No Radar: Boia é a banda jovem demais pra soar tão pronta
Entre MPB, ecos de jazz, sopros e arranjos sem pressa, o sexteto paulista estreia com três músicas que soam pequenas no formato, mas grandes no detalhe.
Num momento em que muita coisa parece feita para caber em quinze segundos, a Boia chega pelo caminho oposto. É aquele tipo de achado que faz a gente parar o que está fazendo para prestar atenção no que acontece entre uma entrada de sopro, uma linha de baixo e uma frase que fica ecoando depois da música. Formado por Luli Mello, Murilo Kushi, Leo Bergamini, Murilo Costa Rosa, Tato Quirino e João Decco, o sexteto paulista lança seu primeiro EP provando que deixar a música ocupar espaço aos poucos ainda pode ser um dos melhores caminhos.
Neste trabalho auto-intitulado de três faixas, o grupo parte da canção brasileira, mas não se acomoda nela. Guitarras, sopros, violão de nylon, baixo e bateria conversam o tempo todo em arranjos que misturam MPB, jazz e rock progressivo sem transformar isso numa coisa difícil de entrar. Para quem acompanha a cena atual, dá para imaginar a Boia em algum lugar entre a leveza de O Terno e Varanda, a acidez de Ana Frango Elétrico e uma tradição de música popular que aparece mais como ponto de partida do que como molde.

Mesmo com os integrantes na faixa dos 20 anos, o mais interessante é que nada ali soa como virtuosismo chato. Em faixas como “Olhe teu lado” e a homônima “Boia”, aberta pelo ótimo verso “Sob o mar ainda boia o mundo”, a prioridade é sustentar atmosferas em vez de dar carteirada técnica. Em “Qualquer dia”, a repetição de “Foi um dia a mais na nossa vida” bate pesado justamente por não tentar ser rebuscada demais. A Boia entende que, muitas vezes, a simplicidade é o que mais conecta.
Essa química orgânica tem explicação. Antes de chegar ao estúdio, a banda já vinha circulando pelos palcos e eventos da noite paulistana desde o ano passado, passando por lugares como Picles, Porta Maldita e Inferninho Trabalho Sujo. Essa bagagem de palco, somada ao fato de todos terem estudado música juntos na Unicamp, faz com que o EP não soe fabricado em laboratório, mas lapidado no encontro real entre os músicos.
Vale acompanhar agora, enquanto tudo ainda parece estar começando a ganhar forma. Com só três músicas, a Boia já dá conta de mostrar um caminho: uma banda que conhece bem a tradição, mas não parece interessada em ficar presa nela. Não é uma estreia que chega gritando. É daquelas que vão ocupando espaço aos poucos — e quando percebe, já está voltando para ouvir de novo.