
Faixa antecipa o lançamento do álbum Nem Toda Flor da banda anglo-brasileira
Se você é 30+ como eu, vai lembrar que em algum momento entre o fim dos anos 2000 e o início dos 2010s, o indie percebeu que podia tirar os tênis sujos do post-punk revival e dançar descalço num quintal ensolarado ao som de ritmos latinos. Foi quando surgiram discos como o do Little Joy (aquele trio formado por Rodrigo Amarante, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro) que ajudou a popularizar uma faceta mais calorosa e híbrida da cena: cheia de timbres vintage e com alma brasileira.
É nesse espírito que o grupo anglo-brasileiro Soma Soma lança “Laranjeiras”, single que antecipa o próximo álbum Nem Toda Flor (previsto via Mintaka Records). Gravada entre o Reino Unido e o Brasil, a faixa soa como uma carta de amor ao bairro carioca de mesmo nome, mas também soa como uma declaração estética que caminha entre o samba rock, a psicodelia sessentista e o jazz urbano, tudo com um jeitinho de roda de amigos improvisando no fundo de um bar.
Se os anos 2010 nos ensinaram que o indie poderia flertar com outras sonoridades sem perder sua identidade, o Soma Soma leva essa ideia a um novo patamar. É como se a banda encontrasse na ginga brasileira uma plataforma para transcender rótulos, algo entre a herança “loshermanas”, o experimentalismo dos Mutantes e a elegância do afrobeat. Segundo o vocalista e guitarrista Artur Tixiliski, a música nasceu quase como um fluxo espontâneo. “Estávamos hospedados em Laranjeiras, toquei os primeiros acordes e a banda entrou com pandeiros e saxes. Parecia um samba clássico. Mas criamos uma introdução meio ‘anti-samba’, algo que Os Mutantes fariam ao brincar com a MPB.”
A formação, majoritariamente britânica, parece entender bem a complexidade rítmica brasileira. Com metais jazzísticos, percussões densas e linhas de guitarra que flertam com o highlife africano, Soma Soma não soa como uma banda “gringa tentando fazer Brasil”, mas como um coletivo que já incorporou esse DNA com naturalidade. “Há coisas que só se compreende estando imerso na cultura. ‘Laranjeiras’ é o sentimento de estar lá”, resume o multi-instrumentista Piers Tamplin, que também assina sopros e flauta.
Nem Toda Flor, o álbum que vem aí, promete expandir essa estética, com canções que emergem de experiências pessoais, atravessadas por temas como saúde mental e pertencimento. “Nosso som se enraizou mais no Brasil”, explica o guitarrista Jonny Pryor, citando referências como Jorge Ben Jor, Banda Black Rio e Sessa. “Laranjeiras” é, acima de tudo, um passeio sensorial que se faz devagar, ouvindo a cidade respirar. É trilha sonora para um Rio de Janeiro que pulsa entre o passado e o agora, com os ouvidos sintonizados no universo global.
