
Se o universo tivesse uma trilha sonora oficial, Absolute Elsewhere seria essa trilha — uma explosão sonora que goteja tanto brutalidade ancestral quanto ficção científica lisérgica. Lançado em 2024, o quarto registro de estúdio do Blood Incantation expande o conceito de “progressive death metal” até um ponto onde rótulos tradicionais perdem sentido e viram apenas pontos de referência no mapa estelar de possibilidades sonoras.
O álbum é composto por duas longas faixas, “The Stargate” e “The Message”, cada uma dividida em três partes que atuam como movimentos de uma sinfonia estelar. Cada passagem é uma tapeçaria rica em ideias: em um momento, você se vê imerso em blast beats e guturais primais; no seguinte, é conduzido por cascatas de sintetizadores que evocam paisagens tão extensas quanto um deserto marciano ao pôr do sol.
A estética remete ao choque de duas forças contrastantes: de um lado, a tradição visceral do death metal, com riffs devastadores e uma estrutura técnica impecável; do outro, uma admiração e uma mescla quase ingênua pela psicodelia dos anos 70 e pelo prog cósmico como se Tangerine Dream, que participa do álbum, e King Crimson tivessem sido engolidos por um buraco negro e retornado como fragmentos de melodia comprimidos em aço.
O primeiro lado, “The Stargate”, inicia com uma brutalidade característica do DNA do death metal, mas rapidamente se transforma em sintetizadores etéreos, texturas ambientais e trechos que poderiam ser parte de uma trilha sonora de ficção científica — uma espécie de viagem sonora que te arrasta para um vórtice temporal, enquanto a seção final te leva de volta ao caos meticulosamente calculado, com vocais profundos e cadências que parecem descrever uma luta entre espectros de luz e sombras cósmicas.
“The Message” dá continuidade a essa dualidade, iniciando com um death metal denso e técnico, antes de se desmaterializar em trechos mais progressivos e melódicos. É nesse ponto que a banda demonstra um controle incomum da dinâmica: a mudança entre climas extremos é tão fluida quanto a transição do dia para a noite em um planeta alienígena. Ao final, somos brindados com um crescendo que pode ser interpretado tanto como uma prece ritual quanto como um anúncio apocalíptico, consolidando o álbum como uma obra complexa, porém coerente.
O que mais impressiona nesse álbum não é apenas a destreza técnica, mas a ousadia de mesclar extremos contrastantes de forma natural. Trata-se de um álbum repleto de ambição, fruto do encontro entre tradição, sublime, catártico e experimentação. Aqueles que se aventuram a ouvi-lo na íntegra, que sentem como se tivessem atravessado um portal estelar e retornado com uma nova perspectiva de mundo e do universo.
Em suma, este não é apenas um álbum de death metal progressivo experimental. Trata-se de um convite para uma jornada sonora, na qual brutalidade e beleza coexistem e suas fronteiras se desfazem ao decorrer. Absolute Elsewhere é um daqueles álbuns que merece ser apreciados com atenção, seja como alguém que lê um livro de Camus, Nietzsche, Kant, Sartre ou como alguém que observa o cosmos, um riff de cada vez.

