★ Notícia

Chisme anuncia edição para 2026 e se consolida como ponte de integração entre os países do Sul da América Latina

Festival acontece no dia 28 de novembro e anuncia line-up que reforça o festival como uma ferramenta que vai muito além da música, aproximando o Rio Grande do Sul de uma identidade latino-americana de um jeito não convencional

Estive nesta semana no lançamento do line-up da edição deste ano do Chisme, um festival que se consolida como um dos mais importantes da cena indie latina. Pode parecer óbvio quando olhamos um mapa, mas, culturalmente, criar um festival cujo objetivo é aproximar cada vez mais os países do Sul da América do Sul talvez seja uma das ideias mais importantes que um festival brasileiro tenha decidido defender hoje.

A programação nos ajuda a entender isso, sem dúvida. Assim comos nas duas edições anteriores, estarão por lá nomes históricos como Aterciopelados, um dos pilares do rock latino-americano, o uruguaio Daniel Drexler, além da Rueda de Candombe, Mitú, Rosa Pistola e a cumbia villera dos Los Pibes Chorros. Só que é um erro resumir o Chisme somente pelos artistas que estão no line-up! Mas prometo que estará no final deste texto o nome de todos os artistas incríveis que fazem parte dessa edição.

Saí do Espaço 373 com a sensação de que o festival encontrou um caminho para cumprir o papel de criar pontes de integração cultural na América Latina, já que o que está sendo construído ali é algo bem mais profundo. Durante muito tempo, o Rio Grande do Sul cultivou uma identidade própria bastante forte (não é novidade que ser sulista virou sinônimo de coisas ruins e de um bairrismo que mais nos atrapalha do que nos faz ir adiante), que acabou nos desconectando do restante da América Latina. O Chisme faz com que a gente relembre que o pampa nunca respeitou fronteiras: ele é único e, por isso, a música é a maneira mais fácil de nos aproximar.

A milonga atravessa Brasil, Uruguai e Argentina, enquanto o candombe chegou ao Sul pelas diásporas africanas. Nossas influências indígenas, ibéricas e afro-latinas aparecem na música, na comida, na linguagem e na forma como fomos explorados, como ocuparam nossos territórios. O festival parte dessa mistura para defender que ser gaúcho não é o oposto de ser latino-americano, mas sim uma das formas possíveis de viver essa latinidade. Tudo isso é traduzido no conceito desta edição, com a frase “Que nunca muera el folclore”. E faz tanto, mas tanto sentido!

Não existe ali uma ideia de folclore congelado, preso à tradição ou transformado em algo retrógrado que já estamos cansados de ver por aí. Muito pelo contrário, o festival entende tradição como algo vivo, capaz de dialogar com o reggaeton underground, com o jazz afro-brasileiro, com a música eletrônica etc. Digamos que é um folclore em movimento, um folclore 2.0.

Nos últimos anos, os argentinos viram crescer um fenômeno cultural que conquistou as novas gerações. Criado pelo músico, ator e apresentador Mex Urtizberea, o projeto Esto es ¡FA! recebe convidados entre grandes artistas, além de entrevistas descontraídas e, claro, muita música. Os encontros acontecem na sala da casa de Urtizberea, onde há instrumentos musicais espalhados e um clima aconchegante para receber convidados. Conheci o projeto porque o Milo J faz parte de forma muito ativa e importante, já que, além de ter participado como convidado musical cantando em várias sessões, a relação dele com o projeto se intensificou oficialmente quando ele se juntou à equipe, tornando-se diretor criativo em 2025.

Tanto o festival quanto o programa funcionam como ferramentas de integração cultural na América Latina, unidos pelo propósito de atualizar e dar frescor às suas próprias tradições musicais. Enquanto o Chisme ocupa o Rio Grande do Sul celebrando o conceito do “pampacore” e provando que o folclore está vivo e conectado às pistas de dança, o Esto es ¡FA! materializa essa mesma filosofia em Buenos Aires através de suas sessões íntimas.

Ao promoverem esse diálogo geracional e sem barreiras entre a milonga, o rock, o folclore e as batidas urbanas contemporâneas, ambas as iniciativas transformam a identidade regional em um manifesto moderno, em uma simbiose musical onde a milonga, a cumbia e as batidas contemporâneas não apenas coexistem, mas se reinventam sem amarras geográficas ou geracionais.

Outro detalhe que chama atenção é que o Chisme não existe apenas durante um dia de festival. Com uma programação paralela que inclui o venezuelano Babatr, os peruanos Los Mirlos e um evento gastronômico ainda não revelado, ele se firma como um verdadeiro espaço, uma plataforma cultural permanente, interessada em investigar as relações entre memória e identidade.

Nos últimos anos, artistas vêm aproximando brasileiros de uma produção latino-americana que sempre existiu, mas que raramente chegava até nós com tanta força. O Chisme faz parte desse movimento, só que olhando especificamente para o Sul do continente. Veja bem: não se trata apenas de trazer artistas estrangeiros para Porto Alegre, mas sim de lembrar que talvez eles nunca tenham sido exatamente estrangeiros, sabe? Porque, antes das fronteiras políticas, sempre existiu um território compartilhado por músicas, sotaques, ritmos e histórias que continuam atravessando o pampa até hoje.

SERVIÇO
3º Chisme Festival – Que nunca muera el folclore
!
Dia 28 de novembro, sábado, a partir das 14h
Jockey Club do Rio Grande do Sul (Av. Diário de Notícias, 750 – Cristal – Porto Alegre/RS)

Atrações confirmada
Aterciopelados (COL)
Los Pibes Chorros (ARG)
Kleiton e Kledir (RS)
Amaro Freitas (BRA)
Rosa Pistola (MEX)
Rueda de Candombe (UY)
Borghetti Trio (RS)
Piolinda Marcela (COL)
Juana Aguirre (ARG)
Valéria Barcellos (RS)
Daniel Drexler (UY)
Mitú (COL)
Roda de Milonga (RS)
Rosa Nika & Musa (RS)
DJ Arú (BRA)
Lambada da Serpente (BRA)

Programação paralela
Babatr (VEN) – 12 de setembro, em local a ser revelado
Los Mirlos (PER) – 5 de novembro, em local a ser revelado

Ingressos: https://tri.rs/event/chisme-festival-2026-a187e7

Autor

  • Desde 1990 tendo uma vida incrível com uma trilha sonora sempre interessante e diariamente atualizada. Jornalista, comunicadora e ligada no 220v. Presença confirmada em festivais e shows que mantêm meu ritmo cardíaco saudável.

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