ENTREVISTA: VALLADA estreia com disco de narrativas sobre o mundo artístico e carregado de muito groove
Em seu primeiro álbum, VALLADA faz da experiência no underground uma crônica sobre ambição, reconhecimento e os caminhos possíveis para seguir criando
Música sobre música e arte sobre arte são tradições milenares, mas que vem ganhando contornos diferentes nos tempos atuais. É essa temática que caracteriza UMAMI, o trabalho de estreia do artista carioca VALLADA, lançado em 30 de julho nas plataformas digitais. Fruto de uma trajetória de mais de 6 anos como músico, o artista aposta na sonoridade do pop alternativo com bastante groove como forma de contar as histórias e os sentimentos atrelados ao fazer artístico, especialmente no underground. Conversamos com ele sobre o disco e as impressões da vida de artista que renderam uma ótima conversa, disponível abaixo na íntegra.
MI: Me conta um pouco sobre o processo criativo do disco. A ideia sempre foi ser de um álbum metalinguístico de música falando de música e associar o sabor umami a esse universo artístico?
VALLADA: Não, não. Eu acho que essa ideia foi sendo construída conforme eu fui dando importância para certas músicas, sabe? Sarau de Bacana foi uma delas, porque foi a primeira que eu compus na intenção de ser o Vallada, sacou?
Eu já tinha, por exemplo, Pão com Ovo, mas eu não tinha planos de lançar Pão com Ovo. Então Sarau de Bacana foi a primeira que eu fiz nessa intenção e aí eu acho que ela foi ficando importante conforme eu fui fazendo as outras músicas e sendo mais representativa desse trabalho como um todo, sabe? É muito prazer ter essa pegada também, até por ser uma música que eu escrevi com a Helena para falar sobre isso, sobre anonimato no meio artístico, sobre não ser reconhecido e lutar por esse reconhecimento, né?
Então é uma temática do momento que eu estava vivendo muito, de também sair e conhecer novos meios, entendeu? Outros cenários, outros segmentos da música, sabe? E entender como isso funciona em cada um deles. Então, assim, não. A ideia do trabalho metalinguístico, né? O artista falando sobre ser artista é um resultado do processo, sabe? Que em alguma hora passa a nortear as músicas que a gente está fazendo, lógico. Mas não foi um negócio que eu botei na minha cabeça e fui concretizar, não.
Eu acho que a experiência e o momento que eu estava vivendo me levaram a isso, sabe? E tem aquela coisa do primeiro disco, né? O primeiro disco é meio que a história da tua vida até ali, ou parte disso, né? Eu precisei de seis anos na música para poder fazer um disco que era sobre ser músico. Então acho que faz sentido, é um acúmulo da minha vida pessoal que vira álbum.

MI: Eu queria ouvir um pouco sobre o seu rebranding, agora que você está chegando com um disco bem diferente daquele single da época da pandemia, né? E até mesmo com outro nome. O que você acha que mudou musicalmente e artisticamente, assim?
VALLADA: Então, musicalmente… Acho que o que eu busquei para essa nova fase, para essa mudança, foi explorar grooves, né? Eu olhei para o meu trabalho e eu entendi que se eu expandisse o meu conhecimento sobre ritmo, tentasse compor de formas diferentes também, buscando outras intenções, buscando fazer as pessoas dançarem, buscando fazer as pessoas balançarem o pescocinho, assim.
MI: O baixo é muito forte agora no seu som, né?
VALLADA: É, exato, exato. O baixo e às vezes a bateria também, né? E aí fica um negócio muito mais pressão, assim. Acho que eu modernizei também a parada, sabe? Algumas músicas estão em uma linguagem muito mais beat do que som banda, aí fica uma estética mais moderna, de produção mesmo. E isso também é resultado de coisas que eu estava vivendo, de eu estar começando a aprender a produzir nessa época que eu comecei a escrever o disco. E estar rodando em alguns estúdios, gravando com alguns artistas, né?
Isso foi fundamental também para eu expandir o meu horizonte. O contato com hip hop, por exemplo, foi fundamental para eu olhar para o outro lado e falar cara, talvez a minha música possa se relacionar mais com isso aqui, né? E a música urbana, de forma geral, tem muito do que eu trouxe para esse disco. O Gabriel Dias fez uma matéria dizendo que o que eu pego da música urbana é talvez a forma de contar a história, e trazer isso para um lado de narrativa pessoal, que não é muito comum, né? No indie ou na MPB. Mas foi o que fez sentido para mim no momento.
MI: E desde que você lançou Alto Mar, uma espécie de canção manifesta sobre ser artista, o que você sente que aprendeu de novo em relação a isso? Os sentimentos que você expressou naquela canção se mantêm verdadeiros com a sua realidade de artista hoje?
VALLADA: Excelente pergunta. É… Eu acho que não. Bom, na verdade, o lance sobre esse disco é que o pensamento inicial do artista é reformulado, né? Eu acho que o lance do disco é que todo o manifesto, toda a escrita de Alto Mar, claro, continua sendo real, continua sendo condizente com a realidade do artista, mas que ele ressignifica aquilo como motivação sempre.
Então, tudo bem se molhar? Tudo bem, mas assim… Eu acho que no final ele está mais, tipo, “é fundamental se molhar”, sabe? Fundamental a gente passar por esse aperto, que é o underground, independente, para se forjar artistas também, sabe? Mesmo que seja pior do que o necessário, muitas vezes. Mas eu acho que sim e não, na verdade. Acho que a resposta é essa, né? O manifesto se mantém coerente com as coisas como elas são. A dificuldade de se pôr no mundo, o tanto de frustrações que a gente passa, a necessidade de reconhecimento. Mas, de alguma forma, durante o disco, o eu lírico vai fazendo as pazes com isso e isso deixando de ser um incômodo tão grande assim.
