Vinícius Tavares estreia com EP que conecta coco de roda, ruídos industriais e eletrônica
A fricção entre a cultura popular nordestina e a música eletrônica contemporânea move Zé do Cão, Cap. 1, EP de estreia do cantor, compositor e produtor pernambucano Vinícius Tavares. Lançado em 1º de maio pelo selo Facção de Arte, o trabalho de sete faixas parte de Toritama, polo da indústria têxtil no Agreste de Pernambuco, para construir uma paisagem sonora atravessada por tradição, maquinário e experimentação.
Inspirado no personagem Zé do Cão, do filme A Noite do Espantalho (1974), de Sérgio Ricardo, Tavares retrata a vivência no interior do Brasil sob uma ótica experimental. A sonoridade mergulha no eletrococo, conectando o coco de roda a programações eletrônicas, samples e ruídos industriais, como sons de máquinas de costura e linhas telefônicas. A instrumentação cruza o orgânico e o digital: pandeiro e viola dividem espaço com sintetizadores MIDI, guitarra, baixo e o saxofone soprano de Virgínia Guimarães.
“A música que faço é ligada ao território em que vivo”, explica Vinícius. “Toritama abriga o maior polo da indústria têxtil brasileira. Ao mesmo tempo em que vemos o desenho das serras na paisagem, também estamos constantemente em contato com esse maquinário produtivo e com um fluxo intenso de pessoas cruzando o estado.”
Essa multiplicidade geográfica e cultural também aparece na performance vocal do artista. O canto remete aos aboios dos vaqueiros, explorando a amplitude da voz nos serrotes do Agreste, e se aproxima de flows marcados pela influência do repente e da embolada. O EP amplia essa narrativa regional com participações da cena pernambucana, incluindo Jéssica Caitano, Virgínia Guimarães e Tatá Farias.
Na pesquisa lírica, Vinícius reverencia as raízes sem abrir mão de uma escuta contemporânea — ou, como ele próprio define, “caba high-tech”. Entre samples e interpolações que passam por filmes regionais, pelo pensador Nêgo Bispo e pelo poeta Pinto do Monteiro, Zé do Cão, Cap. 1 se firma como um registro imersivo da produção independente feita a partir do Agreste pernambucano.