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ENTREVISTA: Vita faz convite íntimo para sua badalada casa em Vita’s House

Chegando já com o pé na porta, Vita Pereira (ex-Irmãs de Pau) lançou seu primeiro álbum solo em abril, o Vita’s House, que já nasceu aclamado pelos clubbers. Fomos convidados a visitar essa casinha para um bate-papo, em que Vita comentou sobre a transição para a carreira solo, os pilares conceituais e experimentais de seu disco e, claro, os desafios de transitar na cena independente. 

Confira abaixo a entrevista na íntegra!

MI: Você está dando um grande passo adentrando essa nova fase, com o Vita’s House. Eu queria saber um pouco como é que está sendo essa transição para carreira solo, e ouvir de você os maiores desafios e as maiores expectativas também pro que você vai colher com esse álbum.

VITA: Cara, tá sendo um processo muito gostoso, Rafa, eu acho que tá sendo um processo que tem muito a minha verdade, tem muito eu, do começo ao fim de tudo. E tá sendo muito, muito gostoso de trabalhar com outras pessoas, já continuar também trabalhando com muitas pessoas que eu já trabalhava há anos, voltar a trabalhar com muitas pessoas que eu não tinha… com quem eu comecei trabalhando, aí a vida levou pra outro lugar e agora a gente voltou a trabalhar juntas. Então eu tô muito feliz, assim, sabe? 

Eu acho que tem muitas dificuldades, tem muitas questões que podem ser empecilho, mas eu me preparei muito, Rafa, pra isso, assim, sabe? Tive um planejamento de investimento, de produção, de financeiro, assim, eu tenho me cuidado em todos os níveis, assim, espiritual, em tudo.

Então acho que eu me preparei pra estar onde eu sou hoje, assim, sabe? Eu falei bastante pra amigas minhas, né, eu vou fazer 30 anos esse ano, em outubro. Eu preciso estar num projeto que tenha a minha cara, a minha verdade, tenha eu em tudo, sabe?

Então eu tô muito feliz, eu acho que a questão pra gente que é mais difícil e que não é só pra mim, que eu acho que é pra todo artista independente do underground, que é a questão financeira, sabe? Ainda pra gente é muito caro, produzir uma música, lançar um clipe, colocar nas plataformas, enfim, todo esse mecanismo, desde produzir a pré-produção da música, a produção da música, a finalização, esse é um processo muito caro pra gente ainda. Então acho que, pra mim, que sempre foi pras Irmãs de Pau, essa grande questão também continua sendo, mas eu não vou deitar, né, não vou deitar, não deitei, mostrei que eu não deitei!

MI: Ah, é isso, tem que estar com essa energia mesmo. E falando nisso de você querer colocar a sua verdade, né, eu enxergo muitas dualidades nesse disco, tanto musicalmente, com você passeando ali no funk, no eletrônico, como também até de temáticas, assim, meio sagrado, meio profano… Eu queria entender se você pretende se firmar em alguma coisa só em algum momento, ou se você vai pavimentar o seu caminho na experimentação e na transição.

VITA: Pô, Rafa, eu sempre fiz muita coisa, né, eu sempre, mesmo nas Irmãs de Pau, antigamente, eu, na verdade, comecei na performance, fui pra academia, espaço intelectual, passei na produção, na gestão, enfim, eu fui pra várias coisas, no cinema, no teatro… Por exemplo, o funk, eu me considero uma funkeira, né, uma cantora de funk, experimenta outras coisas com o funk, com ou sem o funk também, então acho que isso eu nunca vou perder de vista, nunca vou abandonar, porque eu acho que é preciso ter um rumo também, é preciso ter uma coisa que me finca, que eu consigo pisar no chão e falar assim, esse é o meu chão, esse é o meu território, essa é a minha casa.

Então eu acho que o funk é um lugar em que eu me sinto confortável, é um lugar que eu amo, eu cresci escutando funk e rap, mas é um lugar que não pode ser uma prisão, eu sinto que o funk não pode ser uma prisão. Qualquer coisa que eu faço tem que ser um espaço, uma casa, um território, uma fundação que eu adentro e permaneço e entre nela, e que eu consiga ter liberdade, então acho que a experimentação, ela é sempre bem-vinda, porque eu gosto de uma coisa, que é viver a vida como ela é, mas para além disso, de sempre estar na linha de risco também, de sempre estar com aquele frio na barriga, de saber, ai, será que vai gostar, será que não vai gostar, porque quando a gente tá no conforto, a gente começa a operacionar uma fórmula que dá certo de sucesso, que é legal, que a gente vê que dá certo para muitos artistas, mas quando a gente também tá nesse espaço de, ai meu Deus, eu vou lançar um álbum agora, 17 faixas, será que a galera vai gostar, será que a galera vai, tipo assim, ver a minha voz de uma outra forma, isso me deixa tão viva, que eu tenho gostado tanto de estar nesse lugar. Eu acho que a experimentação é o único lugar que eu posso permanecer com a dúvida, sabe, eu aprendi que a dúvida, ela não é um lugar ruim para mim, assim, sabe, eu tenho muita certeza do que eu quero para a minha vida, do que eu quero, porque eu faço, mas eu acho que a dúvida, eu aprendi a colher a dúvida, eu acho que falando sobre isso, também aprendi a lidar com as minhas próprias inseguranças, com as minhas próprias vulnerabilidades, assim, sabe, eu acho que a experimentação é esse lugar também.

