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Gerações da psicodelia nordestina se encontram no Circo Voador com Ave Sangria e Papangu 

Fotos: @jpcabralz para Minuto Indie
Fotos: @jpcabralz para Minuto Indie

No Circo Voador, Zepelim e o Sopro do Cão, Ave Sangria e Papangu aproximaram três gerações do rock psicodélico nordestino em uma noite atravessada por memória, improviso e continuidade.

Há poucas coisas mais emocionantes do que ver palcos compartilhados por artistas de diferentes gerações. Nessa noite de sábado (26), no Rio de Janeiro, três expoentes do rock psicodélico nordestino se encontraram nos palcos do Circo Voador: Zepelim e o Sopro do Cão, Ave Sangria e Papangu. 

Na abertura desta noite célebre do rock que acontece entre Pernambuco e Paraíba, a Zepelim e o Sopro do Cão, formada 20 anos atrás em Campina Grande (PB), conseguiu cumprir muito bem a missão de agitar a galera. 

A banda trouxe seu noise rock bem pesado e intenso, daqueles que se sente no peito antes de ouvir direito. A mistura com referências nordestinas dá identidade ao som e casou perfeitamente com os dois shows que vieram depois, criando um clima que só fez sentido no conjunto. Dava pra ver que os músicos estavam animados por ocupar um palco importante na música brasileira, e essa energia passava pro público. Dois pontos se destacaram. O primeiro foi o som potente da guitarra, principalmente nos solos do Dede Guima, que cortavam o peso do resto com um destaque só deles. O segundo foi a empolgação do Babu, o vocalista, que ocupava o palco inteiro, e isso deixava tudo ainda mais vivo.

Fotos: @jpcabralz para Minuto Indie

Uma história que começou a ser escrita mais de 50 anos atrás com a gravação do disco Ave Sangria (1974) no Rio teve uma emocionante continuação com a primeira apresentação própria do Ave Sangria na cidade. Com um repertório que misturou quase todas as faixas do primeiro disco autointitulado com algumas do disco mais recente Vendavais (2019), a sede do público por esse show ficou evidente a cada coro que se ouvia ou roda que se abria. 

Todos os músicos da banda, atualmente formada por Marco Polo, Almir de Oliveira, Júnior do Jarro, Gilú Amaral e Juliano Holanda, seguem extremamente virtuosos. Os destaques da noite ficam para as famosas faixas do primeiro disco, “Dois Navegantes” e “O Pirata”, a canção dedicada ao Rio, “Cidade Grande”, e “Vendavais”, do último disco, que terminou com uma faixa exibindo versos do refrão: “A vida não precisa ser tão desiludida / Mas também iludida não precisa ser”. Mesmo a banda tendo tido a trajetória interrompida por conta da censura durante a ditadura, seu som conseguiu atravessar o tempo e chegar a uma geração de jovens, como nós, ainda dispostos a descobrir as jóias escondidas da música brasileira. 

O show teve alguns problemas técnicos, mas a conexão com o público e a empolgação de ver a banda tocar pela primeira vez no Rio de Janeiro fizeram com que os imprevistos passassem batido. Ninguém parecia ligar pra isso. É bonito ver uma banda com uma trajetória tão longa reunir um público tão diverso, de todas as idades e de vários lugares. A estreia na cidade teve tanto peso que teve gente que veio de fora do Rio só para assistir.

Fotos: @jpcabralz para Minuto Indie

Em meio ao momento de plena ascensão com o lançamento do disco Celestial, a Papangu subiu ao palco do Circo com sorriso no rosto, sem esconder a alegria por estar fechando a sequência de shows de uma noite mágica. Para quem está conhecendo a banda pela primeira vez por meio do show, rapidamente ficou clara a dinâmica “caixinha de surpresas” de um show que não é nem um pouco linear, no melhor sentido. 

Tudo vai do 10 ao 100 muito rápido: é só piscar que o solo doce do teclado perdeu lugar para um intenso vocal gutural acompanhado de riffs delirantes de guitarra, ou então uma transição imediata de solos de flauta transversal para bateria. Ao vivo, a Papangu borra todas as fronteiras e limites do rock ao integrar triângulo, flauta e até porquinho e galinha inflável em seu som, o que reforça como é único hoje em dia aquilo que eles propõem no palco. 

Fotos: @jpcabralz para Minuto Indie

O show foi uma verdadeira manifestação a favor do improviso. Tudo soou muito amarrado e, ao mesmo tempo, improvisado de fato, sem seguir uma setlist física, mas dentro de uma lógica já ensaiada. Em alguns momentos, O vocalista e tecladista Rodolfo Salgueiro aproveitou o espaço para criticar a IA. Segundo ele, por mais que ela consiga armazenar dados do passado, jamais terá a capacidade mais técnica de um artista: o improviso. 

Um dos momentos mais simbólicos da noite foi a participação de Gilú Amaral, percussionista do Ave Sangria, em um breve momento do show da Papangu. Junto a Gilu, tocaram uma palhinha de “Seu Waldir”, da Ave, e “Sol Raiar (Caminhando na Manhã Bonita)”, da própria Papangu. Rodolfo aproveitou para fazer um agradecimento: “A gente segue uma rota que já tem algumas pedras, se livrando de caminhos tortuosos sob o sol de satã, e quem traçou esse caminho e colocou as pedras foi o Ave Sangria. Somos paraibanos, vizinhos de Pernambuco, e não é fácil para as bandas do Nordeste chegarem até aqui, o Rio só foi mais fácil pq eles vieram primeiro. Nós honramos os nossos antepassados que fizeram guerrilha cultural contra uma ditadura e que tiveram esse caminho muito tortuoso interrompido, que só veio ser refeito agora, então é um privilégio imenso dividir essa noite com esses caras”. São essas as palavras que simbolizam o aspecto emocionante e histórico que pairou naquela noite no Circo. 

Fotos: @jpcabralz para Minuto Indie

No fim das contas, o que ficou foi a sensação de ver uma linha do tempo inteira dividindo o mesmo palco. O Ave Sangria, que abriu caminho nos anos 70 e teve a trajetória cortada pela censura, pôde finalmente tocar no Rio para uma plateia que sabia cada refrão. A Papangu, que agradeceu no microfone por esse caminho, mostrou que o rock nordestino segue inventando. E a Zepelim abriu a noite agitando a galera e provando que essa história ainda tem muito pra render. Que essa noite no Circo Voador seja só a primeira de muitas, e que o Rio continue sendo parada obrigatória pra quem faz som assim. 

*Siga @jpcabralz no instagram.

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