Primeira edição do festival no Circo Voador foi sucesso e mostra a força da cena 

Para quem pensava que a cena do Rio andava meio parada, o Festival de Novo, teve sua primeira edição na última sexta-feira (6), no Circo Voador. A chamada aberta para participar do line-up resultou em mais de 1.600 inscrições, e dali saíram os quatro nomes escolhidos para subir no palco sagrado da casa que é um símbolo para a música brasileira.

Nesta edição, tocaram Pelados, Tangolo Mangos, Gracinha e Tori. Além da música – com uma curadoria que representa bem o  nosso cenário contemporâneo -, o espaço do festival também promoveu uma integração que está em falta na cena carioca, e que foi nomeada como “Feira da Música”. Foi neste espaço que casas de show, selos, veículos, agências, curadores e comunicadores ficaram à disposição do público para a troca de ideias e fortalecimento de conexões. 

A responsável pela abertura das apresentações da noite foi Gracinha, nascida na Baixada e criada em Natal, com o repertório de seu último álbum Corpo Celeste (2024), que lançou o público numa deliciosa viagem pela sua sonoridade dream pop com um groove caprichado. Sua banda é afiadíssima e seus vocais impressionam, e as letras do disco se fortalecem no impacto ao vivo. Rolou spoiler de faixas futuras e o show deixou um gostinho de quero mais, agora no aguardo dos futuros lançamentos e passagens pelo Rio.

Gracinha | João Pedro Cabral para Minuto Indie
Gracinha | João Pedro Cabral para Minuto Indie

Não poderia faltar um representante da cena efervescente de São Paulo, e a velha conhecida Pelados cumpriu esse papel. O Rio teve oportunidade de ouvir ao vivo um dos principais lançamentos da cena do ano passado, o álbum Contato, que não só é tão divertido quanto na gravação, como ganha muita força ao vivo com o complemento da dinâmica e da performance do grupo no palco. Ah, e abrir o show com o coro de “vamos acabar com a MPB” já virou um ato de arrepiar.

O festival foi muito marcado por convidados especiais, e a Pelados convocou Jonas Sá em “não sei fazer refrão”, e Felipe Vaqueiro da Tangolo Mangos para “planeta oxxo”, composição foi feita em parceria. Se alguém tinha alguma dúvida da capacidade da cena em emplacar hits, o encerramento do show com “foda que ela era linda” veio para provar o contrário. 

Pelados | João Pedro Cabral para Minuto Indie
Pelados | João Pedro Cabral para Minuto Indie

Com uma pausa nas guitarras para a entrada de uma voz angelical, veio Tori acompanhada de sua banda impecável no detalhe. Seu último disco Areia e Voz (2025), de altíssima sensibilidade, moldou uma apresentação que passeia pelos agudos e traz serenidade com o parceiro perfeito da voz: a flauta, comandada por Karina Neves. As participações especiais foram Julia Juazeira declamando versos e, representando a força da cena de Aracaju, Fábio Aricawa, integrante da Cidade Dormitório e El Presidente, subiu ao palco com uma simpatia irresistível e muito talento. Cada instrumento teve seu tempo de brilhar e isso, junto ao ornamento do figurino em tons terrosos com a exata energia transmitida pelo som, tornou a apresentação hipnotizante. 

Tori | João Pedro Cabral para Minuto Indie
Tori | João Pedro Cabral para Minuto Indie

E para o fechamento da noite, acho que ninguém ali estava realmente preparado. Que loucura foi o show da Tangolo Mangos! Os reizinhos do carisma chegaram ainda tímidos, mas não demorou para que o público entrasse totalmente na onda do rock camaleônico e formasse rodas que ocuparam toda a pista do circo. Poucas vezes vi um show da cena tão insano, e todo mundo se divertiu independente de ter ou não o repertório da banda na ponta da língua. 

Tangolo Mangos | João Pedro Cabral para Minuto Indie
Tangolo Mangos | João Pedro Cabral para Minuto Indie

Deu pra sentir que os integrantes tiveram que se segurar pra não descer e ficar ali na galera, mas pra compensar, teve stage diving entre o próprio público, com vários malucos voando na base da confiança nas mãos dos outros. Os convidados tiveram participações excelentes: Leandro Bessa, da Aquino, ficou responsável pela percussão; Vinícius Marçal deu algumas belas palhinhas de flauta; e Luiz Barata coroou o finalzinho do show. A energia estava tão alta que o Circo presenteou a banda e o público com uma chance para um bis, e é fato que quem não saiu suado não tem história pra contar. 

A noite foi linda! Esperamos que a ocupação do palco do Circo seja só um (re)começo de uma jornada rumo a novas conquistas da cena alternativa que segue cada vez mais viva. 

Autor

Escrito por

Rafinha Murad

Pesquiso canção popular e brinco de jornalista musical nas horas vagas.