MI: Nossa, que lindo, tô até emocionada aqui, juro! E agora, pensando como esse sentimento refletiu para você, para montar o álbum, como funcionou o processo da tracklist do álbum? Parece que começa no house, passeia ali pelo funk, pelo dancehall, várias coisas, e você volta para o house depois. Como foi montar isso no formato do álbum, assim, de querer contar essa história e aí formar esse projeto final?

VITA: Eu acho que a primeira questão foi contar essa história dentro da casa e usar os cômodos da casa para localizar as pessoas, tanto com o gênero, tanto com a composição que a gente queria falar. Então, por exemplo, o álbum começa no banheiro, a gente tem duas músicas de house, né, a gente tem Santo Forte e Corpo Vazio que estão dentro do banheiro, depois a gente passa pelo corredor e do corredor a gente vai para o quarto. A maioria das músicas que são dancehall são no quarto, na verdade, todo o bloco de dancehall é dentro do quarto, com uma música 20 quilates, então, a gente falou que é como se a gente apresentasse para as pessoas que cada cômodo tem a sua textura, cada cômodo tem os seus móveis, cada cômodo tem a sua forma de estar e habitar nessa casa, então, foi muito importante. 

Eu sabia que eu queria fazer um álbum que tivesse o house contando essa narrativa, que começasse, que tivesse no meio, que tivesse no final, então, acho que se a gente tivesse feito um primeiro bloco de house, segundo bloco de dancehall, terceiro bloco de funk, ia parecer, às vezes, que tinha três EP dentro de um álbum, né, e se a gente não conseguisse amarrar isso sonoricamente, como a gente conseguiu amarrar, ia aparecer disso. Então, eu fiquei muito preocupada de começar com house e terminar com house, principalmente, por exemplo, quando a gente termina com um ponto, e geralmente os pontos estão num ambiente mais leve, mais tranquilo, tem uma percussão, tem um tambor, tem umas coisas ali que dão uma agitada, mas eu queria que estivesse muito para cima, então, acho que o Brunoso conseguiu muito captar isso que eu quis. 

Desde o começo, foi um álbum que foi pensado para ser muito grande, da Tracklist, a gente tinha pensado em 26 faixas no início, a gente não, eu, né, eu sou a maluca, que queria 26 faixas, e depois a gente foi tirando algumas coisas. Eu sinto que eu não poderia ter feito um álbum menor, porque eu acho que ia estar faltando alguma coisa, porque acho que a pesquisa foi tão interessante, a vivência foi tão interessante, a conceitualização do álbum foi tão interessante que acho que 17 faixas deu o tom de tudo que eu queria falar, de todos os cômodos, de tudo que eu queria percorrer, para acabar o álbum falando que agora o meu corpo é a minha casa, né, o meu corpo no mundo é a minha casa, não é só a casa material, a gente fala, começa falando sobre a casa material, a gente fala sobre a casa quanto uma metáfora, mas termina o álbum falando sobre o meu corpo no mundo, que daí já abre caminho para os próximos trabalhos. 

MI: É, aí também, pegando um pouco do que você falou sobre suas várias versões e até a versão da academia, me lembrou que eu acho que numa entrevista, não sei se foi do Numanice, que estavam perguntando sobre teorias queer, teorias raciais que inspiravam você e a Isma, eu acho que você falou do conceito do tempo espiralar, da Leda Maria Martins. Eu achei isso legal, e queria saber se para construir o Vitas House essas referências antropológicas e sociológicas apareceram de alguma forma.

VITA: Com certeza, eu acho que, por exemplo, na questão do show, do álbum, eu uso o tempo espiralar no sentido de: o show tem começo, meio e começo, né, o show não acaba, então acho que eu não poderia fazer uma coisa que estivesse, ah, vamos começar, vamos ter um meio, vamos terminar, porque eu acho que isso não condiz com o que eu acredito. Tem um outro teórico que eu conversei muito, com o Taj Mahal, quando a gente teve essa vivência, que a gente estava conversando sobre o Paul Preciado, e a gente estava falando sobre essa ideia de corpo e tecnologia e poder que o Paul articula, né, então acho que corpo vazio nessa faixa, que a gente está falando sobre disforia, a gente está falando sobre como, às vezes, se olha no espelho e não se enxerga daquilo que a gente quer ser, é entender como o corpo é socialmente construído, ele nasce vazio, e então, a partir das tecnologias de poder, a partir dos dispositivos, dessas, dessas, da farmacopornografia, de várias coisas que articulam essa ideia de poder, elas vão preenchendo esse corpo, de gênero, de raça, de classe, de reproduções. 

