João Carvalho encontra vida nas ruínas em “Uma Festa no Centro do Vazio”
Entre ruínas, espiritualidade e memória, músico mineiro transforma paisagens atravessadas pela mineração em um disco de folk-rock psicodélico e contemplativo
Uma Festa no Centro do Vazio, novo álbum de João Carvalho, chega às plataformas nesta quarta-feira (17) como um ponto de condensação das inquietações recentes do artista mineiro. Primeiro trabalho solo lançado por ele desde a pandemia, o disco organiza uma investigação sobre os limites entre humanidade e natureza, partindo tanto de experiências vividas em territórios afetados pela mineração quanto de uma reflexão mais ampla sobre mitos de criação, espiritualidade e memória.
Inspirado pelas viagens de João pelo interior de Minas Gerais e do Espírito Santo, onde teve contato com comunidades ribeirinhas e povos tradicionais, o álbum transforma paisagem em linguagem. As nove faixas evitam o discurso puramente contemplativo: a natureza não surge como cenário idealizado, e sim como matéria viva, atravessada por ruínas e lembranças soterradas. O disco caminha entre a errância e o peso da terra, tentando compreender o que permanece quando o território está deslocado.

Produzido por João Carvalho ao lado de Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo, no Estúdio Cais, o álbum expande o folk-rock já presente em seus trabalhos com Sentidor e El Toro Fuerte. A sonoridade articula o tensionamento melancólico de Fleet Foxes e Radiohead à densidade de uma tradição brasileira que passa por Clube da Esquina e Metá Metá, em uma estética que transita entre psicodelia, transe e canção, fazendo da escuta um modo de acessar as memórias inscritas na paisagem.
O título, retirado de um poema de Roberto Juarroz, sintetiza o gesto central da obra: encontrar movimento no vazio e vida naquilo que foi soterrado. Com participações de Clara Bicho, Fernando Motta, Ciro Trevisan, Jovana Trifunovic e Fábio de Carvalho, João Carvalho não amplia seu repertório por acúmulo de referências ou participações, mas ajusta o foco de sua produção atual através de uma escuta atenta dos corpos, dos territórios e das memórias que atravessam sua composição.
Ouça Uma Festa no Centro do Vazio nas plataformas: