Existem seis anos de poeira acumulada entre as primeiras demos de Liam Creamer e o lançamento deste EP. Quando ele deixou San Diego rumo ao Brooklyn, o preço da mudança foi abandonar tudo o que lhe era familiar. Na bagagem, ele levou apenas a intenção de terminar o que começou em seu quarto, gravando demos em um iPhone aos 17 anos. Hoje, sob o pseudônimo Ken Park, ele entrega um EP de estreia que soa como uma decisão final.

Liam levou seis anos maturando a ideia para que, no fim, cada faixa fosse escrita e cada faixa foi escrita em apenas um dia. É um registro de urgência diluído no tempo. Essa dualidade aparece no som: um shoegaze que foge do genérico para soar fresco, onde guitarras que lembram o peso de Siamese Dream (The Smashing Pumpkins, 1993) e Loveless (My Bloody Valentine, 1991).

O EP ganha corpo com participações que fazem sentido. Emily Borrowman (vocalista da banda Smush) empresta sua voz para a agressividade contida de “Dragonfly” e para o caos de “Shatter”. Enquanto isso, a mixagem de Mike Fridmann equilibra o polimento de estúdio com o caráter caseiro e granulado das gravações originais no iPhone.

Mas a alma do registro está nos detalhes mais improváveis. Em “Sleep Paralysis”, a faixa que encerra o EP com um dedilhado à la Nick Drake, descobrimos que a faixa se trata de uma pequena farsa criativa, já que a vulnerabilidade de Liam também é construída através da observação. Ele nunca teve paralisia do sono. A música nasceu das descrições detalhadas que sua irmã fazia sobre as próprias experiências. Creamer transformou a experiência da irmã em uma voz para o sentimento de estar preso. É um tema recorrente para quem deixou casa, carro e nome para trás para reconstruir a própria identidade em Nova York.

Em que momento Ken Park se tornou mais do que só um nome?

Cara, Ken Park é um filme. Eu assisti quando era muito novo e é um filme muito intenso. Honestamente, eu nem consegui terminar de ver. Mas o nome soou muito bem e ficou na minha cabeça enquanto eu crescia. Eu pensei em usar meu próprio nome para o projeto, mas por algum motivo gostei da ideia de dar um nome ao projeto em vez de ser apenas eu. Parecia melhor. Eu estava com uns amigos e perguntei: “O que acham de Ken Park?”. Eles reagiram tipo: “Meu Deus, eu já vi esse filme! Soa ótimo”. E eu decidi: “Beleza, vai ser esse”.

Hoje eu gosto de separar o projeto do filme porque amo a dualidade do nome. Parece o nome de uma pessoa, mas também pode ser um lugar, um parque. No futuro, quero utilizar isso e criar conteúdo em volta de algum tipo de parque real. No começo eu queria que fosse diferente de mim, quase como um alter ego para a parte mais pesada, tipo “Maybe Delete”. Mas conforme cresci, essas partes começaram a se misturar. Hoje eu me identifico totalmente com o projeto. Ainda penso em usar meu próprio nome no futuro, mas agora Ken Park faz sentido. Estou gostando de Ken Park agora.

Você gravou “Sleep Paralysis” num iPhone quando tinha só 17 anos, lá em San Diego. Olhando pra trás, como estava a sua cabeça naquela época? A música veio de uma experiência literal ou foi algo mais psicológico?

Eu não tinha nenhuma distração naquela época, eu só queria criar algo. E aqui vai uma grande revelação, porque eu ainda não tinha dito isso: eu nunca tive paralisia do sono. Minha irmã tinha e falava muito sobre isso, compartilhava as experiências dela. Esse conceito, essa ideia, me intrigava, mas eu nunca tive e nem quero ter. É engraçado porque muita gente comenta coisas tipo: “é só chamar o nome de Jesus que para na hora”. E eu nunca respondo, porque não quero estragar a narrativa dizendo que nunca tive paralisia do sono, mas nunca tive.

Você teve o Mike Fridmann na mixagem, mas escolheu manter os vocais originais do iPhone de anos atrás. Como você equilibrou esse polimento de estúdio com a energia “crunchy” e amadora das suas gravações de adolescente sem que as coisas parecessem desconectadas?

