O futuro pode ser solitário, mas o Strokes ainda quer (e vai, aceitem) chegar até ele
Em Reality Awaits, a banda troca a segurança da nostalgia pelo risco, abraça o Auto-Tune e reafirma que sua relevância nunca dependeu de repetir Is This It
Existe uma expectativa quase cruel em torno de cada novo álbum do The Strokes: a de que cinco homens agora próximos da meia-idade retornem ao exato instante em que lançaram Is This It, em 2001, e mudaram o rumo do rock daquele começo de século. Como se fosse possível (ou até mesmo desejável, chega a ser cruel) reproduzir para sempre a juventude, a urgência e as circunstâncias que deram origem àquele disco.
Reality Awaits, sétimo álbum da banda e primeiro desde The New Abnormal, de 2020, não tem qualquer interesse em cumprir essa missão. Produzido novamente por Rick Rubin, o trabalho assume a passagem do tempo, a estranheza e a liberdade de um grupo que já não precisa provar que sabe escrever riffs memoráveis.
Essa talvez seja a principal chave para entender o disco, já que o Strokes já atravessou o sucesso, as brigas, os hiatos, os projetos paralelos, as expectativas impossíveis e o peso de ter se tornado referência para diferentes gerações. Será que eles opdem simplesmente ficarem interessados em descobrir até onde sua música ainda pode ir? Parte do público não aceita isso de jeito nenhum.
Parte do público simplesmente não aceita que artistas façam ARTE e… corram riscos.
Sim gente, o auto-tune deixa de ser apenas uma correção vocal e passa a funcionar como linguagem, ele faz isso, ja deu 300 mil entrevistas explicando o porquê. A voz do Julian Casablancas vai sempre estar distorcida a partir de agora, artificial, por vezes quase separada do corpo que a produz. Mas o que queriam, afinal? Um Axl Rose que fica lá se esgoelando porque não aceita que seu timbre mudou? A escolha já dividiu a crítica, pois enquanto parte das resenhas viu no recurso um sinal de renovação e uma aproximação fértil com a liberdade experimental do The Voidz, outras consideraram que o efeito sufoca as guitarras e a presença dos demais integrantes.
Mas exigir “pureza” de uma banda que nunca parou de conversar com sintetizadores, new wave, música eletrônica e produção digital parece uma cobrança pra lá de estranha. Casablancas vem usando a voz como instrumento plástico há anos, principalmente com o The Voidz. Depois de Daft Punk, hyperpop, Brat e de toda uma geração que deixou de tratar o auto-tune como pecado, o incômodo diz menos sobre falta de técnica e mais sobre o desejo de manter o The Strokes preso a uma ideia antiga de rock.
Eu amo que eles se recusem a ser isso.
O resultado não supera The New Abnormal, a gente sabe disso. Aquele disco carregava uma densidade emocional difícil de repetir, atravessada pelo fim de um casamento do Julian, pelo desgaste entre os integrantes e por uma sensação muito particular de perda. Reality Awaits soa como o que vem depois disso e não mais o momento da ferida aberta, mas o processo confuso de digerir o que aconteceu e tentar entender o que sobrou dos cacos.
Em “Lonely in the Future”, essa solidão ganha uma dimensão maior do que a simples melancolia romântica, como se o futuro prometido pela tecnologia, pela hiperconexão e pelo progresso tivesse chegou com muito mais ônus do que esperávamos. A faixa está entre os melhores momentos do álbum justamente porque preserva a habilidade de Casablancas de escrever sobre alienação sem convertê-la em slogan.
“Going to Babble On” também encontra força em um arranjo quase desordenado, dá pra ver muitas características ali do Strokes antigo, soando sem perder o impulso melódico que sempre sustentou a banda até aqui. Já “Going Shopping” talvez seja a síntese mais clara da leitura que o grupo faz do presente com uma letra que observa consumo, imagem e comportamento contemporâneo com um humor bem ácido. Viram a thumb usada no vídeo do canal oficial no Youtube? Eles usam a estética dos rostos, cores, chamadas e estratégias criadas para disputar atenção de youtubers. Não é um detalhe decorativo, sabe, é parte da maneira como o The Strokes acompanha todas as trends que estão rolando.
“Liar’s Remorse”, por sua vez, concentra o lado mais emocional do repertório. É uma faixa que não precisa imitar a crueza dos primeiros discos para soar verdadeira, mostrando uma maturidade que eu não esperava. Existe sim, uma consciência de arrependimento, culpa… amo ser a terapeuta de cinco marmanjos. Mas ok, marmanjos legais, vai…
Claro que nem todas as escolhas funcionam com a mesma força, eu confesso. Mas até os tropeços revelam uma banda disposta a testar os próprios limites, e isso ainda é muito mais interessante do que vê-la se acomodar numa versão genérica de si mesma. O pior destino possível para o The Strokes não seria lançar um disco irregular. Seria se tornar uma banda de repertório, reproduzindo uma fórmula segura para plateias nostálgicas, como se sua história tivesse terminado no início dos anos 2000.
Também há algo importante no modo como o grupo renova seu público. Mais de duas décadas depois de Is This It, o The Strokes continua chegando a ouvintes que não viveram sua “era de ouro”. Nos últimos shows, isso fica bem evidente, bastando uma pesquisa no tik tok pra ver a juventude em peso cantando todas as músicas e se divertindo com isso.
Essa permanência não acontece apenas porque “Last Nite” ou “Reptilia” sobreviveram, mas sim porque artistas mais jovens continuam reconhecendo em Casablancas e na banda, a possibilidade de ser pop, estranho, melódico, arrogante, político, engraçado e melancólico ao mesmo tempo. Grande parte das canções que fazem mais sucesso com o público são do The New Abnormal, aliás.
É impossível escrever sobre o The Strokes com completa neutralidade quando a banda acompanha parte importante da sua vida, mas eu juro que tentei ser o mais neutra possível. Mas gostar de um artista também não significa aceitar qualquer coisa sem crítica, então isso significa também, desejar que ele continue se arriscando, mesmo quando o resultado incomoda muita gente.
Reality Awaits não é um novo Is This It e NÃO PRECISA SER. O passado já cumpriu seu papel e me parece que o Strokes está cada vez mais próximo do futuro e, por mais solitário, artificial ou confuso que ele pareça, ainda quero acompanhar a banda até onde conseguir chegar.
Agora que já despejei tudo aqui, bora dar o play e ouvir o disco sem esperar que ele seja algo de um tempo que nunca mais vai voltar (ainda bem!!!):