MI: Enquanto eu ouvia o disco, eu fiquei pensando que, se encaixados em outra ordem, as faixas poderiam contar histórias bem diferentes. Como é que foi o processo de construir essa narrativa?
VALLADA: Então, muito tempo conversando com amigos, amigas, pessoas de confiança, testando várias ordens, entendendo como as músicas se relacionam uma com a outra para construir essa história. A ordem é o que define a narrativa. E a narrativa poderia, de fato, ser outra, pelo que a gente viu, pelo tanto de ordens que a gente testou. Mas essa, que é a ordem final, ela acumula conceitos de várias maneiras que a gente tentou fazer esse disco.
Então ela acaba sendo a melhor forma de contar essa história, eu acho. Não tem nada de muito arbitrário ali. Porque faz todo sentido, do ponto de vista do pensamento do artista sobre o ofício dele, sobre fazer arte, que nesse disco ele começa com um problema, com um incômodo. E esse incômodo, ele primeiro é turvo, é difícil de entender. E aí ele entende, e aí ele testifica, e aí é o alto-mar, que é o manifesto. E em Sarau de Bacana, esse conflito, ele explode.
O feat com o Oladele serve para isso. Serve para ser um momento de virada ali, onde ele entende que esse espaço que ele está reclamando de ter que ocupar, é o espaço que ele quer estar, de alguma maneira. É um espaço que ele deseja. Então o movimento do disco é um movimento de resolver essa contradição em direção à autoconfiança dele. Porque se ele não está em conflito com isso, se ele está determinado do que ele tem que fazer, de onde ele tem que estar, ele fica em paz. Então depois de Sarau de Bacana é outro disco também.
Eu acho isso maneiro, ele tem uma sensação de lado A, lado B, que eu gosto. Não só para discos com essa pegada conceitual, de narrativa, de conceito fechado, mas para a experiência do ouvinte ser um negócio interessante.
MI: O disco tem três parcerias e o show de lançamento vai contar com diversas participações. Como é que é encontrar nessa cena pessoas que acreditam no seu projeto, sabendo que às vezes a gente parte de cenários tão desintegrados, especialmente na cena carioca?
VALLADA: É maravilhoso. Eu devo muito à Nicole Almeida, que tornou essa noite possível. A gente colaborar com artistas do nosso meio é fundamental, não só porque a gente cresce, mas porque a gente está sendo artista quando faz isso.
A gente está criando uma troca, um senso de coletividade, a gente está criando relações que fermentam a cena, que fazem isso tudo fazer sentido. A arte no neoliberalismo é muito atomizada, as pessoas são isoladas nos seus quartos com seus computadores hoje em dia e tendem a fazer a coisa de forma solitária. Isso vem matando artistas também, eu digo assim, tirando a força da pessoa de continuar.
Então quando a gente tem um evento desse, que reúne quatro, cinco artistas numa mesma noite para lançar trabalho autoral, para tocar um trabalho autoral que já existe, isso fomenta a nossa existência, é um negócio que é indispensável. Não é um luxo, é indispensável, é necessário. E é uma grande conquista essa noite, vai ser fundamental.
MI: O coração do álbum está na ironia dos bastidores da música do mundo artístico. O que você acha mais desafiador no jogo entre mainstream e cena e o que te puxa mais para cada lado?
VALLADA: Eu acho que minha história me puxa mais para a cena e meus anseios às vezes me puxam para o mainstream. Acho que não existe a necessidade de equilibrar as duas coisas, porque ou você está numa ou você está na outra. Tem mais a ver com a intenção ao fazer a arte, de onde você quer estar, de como você quer se posicionar. E eu acho que o Umami brinca com essa contradição de forma interessante, porque a ideia é trazer um pop alternativo, de certa forma. Então, a gente brinca com o mainstream enquanto sonoridade, tanto presente no próprio disco. Deja Vu, por exemplo, é uma faixa que incorpora isso totalmente.
MI: É a mais pop, para hitar.
VALLADA: Exato, e ela tem essa estética, ela tem esse papo. Estou desprendido de um vocabulário mais truncado ou de fazer rimas muito espertas. É um R&B quadrado para falar coisas de intimidade, da vida. Então, eu acho que mainstream, cena e underground se relacionam dentro do disco como uma contradição, do jeito que tem que ser. E isso está presente no jeito que eu faço música, porque no meu dia a dia eu transito entre esses dois lugares. Não sendo um artista do mainstream, mas trabalhando com pessoas que estão no mainstream. Então, eu acho que como esse disco vem muito da minha experiência, essa dicotomia é parte dela.
MI: E para fechar, quais sabores você busca daqui para frente como artista independente?
VALLADA: É isso, estamos no umami, acho que depois a gente vai brincar com acidez, com agredoce, com essas coisas. Eu gosto de guiar o meu trabalho por isso, pela dimensão da falta. Eu olho e acho que falta, eu olho e acho que dá para expandir para algum lugar.
Eu acho que essa ideia de evoluir sua identidade, entendendo para onde dá para crescer. Eu não sei o que vai ser o próximo trabalho, não estou nem pensando nisso, mas eu já tenho muitas referências e muitos insights do momento atual que eu estou para fazer um próximo trabalho. Porque é isso, a gente vai amadurecendo e coisas novas surgem.
Vamos ver, acho que depois do umami vem coisa boa. Acho que vem coisa muito boa. Mas vem também um, posso falar?
Um umami deluxe. É mesmo. Vai rolar um deluxe.