Acho que o Paul Preciado, Lélia Gonzalez, que fala que o negro no Brasil precisa ter nome e sobrenome, eu não lembro, mas eu tenho quase certeza que é ela, e a Beatriz Nascimento, acho que para mim foi muito importante esse conceito, essa frase, esse pensamento que eu vi, porque eu falei assim, o primeiro álbum precisa levar o meu nome, as pessoas precisam entender que esse é o meu álbum, que agora é a Vita, então acho que, tipo assim, para além disso, tem tantas outras, tipo J. Mombasa, que eu sou muito fã, Castiel Vitorino Brasileiro, Ventura Profana, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, enfim, tem muitos teóricos, que acho que tem uma coisinha ali, ou na pesquisa, ou na imagem, ou na forma de compor. 

De alguma forma, tem muita do pensamento negro radical, tem muito do pensamento do teatro negro, tem muito da performance queer, tem muito do discurso de corpos dissidentes, assim, brasileiros, principalmente.

MI: Ai, que maravilha isso, realmente, como história completa, assim, né. E agora, pensando mais nessa, no que você puxou, assim, de outras referências de música, assim, agora, você mencionou algumas agora, né, tipo Jup do Bairro, Linn da Quebrada, mas eu queria falar um pouco sobre as colaborações dos artistas, com os artistas, né, que eu acho que é um dos traços mais marcantes do álbum. Você pegou uma galera ali da cena eletrônica e mobilizou todo mundo, tanto quem veio antes, como quem tá fazendo agora. Como que você se sente, assim, encabeçando esse movimento de integrar essa cena, né, que é uma coisa que falta, né?

VITA: Total. Eu estava no começo dessa galera que veio antes de mim, mas assim, em muitos momentos, eu já tive muito set de Badsista, por exemplo, assim, sabe, na Mamba e várias outras festas. Então, tipo assim, já conheço ele há muito tempo, assim, por exemplo, que é uma coisa que é uma grande referência para mim.

E foi muito interessante, porque eu acho que eu falei assim, cara, eu preciso honrar as pessoas que vieram antes de mim, né, trazê-las para esse álbum, para, tipo assim, eu não meter o louco de achar que, tipo assim, estou inventando algo, ou tô, tipo assim, é a primeira pessoa a fazer isso. Não, amor, eu tô continuando esse movimento que começou antes de mim. E principalmente trazer, valorizar as pessoas que estão agora, assim, sabe?

Eu sinto que às vezes a gente tem hoje no Brasil, as pessoas, elas se tornam interessantes, as pessoas, elas se tornam referências quando elas morrem, né? E eu acho que a gente precisa honrar e celebrar as pessoas em vida, sabe? A gente precisa, tipo assim, se articular e falar assim, porra, tu é muito foda, sei lá, pode ser uma pessoa que tá em Osasco e poucas pessoas te conhecem, mas assim, eu acredito muito em você e quero você do meu lado, assim, sabe?

Tipo, eu acho que foi muito interessante, foi muito foda, porque para mim não fazia sentido é, analisando a minha história, fazer um álbum, sei lá, só com artistas mainstream, assim, sabe? Eu queria que 100% do álbum, tipo assim, acho que 90% do álbum tenha sorte esse do underground, assim, sabe? Que eu acho que é esse o lugar que eu habito, esse o lugar que eu me sinto confortável, esse o lugar que eu acho que o novo, é, que o novo, velho, atual está circulando e que está sendo honrado, que está sendo, tipo assim, que precisa ser mais valorizado, assim.

Eu acho que a escolha dos feats foi nada mais, nada menos que chamar amigos que eu sou fã. Acho que nunca foi, tipo assim, ah, vou chamar essa pessoa por causa disso, não, não, não. Eu acho que não, tipo assim, todo mundo ali, eu tenho uma relação, sabe?

Eu construí uma história, eu tenho uma história, uma narrativa com essas pessoas, então foi, tipo assim, chamar, amiga, quero muito fazer um som com você, quero muito ter um som com você e vamos fazer, assim.

MI: Ai, perfeito. Acho que tem tempo para uma última pergunta. Queria saber, assim, que nessa primeira semana pela recepção do álbum, já tem muita gente falando que o disco encapsula perfeitamente o tempo presente, assim, da música eletrônica, né? E eu achei isso, eu concordo totalmente, mas então, pra gente fechar, como é que ficam as apostas pro futuro?

VITA: Ai, amiga, eu tô, tipo assim, quando eu lancei, né, eu tava conversando com as minhas amigas, eu falei assim, gente, agora o que que eu vou fazer? Acho que tem muito disso, assim, quando a artista lança uma coisa grandiosa, assim, a gente fica, tipo assim, gente, qual é o próximo passo? Mas eu tenho pensado muito em viver o processo e viver o presente, assim, sabe?

Eu acho que tá muito cedo pra falar de futuro, eu acho que o futuro, no agora, é colher os frutos do Vita’s House, é viver esse show em cada espaço, em cada casa, cada território que eu esteja, é viver com os meus fãs, assim, sabe? Então eu acho que esse álbum consiga me levar para lugares que eu nunca fui, que eu consiga ver o novo e que não tenha medo de acessar, de pisar, de dormir nesses cômodos novos que vão se acoplar nessa casa.

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