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“Music, Fashion, Film”: Charli entre a criação e a finitude

Foto: Caitlin Cronenberg

Depois do auge de Brat, Charli XCX encara a finitude, abandona fórmulas seguras e encontra no rock um novo campo para criar sem pedir licença

A festa chega ao fim. As luzes eventualmente se apagam. Um dia fecharemos os olhos para nunca mais abrí-los. Diante da certeza de que tudo termina, o que nos resta? Essa é uma das inquetações que guiam “Music, Fashion, Film“, sétimo disco de Charli XCX. Longe do som electroclash e maximalista que definiu “Brat“, o novo álbum flerta com a estética do rock em uma abordagem minimalista e despojada, atravessada pela assinatura experimental e irreverente que sempre definiu o trabalho de Charli.

O memento mori (lembre-se de que você vai morrer, do latim) proposto por esse disco não é um um convite ao niilismo fajuto que vem tomando conta do discurso cultural – pelo contrário! É um chamado à criação. Essa vertente existencialista atravessa todo o álbum de forma sublime, mas assume sua forma mais evidente na última faixa “No One Lasts Forever”, que conta com uma gravação de uma conversa de Charli com David Cronenberg, cineasta canadense. Relatando uma experiência de quase morte, Cronenberg confessa que apesar de que a arte de diversos artistas permaneceu relevante milênios após as suas mortes, o reconhecimento, crítica e a opinião pública não os atingem mais, pois “eles morreram, eles se foram, nada dura para sempre”.

Após o sucesso sem precedentes de “Brat”, a pressão por um novo disco com o mesmo alcance poderia fazer Charli repetir fórmulas para atender expectativas. Mas é justamente diante da conclusão de Cronengberg de que tudo é finito (e a fama não escapa dessa lógica), que Charli decide criar o que ela realmente deseja. Livre da necessidade de corresponder a todas as expectativas do público, “Music, Fashion, Film” se apresenta como o registro, experimental e cru, de uma artista interessada em explorar novas possibilidades.

Seguindo essa lógica, “Rock Music” abre o álbum zombando da pretensão do meio artístico, mas sem poupar a si mesma. A autoconsciência é uma das dádivas de Charli, que reconhece a ironia de ir de “When I go to the club i wanna hear those club classics” para “I think the dancefloor is dead”. A mudança brusca não é apenas discursiva, mas sonora. A estética eletrônica dá lugar às guitarras, o maximalismo vira aspereza e a produção, assinada por A. G. Cook, encontra uma interseção interessante entre o rock alternativo e o pop experimental de Charli.

Essas características se fazem presentes em todo o disco, de formas diferentes. “SS26” é uma faixa um tanto melancólica, em que Charli se pergunta qual é o lugar do glamour e da fama num mundo caindo aos pedaços – num arranjo simples, mas que conta com uma das guitarras mais marcantes do disco. “Card Declined” se aproxima do grunge de forma interessante, porém sua letra um tanto frouxa não faz juz à potência sonora da faixa. “Persona” é um dos momentos mais fortes do disco – a faixa narra uma artista presa a uma persona mentirosa. Seja uma autocrítica ou um retrato de outra artista, a faixa tem um dos arranjos mais potentes e um dos refrões mais cativantes do disco. São diferentes manifestações de uma ideia sólida, e Charli se mostra uma artista que não tem medo de se colocar em risco: experimentar, até errar e abraçar o seu processo.

Com apenas dez faixas e cerca de trinta minutos, “Music, Fashion, Film” é um disco compacto, mas muito bem posicionado. Há algo de louvável em uma artista que, diante da mortalidade, permanece fiel ao seu princíprio criativo. Se tudo que criamos permanece após a nossa partida, e será interpretado ou lido de formas que jamais poderemos controlar, talvez o ato artístico seja uma preparação para a nossa própria morte.

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