Troá no movimento de levar o palco para o disco
Há quase uma década movimentando a cena alternativa brasileira, a Troá em breve estará com álbum novo, homônimo (spoiler), saindo do forno. Enquanto isso, elas rodam o Brasil com a turnê Fazendo Um Disco, buscando levar elementos do ao vivo para o estúdio.
Formada por Carolina Mathias (voz, baixo, teclas) e Manuella Terra (bateria), a dupla agora se prepara para uma residência na Audio Rebel, no Rio de Janeiro, em todas as segundas do mês de abril (exceto a do feriado, que será compensada com um show na primeira segunda de maio).
Conversamos com elas durante o evento de fim de ano organizado pela banda Sutil Modelo Novo, onde elas se apresentaram já com esse show do disco novo. Abaixo, você confere o papo na íntegra.
Minuto Indie: Normalmente as pessoas levam o disco para o palco, mas vocês vão levar o palco para o disco, né? Eu queria saber quais são as expectativas de vocês, o que vocês esperam colher e testar nos palcos para aplicar no disco?
Troá: A gente sente que quando faz um disco, isso sempre só parece real quando está no corpo do público. Então quando a gente coloca um show novo, um lançamento de um disco e isso vai para a boca das pessoas, vai para o corpo das pessoas, é quando eu sinto o disco nascer, sabe? Dessa vez, a gente resolveu fazer um pouco diferente porque esse disco teve um processo muito diferente para a gente também, que a gente se isolou só nós duas, e foi nosso processo mais imersivo até agora, só nós duas num cubículozinho, fazendo esse disco um ano e meio, dois anos, sei lá.
A gente gostou dessa ideia do zero pra tudo, de poder levar isso para o palco antes de lançar e ser essa água fria no corpo também, sabe? E a gente já está sentindo isso, na verdade, porque já foram dois shows desse novo lance. E já tem coisa que mudou no disco porque a gente viu, ah, não, aquela dá para a gente quebrar ali, dá para a gente soltar ali, dá para tirar o instrumento ali e botar, então tipo, eu sinto que tem muita coisa que vem do palco que a gente está tendo esse privilégio de botar logo.
Manu: Exatamente isso, a gente tem muita coisa de arranjo que surge nesse momento, e a gente mais gosta de fazer na vida, é realmente tocar junto, então esse momento é muito precioso ali da gente no palco sentindo e acompanhando também as pessoas sentindo aquilo com a gente. Então a gente está reencontrando essa sensação ali do palco com coisa nova e isso está interferindo diretamente no que vai ser esse novo disco, então é muito especial.
MI: E vocês estão testando, né, isso também em lugares fora do Rio, né? Vocês foram para São Paulo, vai ter BH. Eu queria saber um pouco de como a estrada e esses novos ares assim inspiram vocês nesse processo também.
Carol: Eu acho que a estrada é enriquecedora porque você sai da bolha da sua cabeça e vai para o mundo, né? E depois do medo vem o mundo. Hoje, inclusive, a gente está aqui, acabou de ver o show da Nigéria Futebol Clube e foi um show que mudou muitas coisas para mim rapidinho, pensando que no Rio às vezes a gente fica numa bolha de influências e respirando o mesmo ar sempre, de coisas que são muito boas, mas às vezes de coisas que, sabe, seria bom ver uma esquisitice. Eu sinto que ver esse show da Nigéria, que é de Itaquaquecetuba, ver esse jazz punk acontecendo, dá muita coisa.
Então, quando a gente consegue levar o nosso disco para outros lugares antes, também tem isso de como o público vai responder, como aquilo funciona nos lugares, assim, é muito diferente. A plateia de São Paulo eu sempre acho muito diferente de qualquer outra. A de BH eu acho meio parecida com o Rio às vezes. A de Curitiba é muito empolgante também. Coisas que a gente vai encontrando e que não espera.
MI: E agora se é que vocês podem dar um pouco de spoiler com base no último disco, quais foram as maiores diferenças, assim, tanto de característica do disco quanto da dinâmica de vocês como dupla?
Manu: Esse processo de fazer esse disco está sendo muito diferente mesmo, porque a gente está, pela primeira vez, muito nós duas e só nós duas. E não é no lugar de recusar as outras pessoas, as outras ajudas, mas é o momento que a gente alcançou na nossa relação, no nosso tempo de banda, no lugar que a gente está hoje. Eu sinto que a gente se preparou esse tempo todo para fazer esse disco desse jeito, sabe?
