
Projeto experimental mistura gravações da Amazônia, MPB, afoxé e capoeira com rock e metal de viés futurista
Um ano após encerrar o projeto Sonhos Tomam Conta e lançar Natureza Morta, sua estreia com o pseudônimo Antropoceno, Lua Viana abre o segundo capítulo da trilogia inspirada na obra de Ailton Krenak. O novo álbum, No Ritmo da Terra, chega no dia 16 de março via Longinus Recordings e amplia o debate que ela vem construindo entre música experimental, ancestralidade e crise contemporânea. Partindo da mensagem de “futuro ancestral” muito mais do que só um conceito estético, o álbum reinterpreta elementos tradicionais da música brasileira como o afoxé e o samba, passando pela capoeira e MPB, misturando sonoridades que também bebem muito do rock e metal experimental, além de influências de post-rock, post-metal, art rock e glitch.
Com capa que reinterpreta a pintura “Missionary Being Eaten by a Jaguar” (1907), de Noé Leon, pelas mãos do artista Poty Galaco, o disco assume o “Futuro Ancestral” (conceito baseado na obra de Krenak, para além de um projeto estético, deixa de ser apenas referência teórica e se tornando parte da matéria sonora. O resultado é um som que atravessa Afoxé, Samba, MPB e Capoeira sem soar nostálgico, pelo contrário, aqui o álbum distorce, fragmenta e reconstrói esses elementos com sintetizadores, glitch, texturas industriais e estruturas pouco convencionais. Atabaque, agogô, berimbau, caxixi, pandeiro e tamborim aparecem como base percussiva, mas são constantemente reconfigurados. A floresta também entra como personagem do disco, trazendo sons de pássaros e ambiências amazônicas para criar uma imersão densa, quase ritualística.
Sem dúvida, o ponto de partida aqui é político, afinal, não existem formas de falar sobre ancestralidade e as referências dos povos originários, sem mencionar o apagamento histórico e os ataques que ganharam ainda mais força nos últimos anos. O projeto dialoga com a tradição antropofágica brasileira, mas questiona seus limites diante da captura das vanguardas pelo mercado e da força do colonialismo cultural. Se no século XX a síntese sincrética ajudou a construir uma identidade artística nacional, hoje, segundo o conceito que guia o disco, é preciso subverter as tecnologias ocidentais e colocá-las a serviço da ancestralidade, e não o contrário.

Cantadas em português, tupi antigo e yorubá litúrgico, elas recontextualizam cantos de Candomblé e Capoeira dentro de uma narrativa que conecta passado e futuro. Na faixa “Pe Rembi’urama”, por exemplo, a perspectiva é a de um fantasma, uma figura que dialoga diretamente com a imagem da capa e com a memória colonial evocada pela pintura original. O verso em tupi que abre a música significa “Aqui estou, sua futura comida”, faz referência histórica à fala de Hans Staden ao ser capturado pelos Tupinambá. O disco também conta com participações como Gabi d’Oyá, nome promissor do soul e R&B, que aparece em duas faixas, assim como Pai Viny, ogã do terreiro frequentado por Lua.
A proposta não é rejeitar guitarras elétricas, sintetizadores ou softwares de produção, mas reprogramá-los e pensá-los dentro de um novo contexto, em uma espécie de retomada simbólica. Nesse sentido, o álbum enxerga práticas como o funk brasileiro como exemplo contemporâneo de apropriação criativa, onde técnicas modernas servem à reinvenção de ritmos ancestrais. Ao longo de No Ritmo da Terra, Antropoceno articula espiritualidade afro-indígena, crítica ao antropocentrismo e tensão ambiental num território que cruza música ritual e experimentação pesada.
O resultado é um trabalho que tenta responder, em som, a uma pergunta urgente: como realinhar nossas visões de mundo em meio à crise climática e à lógica de crescimento infinito do capitalismo? Se a arte é ferramenta de disputa de imaginário, aqui ela vira também território de reconexão. O futuro, afinal, pode até parecer distópico, mas, como sugere Krenak, o passado precisa estar cada vez mais presente. Talvez o caminho esteja cada vez mais na memória, nas cosmologias e nos saberes que sempre estiveram aqui.
No Ritmo da Terra não é só um álbum, mas sim, um manifesto cultural, tensionando muito a respeito do que compreendemos sobre música brasileira experimental e como saudar nossas raízes e as riquezas dos povos originários sem ser caricato. Uma obra genial e que eleva a sonoridade da música alternativa para outro patamar. Faça o pre-save do disco aqui.