Eu tive um pouco de treinamento com som, então acho que encontrei jeitos de fazer o iPhone soar bem. Devo isso aos overdubs (dobras de voz). Onde foi gravado, o quarto não tinha nenhum tratamento acústico, mas eu tinha um microfone muito bom. Então é um mix entre o microfone do iPhone e o meu próprio microfone profissional. Além disso, meu equipamento é muito específico, então ele definitivamente tem um som próprio. É um equilíbrio gritante entre um som lo-fi “estourado” e algo muito limpo, se eu quiser. Tudo depende do meu humor; meu humor dita se eu quero que soe lo-fi ou nítido.

Eu não queria entrar num estúdio e ficar pagando por hora. Isso me sobrecarrega, talvez sejam minhas próprias questões com dinheiro. A pressão do tempo mata o processo criativo para mim. Esse EP precisava do meu ritmo. Mesmo que muitas faixas tenham sido gravadas em um dia, o resultado levou semanas mexendo no meu próprio espaço. Dito isso, estou animado para tentar um estúdio, mas preciso que pareça minha casa. Quero amigos por perto e, mais importante, a música já escrita e estruturada. Quero ter a ideia do que eu quero, mas me entregar ao controle e deixar sair como tiver que sair, confiando no processo. Eu gosto da palavra “charme” para isso. Não chamando minha música de charmosa, mas algo que você não consegue recriar por causa das circunstâncias em que foi gravada. Isso é charmoso para mim. Eu busco isso na música que eu escuto.

“Dragonfly” parece uma mudança brusca em relação aos seus trabalhos anteriores, mais barulhenta, mais ruidosa, tem muito de Slint ali. O quanto dessa mudança veio de estar sozinho num apartamento vazio no Brooklyn?

Isso é resultado da música que eu estava ouvindo. Acho que o isolamento se estendeu até antes de eu me mudar para Nova York. Quando me formei no ensino médio, todos os meus amigos foram para outros lugares. Mantivemos contato, mas foi um longo período entendendo o que significava estar sozinho. O mais importante naquele período foi aprender a ser meu próprio amigo. Em retrospecto, foi até bonito. A música que eu escutava naquela época hoje me transporta diretamente para aquele sentimento. Esse entendimento reflete as filosofias que estou “jorrando” nas minhas letras. Eu odeio a palavra filosofia em letra de música, mas são afirmações sobre algo que eu acredito. Não é tanto sobre o isolamento em si, mas sobre a nostalgia, sobre recolher meu passado ou ansiar por reviver ele.

Hoje em dia, a maioria dos artistas quer que a estreia seja milimetricamente perfeita e polida. Você fez o oposto ao deixar as “cicatrizes” e os registros do tempo visíveis. Você chegou a ficar tentado a apagar essas suas versões do passado?

O tempo todo eu tenho versões minhas mais instáveis. Escolhi deixar as coisas bagunçadas porque é como eu me sinto musicalmente. É o que eu chamo de charme humano. Eu odeio tocar nesse assunto, mas existe essa conversa sobre IA na música… eu acho que isso é algo que a IA não consegue recriar até agora. Eu sou muito contra. Sendo sincero: usaria para calcular minhas contas, só isso. Acho que não pertence à arte. Pode ser assustador, mas talvez a IA force as pessoas a buscarem esse tipo de música que eu faço por causa do desejo por algo humano. As pessoas estão gostando de vozes com características distintas, vibrato, timbre. É maravilhoso ver isso.

POR TRÁS DO DISCO 

o coração do EP: Eu reaprendendo a me expressar como uma criança enquanto viro adulto. Eu odiava crescer. Hoje acho que achei o equilíbrio entre ser criança e ser um adulto responsável que explora o mundo.

você quando iniciou o EP: Muito esperançoso. Eu estava em uma fase muito feliz, com todos os amigos por perto.

você quando finalizou: Eu tive que ser o completo oposto para chegar aqui de novo. Estou de volta ao que sentia no começo, mas espero que muito mais sábio.

uma obsessão: A música em si. Eu me considero obcecado. Eu não sei o que faria da minha vida se a música não estivesse nela. É preciso ser obcecado pelo processo, por romantizar isso e pelo triunfo de escrever uma música nova após meses de seca.

uma mentira que as pessoas devem acreditar sobre esse trabalho: Que eu levei seis anos acumulados para escrevê-lo. Sim, levou seis anos para sair, mas cada música levou um dia para ser escrita. 

Tecnicamente, são seis dias de música separados por seis anos.

Autor

Escrito por

Pedro Felicio

designer e jornalista musical.