Nós duas no estúdio da Carolina, Carolina produzindo. Então, assim, ela pegar essa produção também é uma coisa que precisava muito ser desse jeito. As composições sempre falam muito do momento que a gente está vivendo, das coisas que a gente realmente vive juntas, cada uma individualmente e também histórias pelo caminho.
Na sonoridade, a gente busca mais ainda uma coisa que a gente consegue fazer no palco o que a gente está propondo ali de gravação. Claro que não é 100% fiel, mas é uma coisa que a gente também sente que precisa fazer nesse momento, sabe? Uma coisa que está bem ali nas nossas mãos, da Carolina principalmente, o que é possível ali, que é o que a gente tem vontade de fazer e como a coisa acontece no palco mesmo, que eu acho que é a coisa realmente mágica e preferida desse trabalho, desse projeto da nossa vida.
Carol: Tem uma coisa, assim, que às vezes a gente, músico fodido, romantiza um pouco demais a precarização do músico, que é você fazer tudo sozinha dentro de um quarto e tal, e isso te dá um senso de grandiosidade… Eu acho tão caído, sabe? Então eu acho que um dos cuidados que a gente teve nesse disco foi de entender por que a gente estava fazendo isso. Se era porque a gente queria, sei lá, economizar todos os dinheiros do mundo e fazer as coisas (e não economizamos porque no final de contas tem que comprar as coisas pra fazer, mas enfim). Ou se era uma coisa, uma vontade real, assim, de conseguir descobrir o que é Troá, sabe? E o disco se chama Troá, o nosso primeiro disco homônimo. Primeiro de muitos (risos). E eu acho que tem esse lance, que é quando eu entendi que a gente vai fazer disco pro resto da minha vida, nunca vou parar de fazer isso, pelo que eu entendi até agora.
E quando eu entendi que era mais um disco e ao mesmo tempo era O disco desse momento da minha vida, eu entendi que eu preciso ficar sozinha com ela e fazer tudo ali. E aí eu acho que é isso, né? A gente também não pode tirar o recorte político de que somos mulheres fazendo música e de que eu como produtora musical tô num mar de tubarões ali, né? Uma coisa difícil, muitas vezes. Tudo que eu faço eu fico tentando ver pelos dois lados.
Então, ao mesmo tempo eu fico com medo dessa precarização dela me empobrecer mais ainda, sabe? Tipo, do trabalho não ficar o que tem que ser, mas ao mesmo tempo vendo que os lugares que a gente chegou nesse disco a gente nunca tinha chegado antes, sabe? E não dizendo que a gente vai fazer disco sozinha pro resto da vida, mas que foi muito importante, tá sendo muito importante fazer esse.
MI: Então, pra fechar agora, eu quero que vocês definam o terceiro álbum da Troá em três palavras e indiquem três discos que foram referência para ele.
[silêncio]
Manu: Gente, não tem nada dentro da minha cabeça nesse momento. Se a gente puder esperar só um minutinho. Tá, um disco da Troá. Rápido. Eu e ela.
Carol: Puta que pariu, viu? É isso. Eu lembrei daquele patinho que vendia nos anos 90, eu e ela. Eu e ele.
Acho que pra mim é tipo encarar… dá pra fazer três infinitivos, né? É foda. Encarar, medo e desejo. Que aí faz o caminho.
MI: E tem três discos que vocês achariam que serviram de referência pra isso?
Carol: Cara, é foda, porque nesse disco realmente a gente ficou muito encavernada. Mas eu vou falar um em comum que eu acho. Não é falando que eu sou foda, não, porque não é isso. Porque também é foda botar como referência como se a gente tivesse chegado perto disso, mas não é isso. O 72 do Jardim Macalé que eu acho que é homônimo também. Eu vou ter que falar o Marina Lima, homônimo. Claro. De 93.
Manu: Será que o Papota?
Carol: Eu ia falar exatamente Papota. Eu acho que é isso. Esses três.
Manu: Tem mais algum que você queira?
Carol: Não, eu ia falar o papota. Me deixou muito mal não falar When the Pawn da Fiona Apple, mas acho que isso é Deboche. É porque está dentro de mim. Acho que é isso.
MI: Perfeito, obrigada meninas.
Carol: Posso fazer uma declaração?
MI: Claro.
Carol: Rafinha é uma pessoa que a gente acompanhou no berço, a gente pegou ela no colo. A gente tinha 40 centímetros e ela tinha 20. E é muito foda pra gente tanto estar dando uma entrevista para o Minuto Indie, quanto ser ela entrevistando. Então obrigada, queria deixar isso aí para os créditos.
Manu: A gente te ama muito Rafinha.
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