de um mesmo circuito cultural? “Quando a gente começa a gerar um novo espaço aqui, que tem comunicação para os dois lados, muito artista jovem pode vir tocar aqui, e gente de Porto Alegre, Santa Maria, Uruguaiana pode tocar em Montevidéu, ir para Buenos Aires”, diz.
É aqui que vemos a importância do Chisme. Para Daniel, La Serena e o festival porto-alegrense não são acontecimentos isolados. “O que está acontecendo no La Serena, o que está acontecendo aqui com o Chisme, é parte de uma nova era do relacionamento do Brasil com o resto da América Latina.”
Talvez “nova” seja a palavra que mereça alguma provocação, já que não estamos falando de coisas isoladas. Está na fronteira, na milonga, no candombe, no mate, nos sobrenomes, no churrasco, nas migrações, no portunhol, no frio e até na maneira como determinada melancolia aparece nas canções produzidas neste canto do mundo.
A novidade é começar a olhar para tudo isso como potência cultural contemporânea, e não como uma curiosidade regional, só “mais um hype“. É algo que temos acompanhado por diferentes ângulos aqui no Minuto Indie. Uma geração brasileira começa a ouvir mais espanhol sem tratar automaticamente essa música como estrangeira e logo, artistas argentinos e uruguaios encontram públicos aqui sem precisar passar pelo antigo ritual de validação dos grandes centros internacionais. Festivais criam rotas próprias em diferentes estados do Brasil, colaborações nascem em praias, camarins, rodas de violão e mensagens nos directs de redes sociais.
O movimento ainda é desigual, obviamente, eu sei muito bem disso. A indústria brasileira continua gigantesca e bastante voltada para si mesma, mas eu gosto de acreditar que há pequenas rachaduras e que é por ali que estamos conseguindo dar visibilidade a este movimento cada vez mais.
Daniel parece enxergar nelas uma possibilidade. “Eu me criei em um país muito pequeno”, diz. Durante anos, viu artistas uruguaios lidarem com os limites de um mercado reduzido até perceber que aquela geografia também poderia ser lida de outra maneira. “Eu me dei conta de que falo uma das línguas mais faladas do mundo. E, além disso, no continente inteiro se fala espanhol e português. O português também é atingível.”
Muda tudo quando o mapa deixa de mostrar apenas limites e começa a mostrar novos caminhos. Em novembro, um desses caminhos traz Daniel de volta a Porto Alegre para o Chisme e desta vez haverá uma surpresa bem importante. Ele deixará de lado o formato mais íntimo de voz e violão que assumiu depois da pandemia e decidiu bagunçar o que ele chama de “zona de conforto”.
“Estou trazendo uma volta a essa situação de estar com uma banda. E estou vindo com uma banda grande”, conta. O novo formato estreia em outubro, no Auditorio Nacional del Sodre, em Montevidéu e depois, desembarca em Porto Alegre. “Para qualquer artista, o melhor que pode acontecer é ter desafios e sair sempre da zona de conforto”, diz. “Eu estava muito à vontade nessa zona de fazer shows sozinho com violão e voz.”
Duas semanas antes eu estava diante do Río de la Plata, em Montevidéu, congelando na Rambla de Pocitos. Agora estava em Porto Alegre conversando com um uruguaio sobre um festival em La Paloma, outro festival no Rio Grande do Sul, uma história familiar que começa em uma região onde Brasil e Uruguai e planos de estar em janeiro em meio a roda de canções em La Serena.
Foi inevitável não me sentir próxima das histórias de Daniel Drexler. Meu Deus, como passamos tempo demais olhando para a América Latina como um conjunto de países vizinhos quando já poderíamos ter olhado para ela como uma rede de coisas incríveis que já circulam entre nós.
Em determinado momento da entrevista, volto a La Serena e peço que Daniel faça um convite para quem ainda acha estranho imaginar atravessar a fronteira para acompanhar um festival numa praia uruguaia. “Para qualquer gaúcho que queira se aproximar, vai ser uma surpresa o bem que ele vai se sentir lá.”
Isso me remete a uma boa maneira de pensar o Chisme. E Montevidéu. E Porto Alegre. E essa música inteira que continua atravessando a fronteira e nos acalentando o coração.
Vinte anos atrás, dentro de um táxi em Buenos Aires, Daniel e Jorge Drexler ouviram Vitor Ramil e chegaram à conclusão mais simples possível: “Esse cara está falando nossa língua.” Talvez a gente só esteja começando a perceber quantas pessoas, do outro lado das fronteiras, sempre estiveram conversando no mesmo idioma musical que nós.
*Um agradecimento especial à equipe do festival Chisme pela disponibilidade da entrevista.
SERVIÇO
3º Chisme Festival – Que nunca muera el folclore!
Dia 28 de novembro, sábado, a partir das 14h
Jockey Club do Rio Grande do Sul (Av. Diário de Notícias, 750 – Cristal – Porto Alegre/RS)
Atrações confirmadas:
Aterciopelados (COL)
Los Pibes Chorros (ARG)
Kleiton e Kledir (RS)
Amaro Freitas (BRA)
Rosa Pistola (MEX)
Rueda de Candombe (UY)
Borghetti Trio (RS)
Piolinda Marcela (COL)
Juana Aguirre (ARG)
Valéria Barcellos (RS)
Daniel Drexler (UY)
Mitú (COL)
Roda de Milonga (RS)
Rosa Nika & Musa (RS)
DJ Arú (BRA)
Lambada da Serpente (BRA)
Programação paralela
Los Mirlos (PER) – 5 de novembro, Bar Opinião
Ouça Daniel Drexler nas plataformas digitais: