Como foi o primeiro e último show do Refused no Brasil | Terra SP 31.10.25

Como foi o primeiro e último show da emblemática banda de hardcore Refused no Brasil

Mais do que nunca, Refused are fucking dead. E presenciar o show no Terra SP na última sexta-feira, 31 de outubro, foi perceber essa afirmação por duas perspectivas. A primeira é que se o Refused morre mesmo aqui (e vai) é uma pena que não podermos ver uma força dessas ao vivo de novo. A música perde. A segunda é que poucas coisas são tão bonitas como ver ciclos bem encerrados, de ver uma banda como esta ter uma segunda chance de terminar como e quando querem – e desta vez, diferente da turbulenta separação de 1998, fazer a despedida sorrindo.

E aos fãs de música barulhenta que não foram testemunhar o Refused ao vivo, que equívoco.

A primeira e única passagem da banda de hardcore sueca pela América do Sul em seus mais de 30 anos de existência deixou gostinho de missão cumprida.

Poucas vezes vi uma sala de pessoas emocionada como neste show. Era palpável a energia da memória de uma noite histórica se formando – para quem estava na plateia, mas também no palco (exceto uma galera no mezanino que parecia meio alheia, mas aí ver Refused do mezanino já justifica a reação…).

Pelos músicos que gostam de tocar, uma abertura do Eu Serei a Hiena

Eu Serei a Hiena. Como foi o primeiro e último show do Refused no Brasil | Terra SP 31.10.25

Eu Serei a Hiena fez as honras de abrir a noite – por escolha do próprio Dennis Lyxzén, vocalista do Refused, como ele nos contou em entrevista antes do show.

Subindo ao palco cinco minutos adiantados, às 19h55, a banda paulistana formada em 2005 trouxe um post-hardcore instrumental bonito.

Ainda que tocando para um público ainda tímido, o que marcou mesmo foi ver os integrantes visivelmente felizes e afim de tocar. Celebrando, agradecendo o convite e a presença de quem chegou mais cedo pra prestigiar o show.

Foi inevitável traçar o paralelo entre as atrações da noite. Se a Eu Serei a Hiena estava naquela palco pela sua paixão por tocar, o Refused anuncia seu fim justamente pelo mesmo motivo.

Aqui jaz Refused (e o hardcore político que emociona)

O Refused é um megazord da excelência e comprovou isso no palco do Terra SP.

Em presença, em som, em mensagem, tudo soa potencializado com o Refused ao vivo.

Quanto à presença, não há texto que descreva a presença do David Sandström tocando bateria ou como comove ver o Dennis Lyxzén dando a vida como frontman.

Quanto ao som, o repertório focado nos seus lançamentos dos anos 1990 soa extremamente atual. E deixa os novinhos no chinelo, na verdade.

O público vibrava mais nos hits do clássico The Shape of Punk to Come, claro, mas a banda veio preparada para isso. “Se quisermos celebrar a história do Refused, então teremos que tocar as músicas que vocês não curtem tanto. Essas são hardcore old school. A banda que poderíamos ter sido se não ficássemos tão pretensiosos”, disse Dennis antes de começar Circle Pit.

Viva a presunção se é ela que nos dá a oportunidade de viver magia com Liberation Frequency. Mas não dá pra ignorar que Pump The Brakes, um hardcore mais cru e direto, é um dos pontos altos da banda ao vivo – e viva nosso Bruno Capelas que fez este registro:

Quanto ao lado político do hardcore da banda, ele atravessa mais do que a música. Tá na bandeira da palestina estendida no palco e no coro de “Free Palestine” antes do hit New Noise. Está também nas falas do vocalista. Quando puxou um discurso de “se você acredita que pessoas trans, pessoas LGBTQ+, imigrantes são o problema, então talvez você seja o problema”, Dennis foi aplaudido. Podem até parecer slogans simples, mas o histórico de ativismo do Refused não deixa ficar na superfície.

Foram 18 músicas para um público que aguardou desde os anos 1990 para testemunhá-las ao vivo. No dia seguinte, dava pra chorar lendo relato de fãs que os integrantes compartilhavam nos Stories. Foi daqueles shows que te faz querer voltar no dia seguinte pra ver de novo. Uma pena que não vai ser possível. Ou vai que é a finitude que deixa ainda melhor.

Não faltam sucessores do hardcore-jazz-tortinho hoje. O Refused criou linha de sucessão. Mas a real é que (ainda) não tem ninguém à altura.

A boa notícia é que os integrantes já tem promessa de uma nova banda – sem as expectativas que o nome atual carrega. É um alívio sair do show sabendo que tem mais de onde isso tudo veio. Tomara que voltem repaginados pra cá. Refused ou não-Refused, a gente aceita.

Autor

Escrito por

Maria Luísa Rodrigues

mestranda em comunicação, midióloga de formação e jornalista de profissão. no Minuto Indie desde 2015 e em outros lugares nesse meio tempo.