Duda In The Sky lança “Tudo nessa cidade”, inspirada pela pulsante cena mineira
Entre mudanças, amores, amizades e o “pequeno caos da vida adulta”, Duda In The Sky encontra no otimismo o fio de Tudo nessa cidade; em entrevista ao Minuto Indie, a mineira fala sobre a fase que deu origem ao novo EP
Na última sexta-feira, Duda In The Sky lançou Tudo Nessa Cidade, EP que se soma a Sentido (2019), Amora (2020) e Três (2022) em sua discografia. Aos 25 anos, a artista coloca em música aquilo que chama de “pequeno caos da vida do jovem adulto”: os começos, as decepções, os quase amores, a saudade de casa e a sensação de estar vivendo muitas coisas pela primeira vez. O resultado é um trabalho nostálgico, mas que encontra no otimismo seu principal ponto de equilíbrio.
“Quero ser propagadora do otimismo. A tristeza e a dúvida existem e são super bem-vindas nas canções, mas acho que, no final, quero deixar uma mensagem feliz”, diz Duda, em entrevista ao MI.
Em 2022, Duda saiu de Uberlândia rumo a Belo Horizonte para estudar, e o frenesi criativo da capital mineira acabou atravessando diretamente essa nova fase. “A cena cultural aqui é surreal. Pulsante e vibrante, isso que mais me encanta na cidade. O movimento ressignifica vários elementos clássicos da música mineira, fica evidente não só nas letras, mas, principalmente, na instrumentalização. Em todo lugar existem bolhas musicais, mas aqui isso é quase imperceptível, porque as pessoas são muito receptivas. O resultado é uma música calorosa. Existe um senso de comunidade entre os artistas, de acompanhar, comparecer, viver a cena, que é muito especial. Isso também vale para o público: eles comparecem no show, no próxima já trazem um amigo, é muito boca a boca”.
Das sete faixas, seis foram gravadas em Belo Horizonte, no estúdio Frango no Bafo, de Henrique Matheus e Thiago Corrêa. “Poeta Demais”, por sua vez, foi registrada em casa, em parceria com Beto Rosa, produtor de seus outros trabalhos. “O Henrique foi guitarrista do Lô Borges, e o Beto também é amigo dos meninos, as histórias foram se cruzando e rolou nosso match [risos]”.
12 meses, 12 músicas, 1 EP
Com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, a produção de composições também aumentou. Em 2023, para dar vazão ao material acumulado, Duda resolveu testar algo novo e publicou uma música inédita em sua rede social. A resposta foi positiva e, como janeiro é o mês oficial de tentar coisas novas, a boa ariana propôs a si mesma o desafio de compor uma música por mês.
Ao fim do processo, eram 12 músicas sobre 12 temas diferentes, e cinco delas entraram no EP. Enquanto trabalhava nessas canções, alguns artistas não saíam dos fones: Maggie Rogers, Lizzy McAlpine, Jota.pê, Gal Costa, Amy Winehouse, Clairo, Olivia Dean, Os Garotin, The Cure e Clube da Esquina. É nesse encontro entre uma nova geração do pop e diferentes tradições da música brasileira que Duda situa o trabalho. “Bati no liquidificador todas as minhas experiências, é um som vintage, mas novo, né?”, destaca.
Ouvindo o disco, também é possível perceber ecos de uma geração de compositoras brasileiras como Clarice Falcão, Tiê, Mallu Magalhães e Tulipa Ruiz. “Cresci nessa era de ouro, vendo essas mulheres poderosas, cada uma do seu jeito, e isso me encorajou muito. Elas são autênticas, falam o que pensam e cada uma canta do seu jeito”, comenta.

Um passeio pela cidade
Já entrevistei Duda em outras duas ocasiões, ambas para revistas da minha faculdade, e essa recorrência ajuda a perceber algumas mudanças no modo como ela pensa a própria música. Em nossa última conversa, ela dizia que, por mais que fosse uma cantora solo, sabia que música não se faz sozinha. Esse sentimento reaparece em Tudo nessa cidade. “Desde o óbvio, os músicos e os produtores, mas a própria vivência, uma amizade, uma aula na faculdade, o próprio amadurecimento”.
Se os trabalhos anteriores partiam principalmente de experiências íntimas, Tudo nessa cidade nasce de um movimento diferente, em que o mundo ao redor passa a ocupar mais espaço nas canções. É um EP que parece surgir de fora para dentro. Pense nele como um passeio de carro antes de encontrar os amigos: a faixa de abertura, “Liga o rádio”, já dita o tom do que vem pela frente.
Duda compartilha a origem das canções, mas não quer controlar o que elas significam para quem ouve. “A música deixou de ser sobre mim há muito tempo. O que vale é alguém ouvir sua música e ela virar a trilha sonora daquela pessoa. O artista independente só existe pelos fãs que o acompanham, e Minas está cheio de pessoas apaixonadas. Esse EP foi produzido neste novo capítulo em uma nova cidade. É esse sentimento de nostalgia, de dúvida do futuro, de felicidade. É o sentimento de viver as coisas pela primeira vez, um friozinho na barriga de andar no desconhecido, é sobre encarar as coisas com solitude, de encarar seus sentimentos e às vezes ser chamado de poeta demais por isso. E, é de perceber que essa foi a vida que você pediu e que isso pode ser celebrado”, diz.
A faixa de encerramento, “Festa”, assume justamente esse lugar de celebração. “Essa música foi ganhando muitas camadas no estúdio. É uma canção muito querida pelo público. A música começa introspectiva e vai ganhando uma alegria. Queria que o álbum terminasse com esse sentimento de você encontrou sua galera, sabe? Todo mundo começou a gravação tímido, batendo palma e cantando baixinho, no final todo mundo estava pulando, fazendo barulho”, conta.
Para o lançamento, a cantora promoveu uma listening party para cada faixa, compartilhando com o público não apenas o resultado final, mas também etapas do processo. Em “Festa”, isso chegou até a gravação: o estúdio foi microfonado e o público entrou no clima da música. “É um jeito bonito de terminar o álbum. Você entra sozinho no carro, liga o rádio, mas está indo em encontro com a sua galera, por isso tudo termina em festa”, explica Duda.
Além de cantar, compor e tocar, Duda também cuida da parte visual de seus projetos. Quando a criação passa por diferentes linguagens, da composição ao desenho, ela sente que consegue expressar melhor o que pretende dizer. “Eu faço música pensando em qual cor ela seria, como seria o clipe, o cenário do show. Gosto de me envolver nessas partes porque é uma forma de ampliar a mensagem”.
Mas se engana quem pensa que ser multiartista traz apenas vantagens. “Em oito anos de carreira já consegui perceber que não basta só compor, mas tem outras mil demandas. As coisas hoje parecem muito simples, mas essa demanda por velocidade é também muito frustrante. É um desafio conciliar as demandas do mercado com o lado artístico. No final de tudo o mais importante é a arte, mas também importa que ela chegue nas pessoas”.
Tudo Nessa Cidade já está disponível nas plataformas digitais.