créditos: @dudadudel

Artista mexicana reafirma força da nova cena latino-americana em apresentação íntima, minimalista e arrebatadora na capital gaúcha 

Há algo muito simbólico em assistir a Silvana Estrada em um teatro. Não apenas pela acústica ou pela proximidade física, mas pela disposição emocional que o espaço exige, sabe? Silêncio, escuta, celulares desligados ou no modo avião… a urgência meio que vai embora. No Teatro Simões Neto, em Porto Alegre, essa configuração não só funcionou como potencializou tudo aquilo que a artista constrói em estúdio, especialmente entre Marchita (2017) e o recente Vendrán Suaves Lluvias (2026): um mergulho delicado — e devastador — nas complexidades do sentir a música.

Fazia tempo que eu não prestigiava um show desse tipo e posso dizer que obviamente me alegra também o símbolo político em ver Porto Alegre comportando, com estrutura e sensibilidade, artistas que ainda não ocupam o circuito dos grandes palcos, mas que já carregam uma densidade artística rara. É o tipo de noite que reafirma o quanto a cidade ainda pode (e deve) ser rota para experiências musicais que fogem do óbvio. E Silvana ocupa esse espaço com precisão.

créditos: @dudadudel
créditos: @dudadudel

Existe uma suavidade imediata na forma como ela se apresenta, seja na delicadeza da voz, seja na condução das canções. Mas essa doçura é apenas a superfície porque o que se revela ao longo do show é uma artista que acessa territórios emocionais profundos com uma maturidade impressionante para uma carreira ainda jovem. Silvana comanda o público como poucas artistas da sua geração. Entre respirações, pausas e versos quase sussurrados, cria-se uma tensão sensível, quase tátil, fazendo com que a plateia se entregue completamente, acompanhando cada nuance de suas canções.

Há momentos em que tudo parece suspenso e é justamente aí que sua música atinge com mais força (eu me lavei chorando em muitas partes do show). As músicas de Vendrán Suaves Lluvias surgem ainda mais brilhantes ao vivo. É difícil não se emocionar com “Como Un Pájaro (Las Luces)”, “Flores”, “Dime” e “Good Luck, Good Night” — essa última ganhando um peso emocional ainda mais intenso no palco.

créditos: @dudadudel
créditos: @dudadudel

Assistir a Silvana Estrada ao vivo é também lembrar de algo que a vida adulta tenta arrancar da gente todos os dias. Em meio ao ruído, à pressa e à dureza cotidiana, seu show surge como um chamado delicado para não esmorecer. Para não endurecer por completo, principalmente nos tempos em que vivemos. E talvez seja justamente esse o maior gesto artístico de Silvana hoje: fazer da delicadeza uma forma de resistência.

créditos: @dudadudel
créditos: @dudadudel

Além de Porto Alegre a turnê na América do Sul, incluiu datas no Uruguai, Argentina, São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital paulista, na Casa Natura Musical, dividiu o palco com Tim Bernardes, reforçando sua conexão com a música brasileira, aliás, ela se encontrou também com ninguém menos que Gilberto Gil, de quem é muito fã.

Já na Argentina, postou vídeos com nomes como Milo J evidencia um movimento maior: uma nova geração latino-americana que revisita suas raízes sem cair na nostalgia, criando uma linguagem própria, contemporânea e, muitas vezes, vanguardista.  Sem dúvidas, Silvana Estrada está no centro desse movimento.

* Agradecimento especial a produtora Beira Agency e ao pessoal da OutraHora Rec que nos convidou pra assistir ao vivo essa apresentação.* 

Autor

  • Desde 1990 tendo uma vida incrível com uma trilha sonora sempre interessante e diariamente atualizada. Jornalista, comunicadora e ligada no 220v. Presença confirmada em festivais e shows que mantêm meu ritmo cardíaco saudável.

    Ver todos os posts

Escrito por

Duda

Desde 1990 tendo uma vida incrível com uma trilha sonora sempre interessante e diariamente atualizada. Jornalista, comunicadora e ligada no 220v. Presença confirmada em festivais e shows que mantêm meu ritmo cardíaco saudável.