QUASE RESENHA – O Futuro é Sombrio, Terrivelmente Sombrio
Treze anos é tempo suficiente para muitas coisas morrerem. O mundo gira várias vezes sobre seu próprio eixo. Durante todo esse tempo, os Boards of Canada permaneceram em silêncio e, posteriormente, começaram a enviar fitas VHS sem remetente para endereços aleatórios de fãs. Além disso, ressuscitaram um site que exibia apenas a mensagem “nobody home…” Ainda assim, foi exatamente como precisava ser.
Inferno é o álbum mais sombrio da carreira deles — e a menção ao inferno não é apenas decorativa: o disco está repleto de referências bíblicas, ocultismo e cosmologia. Títulos como “Hydrogen Helium Lithium Leviathan“, “Naraka” e “The Word Becomes Flesh” não deixam muito espaço para dúvidas sobre o território que Mike Sandison e Marcus Eoin escolheram habitar. Inferno parece realmente preocupado com o presente. Não se trata de nostalgia. É um diagnóstico.
A abertura com “Introit” dura menos de quarenta segundos e já te coloca dentro do disco como quem te empurra gentilmente pro fundo de um lago. Depois vem “Prophecy at 1420 MHz” e aí o negócio fica sério: bateria ao vivo, guitarra, amostras de voz que circulam ao redor de algo sagrado sem nunca nomeá-lo. É uma faixa que muda de forma enquanto você ouve, como se fosse três músicas diferentes que só fazem sentido juntas.
O que me surpreendeu foi a presença de instrumentos ao vivo por todo o disco. Não é que BoC nunca usou guitarras ou bateria — mas aqui eles criam uma textura que soa orgânica de um jeito que nenhum disco anterior alcançou. “Somewhere Right Now in the Future” vai pra um território quase dream pop que parece impossível vir da mesma dupla que fez Tomorrow’s Harvest. E funciona. Desconcertantemente.
“Age of Capricorn” e “Naraka” são os momentos em que o disco mais aperta. Não tem leveza ali, não tem saída fácil — é peso eletrônico sobre peso eletrônico, como caminhar dentro de algo que você não consegue identificar mas que definitivamente te identifica. Com 70 minutos exatos — número que a dupla usa com frequência suspeita ao longo da carreira — Inferno não é um disco pra ouvir pela metade. Você entra, ou não entra. E se entrar, vai demorar um tempo considerável pra sair.