Lotar uma grande casa de show mesmo sem nenhum lançamento recente não é pra qualquer um. Foi isso que Black Alien fez ontem (27) na Fundição Progresso, no show comemorativo de 20 anos de seu primeiro disco solo Babylon by Gus — Vol. 1: O Ano do Macaco, um marco no rap e hip hop brasileiros. 

Antes de qualquer coisa, um problema não pode ser desconsiderado: Gustavo é conhecido por seus atrasos recorrentes em shows, e o nível da noite de ontem foi tanto que colocaram a atração de fechamento da noite para tocar antes dele, uma hora depois do horário originalmente combinado. Complicado. 

Carregados de uma grande responsabilidade de segurar o público num momento de apreensão, Jamaicaxias dominou o palco numa apresentação excelente e com bastante energia. O grupo tem o som fincado no dancehall e as raízes na Baixada Fluminense, e vem fazendo barulho na cena do Rio de Janeiro. Seria uma decisão acertada pro fechamento, e acabou sendo a solução mágica da espera. 

Depois de mais de duas horas de atraso e muita apreensão por parte do público, um membro da equipe Fundição garantiu que ele entraria em menos de dez minutos dali, e assim aconteceu. Numa entrada tímida e acústica acompanhada de violão, ele cantou Vai Baby, com cenário semelhante a um culto: coro altíssimo e o pregador Gus de branco. As músicas ficaram mais encorpadas logo depois, com a entrada do DJ em Área 51 e Jamais Serão. 

Embora o show seja comemorativo do primeiro disco, esse só deu as caras mesmo a partir da quarta faixa, com From Hell do Céu. Houve poucas menções de Black Alien ao aniversário do disco, e parte do público pareceu não ter feito tão bem o dever de casa de escutá-lo, dado que a cantoria nas músicas mais recentes foi infinitamente maior. 

Daí pra frente, porém, o primeiro disco foi tocado quase todo na íntegra, com destaque pra Como Eu Te Quero, U-Informe e a autointitulada Babylon by Gus. Ele buscou ativamente interagir com a plateia, fazendo até piada sobre os problemas de retorno no microfone: “quem não vem na passagem de som não pode reclamar, né”. Parecia também querer compensar o atraso mimando o público com leves spoilers do próximo álbum, que por ora reside apenas no campo das ideias, sem previsão de lançamento.

Não dá pra dizer que ele é totalmente alheio aos seus próprios vacilos. Na verdade, ele pede compreensão, e também reconhece o carinho e esforço de todo mundo que estava lá presente: “vir aqui e ouvir o que eu tenho a dizer não tem preço. Eu não esqueço disso não. Vocês são foda, muito obrigado. E olha que aqui é o Gustavo que está falando, não é nem o Black Alien.” 

O show novamente se mostrou distante da própria temática comemorativa e se encaminhou para o fim com outras faixas do Abaixo do Zero: Hello Hell, até encerrar oficialmente como Chuck Berry, single lançado em 2020 que compôs a trilha sonora da pandemia de muitos ali. O gostinho que ficou no final foi de que, talvez, a espera tenha valido a pena.  

É nítido como os fãs tem carinho por ele, especialmente sabendo das fases difíceis e recaídas pelas quais ele passou. No entanto, também se percebe como ninguém sabe muito qual postura assumir diante dessas situações. Tem os que reclamam e vaiam, mas também os que apoiam incondicionalmente, sempre tentando olhar sensivelmente para a pessoa por trás da estrela. Sua genialidade artística acaba funcionando como trunfo de perdão para esses deslizes que, embora sigam se repetindo, não ofuscam o poder que sua música e sua caneta tem.

Autor

Escrito por

Rafinha Murad

Pesquiso canção popular e brinco de jornalista musical nas horas vagas.